“A revolução mostrou-me que tudo era possível”, diz Ameni Ghimaji, que tinha apenas 18 anos quando participou da enorme manifestação em Tunes no mesmo dia em que o Presidente Zine El Abidine Ben Ali fugiu do país.

Não havia um mês desde que, a 17 de dezembro de 2010, o jovem vendedor ambulante Mohamed Bouazizi tinha lançado fogo sobre si mesmo em Sidi Bouzid, no centro da Tunísia, e Ben Ali era o primeiro dos déspotas derrubado após décadas no poder pela que ficou conhecida como a Primavera Árabe.

Fotografada com o punho levantado, gritando a sua raiva contra um regime autoritário, nepotista e corrupto, Ameni Ghimaji personificou uma revolução juvenil pacífica que se estendeu a outros países num terramoto político.

“Não tínhamos planos para o futuro, mas tínhamos uma certeza: tudo era melhor do que aquilo”, declara Ghimaji, empregada no setor cultural, citada pela agência France Presse.

De Tunis a Tripoli, passando pelo Egito ou pela Síria, a onda de manifestações permanece para os que nela participaram como um parêntese encantado que semeou esperança, ainda que as revoltas tenham tido resultados diferentes e muitas vezes dececionantes.

Na melhor das hipóteses as manifestações populares em massa foram seguidas por reformas precárias, e na pior por um regresso à ordem autoritária e até por intermináveis conflitos armados.

O advogado tunisino de esquerda Abdennaceur Aouini, na altura com 40 anos – cujas imagens a festejar a fuga de Ben Ali desafiando o recolher obrigatório correram as redes sociais -, reconhece estar “desiludido”, embora a Tunísia seja o único país tocado pela Primavera Árabe que continuou o caminho, com a adoção de uma nova Constituição e eleições democráticas.

No Egito, após três anos tumultuosos e a destituição de um presidente islamita pelo exército, o marechal Abel Fattah al-Sissi dirige um regime pelo menos tão repressivo como o de Hosni Mubarak, derrubado pela Primavera Árabe.

“Dez anos depois ainda existe esperança entre a geração mais nova, os que eram crianças na altura da revolta”, diz Mohamed Lotfy, 39 anos, diretor de uma organização de defesa dos direitos humanos sediada no Cairo, a Comissão para os Direitos e Liberdade.

Mas “o governo faz tudo o que pode para matar o sonho de 25 de janeiro (quando foi lançada a revolução no Egito)”, adianta.

Na Líbia, Síria e Iémen, os conflitos resultantes do enfraquecimento do poder central continuam a causar devastação.

O líbio Majdi, 36 anos, não se arrepende de se ter manifestado até à queda do regime ditatorial do coronel Muammar Kadhafi: a revolução “era necessária e ainda acredito nela”.

“No início da revolta não se tratava de derrubar o regime (…), apenas de ter um pouco mais de liberdade, de justiça e de esperança”, adianta, admitindo: “Creio que não tínhamos consciência da extensão dos danos que o regime de Kadhafi causou aos fundamentos do Estado”.

Depois da morte de Kadhafi, em outubro de 2011, a Líbia mergulhou na violência inter-tribal e o caos é aproveitado por grupos ‘jihadistas’. Aumentou a interferência estrangeira, exacerbando um conflito que ainda não terminou.

Como na Síria. No início, “pediam-se apenas reformas”, recorda Dahnoun, então um estudante de 15 anos.

Iniciada em Deraa, no sul do país, a partir de 19 de março, a contestação contra o regime de Bashar al-Assad ganha amplitude rapidamente e Dahnoun viu a sua primeira manifestação ser reprimida com sangue, como outras, o que transformou o caráter pacífico do movimento.

“Fomos atacados por bandidos a soldo do regime e membros das forças de segurança”, conta o estudante de ciências políticas a partir de Idlib, o último setor fora do controlo de Damasco.

Desde então, a guerra na Síria causou mais de 380.000 mortos e milhões de refugiados e deslocados. A crise económica e as sanções esmagam o país e Assad continua firme no poder.

Mas o sonho dos manifestantes sírios não desapareceu completamente. Abu Hamza, um professor sírio de Dera-a, ainda quer acreditar que “as coisas não podem ficar assim”.

“Quando se tem fome, deixa de se ter medo”, alerta este pai de família.

Uma segunda série de revoltas oito anos mais tarde no Sudão, Argélia, Iraque e Líbano mostra que a chama do movimento pró-democracia não foi extinta.

Para Noah Feldman, professor de direito na Universidade de Harvard, “o principal significado político da Primavera Árabe (…) é a promoção de atores árabes, agindo por conta própria e escrevendo de modo totalmente independente (…) a sua própria História”.

Como romancista, o egípcio Alaa al-Aswany, que participou em manifestações no Cairo em 2011, tem outra conclusão: “A revolução é como apaixonar-se, faz de ti uma pessoa melhor”

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