Shakyla Hill é uma basquetebolista que é chamada para esta crónica por ter assinado, no passado dia 3 de janeiro, uma façanha rara num campo de basquetebol: um quádruplo-duplo. A jovem que alinha na Universidade de Grambling State somou 15 pontos, 10 ressaltos, 10 assistências e 10 roubos de bola na vitória sobre Alabama State, tornando-se apenas na quarta mulher a registar dois dígitos em quatro itens estatísticos em toda a história da NCAA Division 1.

Os elogios a Shakyla Hill vieram de toda a parte e, em particular, do ídolo da jovem atleta: LeBron James. "Conseguir um quádruplo-duplo é algo que impressiona. Não importa em que nível estás, em que liga estás, masculino ou feminino", afirmou o 23 dos Cleveland Cavaliers. LeBron sabe do que fala. Na sua 15.ª temporada na liga, o extremo/poste regista um total de 63 triplos-duplos. Nunca assinou um quádruplo-duplo.

Talvez LeBron já sonhasse em ser jogador da NBA quando aconteceu o mais recente dos quatro quádruplos-duplos da história da NBA. O "King" tinha festejado o seu 9.º aniversário há pouco mais de um mês quando, a 17 de fevereiro de 1994, o antigo poste dos San Antonio Spurs, David Robinson, se tornou o último a entrar nesse exclusivo lote de atletas, com 34 pontos, 10 ressaltos, 10 assistências e 10 desarmes de lançamento numa partida frente aos Detroit Pistons.

Oficialmente, a NBA só começou a registar roubos de bola e desarmes de lançamento em 1973, o que explica o facto de apenas existirem quádruplos-duplos desde... 1974. Ainda assim, há alguns registos não oficiais que apontam para vários quádruplos-duplos anteriores. Há crónicas de jornais regionais antigos que garantem que Wilt Chamberlain e Bill Russell - uma vénia! - o fizeram, em várias ocasiões.

Há mesmo um registo não oficial de um suposto quíntuplo-duplo, em 1968, da autoria de Chamberlain (53pts, 32res, 14ast, 12rb, 24dl), mas muita gente duvida dos 24 (!) desarmes de lançamento.

E, por isso, o primeiro a conseguir dois dígitos em quatro índices estatísticos diferentes, pelo menos oficialmente, foi Nate "The Great" Thurmond. Depois de onze épocas ao serviço dos Golden State Warriors, Thurmond mudou-se para Chicago e na estreia pelos Bulls, em outubro de 1974, terminou com 22 pontos, 14 ressaltos, 13 assistências e 12 desarmes de lançamento diante dos Detroit Pistons, num encontro decidido apenas no prolongamento.

Doze anos mais tarde, em fevereiro de 1986, foi a vez de Alvin Robertson, lenda dos San Antonio Spurs, somar 20 pontos, 11 ressaltos, 10 assistências e 10 roubos de bola num jogo frente aos Phoenix Suns. Este é, de resto, o único quádruplo-duplo da história com roubos de bola. Nessa temporada, Robertson foi eleito Most Improved Player e Defensive Player of the Year.

O senhor que se seguiu foi Hakeem Olajuwon, dos Houston Rockets. "The Dream" ficou a apenas uma assistência de registar dois quádruplos-duplos... no mesmo mês! Em Março de 1990, conseguiu 29 pontos, 18 ressaltos, 9 assistências e 11 desarmes de lançamento contra os Golden State Warriors e, poucos dias depois, fez 18+16+10+11 diante dos Milwaukee Bucks.

Nos (praticamente) 24 anos que separam o último quádruplo-duplo, o tal de David Robinson, aos dias de hoje, mais ninguém logrou fazer 10x4. Mas vários estiveram perto. O mais recente foi o extremo/poste Draymond Green (10/02/2017), dos campeões Warriors, que somou 12 ressaltos, 10 assistências, 10 roubos de bola e... meros quatro pontos. Falhou o quádruplo-duplo por causa da categoria mais fácil de atingir a dezena.

De facto, o item estatístico em que é mais difícil de chegar aos dois dígitos é o dos roubos de bola. Nas últimas vinte temporadas, apenas cinco jogadores conseguiram roubar dez bolas num jogo, ou seja, há 15 épocas sem um único registo desse género. Quanto a jogos com dez ou mais "abafos" do mesmo jogador? Trinta registos nos últimos vinte anos.

Atualmente, o líder do ranking dos roubos de bola na temporada que está a decorrer é o extremo Paul George, dos Oklahoma City Thunder, com média de 2.2 roubos de bola por partida. O mais prolífico a desarmar lançamentos é o poste francês Rudy Gobert, dos Utah Jazz, com média de 2.4 por encontro.

Tudo isto levanta uma questão: há alguém capaz de assinar um quádruplo-duplo nos dias que correm? A resposta é sim, mas é difícil.

Por um lado, a versatilidade é, cada vez mais, uma característica do protótipo do basquetebolista moderno. Hoje, os jogadores têm que ser capazes de lançar, passar, driblar, independentemente da altura e morfologia. Por outro lado, a evolução do jogo, do scouting e até a cada vez mais premente necessidade de descanso dos atletas são obstáculos óbvios.

Ainda assim, lançamos aqui alguns nomes que podem, numa noite de inspiração, suceder a David Robinson:

Os óbvios

Russell Westbrook, LeBron James e James Harden são "triplos-duplos" à espera de acontecer. Juntos somam 191 triplos-duplos nas respectivas carreiras (94+63+34) e, num jogo que combine algum empenho defensivo com "turnovers" em demasia dos adversários directos, poderão lá chegar.

Os canivetes suíços

Draymond Green, Anthony Davis e Ben Simmons. Fazem de tudo um pouco e enchem as várias colunas da folha estatística, noite após noite. Pelas capacidades defensivas que demonstram, são talvez os mais "equipados" para concretizar um quádruplo-duplo.

Os unicórnios

Kevin Durant, Giannis Antetokounmpo, Kristaps Porzingis e Nikola Jokic. Podem jogar em múltiplas posições, no ataque e na defesa, e a vantagem de altura e envergadura que normalmente têm em relação aos adversários diretos dá-lhes a possibilidade de somar números com facilidade.

Os postes multifunções

Joel Embiid, Andre Drummond e DeMarcus Cousins. Bons lançadores e ressaltadores, têm demonstrado uma capacidade de passe acima da média para a posição. E num dia de inspiração dos colegas na altura de lançar...

Os outros

Chris Paul, Kawhi Leonard, Paul George, Blake Griffin, Nicolas Batum, Rajon Rondo e Ricky Rubio. Numa noite louca.

Os recordes são para serem batidos e há-de surgir alguém capaz de assinar novo quádruplo-duplo. Mais cedo ou mais tarde. Até lá, e mesmo que fiquem a um roubo de bola ou dois desarmes de lançamento de distância, deliciemo-nos com as tentativas.

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