Sendo a religião monoteísta mais antiga do Mundo, o papel das mulheres no judaísmo tem evoluído ao longo dos séculos. Atualmente, as duas maiores comunidades de judeus no mundo encontram-se nos Estados Unidos e em Israel.

Segundo os textos mais clássicos do judaísmo – não só a Bíblia, como também o Talmude e outros –, sempre existiram algumas diferenças entre os géneros. Nos primórdios dos tempos bíblicos, o casamento e a lei familiar favorecia os homens – por exemplo, o marido podia-se divorciar da mulher se quisesse, mas a mulher só se podia divorciar do homem com o seu consentimento.

A literatura clássica, como o Talmude, tem várias citações que colocam as mulheres subordinadas aos homens. Mas o contrário, por vezes, também acontece, com as mulheres colocadas num patamar superior ao dos homens:

  • Maior é a recompensa dada pelo Todo-Poderoso à (justa) mulher do que ao (justo) homem;
  • Um homem sem mulher vive sem alegria, bênção e bem; um homem deve amar a sua mulher como a ele mesmo e respeitá-la mais do que a ele próprio;
  • Dez formas de discurso desceram ao mundo, as mulheres ficaram com nove;
  • As mulheres têm mais fé que os homens;
  • As mulheres têm um grande poder de discernimento.

Conforme se lê no portal digital Judaism 101, o Talmude acentua os papéis da mulher como mãe, esposa e cuidadora do lar. As mulheres são desencorajadas de ir para o ensino superior, sob pena de negligenciarem o seu dever primário como mães e esposas.  Como tal, tradicionalmente, a mulher judia estava dispensada de várias atividades religiosas que são apenas obrigações dos homens, para que os seus deveres de mãe não fossem comprometidos. Esta isenção diminui o papel da mulher na sinagoga, lugar da assembleia da comunidade, algo muitas vezes visto como menos importante que o papel dos homens no judaísmo. Aliás, para constituir tradicionalmente uma comunidade que se reúne numa sinagoga, são necessários pelo menos dez homens.

Rachel Adler, professora de Pensamento Judaico Moderno, teóloga e feminista, considera que muitas mulheres judias comprometidas com a sua fé se sentem “desconfortáveis com a sua posição no judaísmo”. No seu ensaio de 1971 The Jew Who Wasn’t There: Halacha and The Jewish Women(O Judeu que não estava lá: Halacha e as mulheres judias), Adler afirma que não se identifica com os estereótipos da mulher judia modesta e mãe. Analisa depois os preceitos de Halacha, as regras que devem ser seguidas para cumprir os preceitos da Torá.

Para muitos, esta perspetiva feminista foi considerada inovadora na desconstrução dos papéis de género no judaísmo.

Recentemente entrevistada para um portal de notícias judaicas da Califórnia, Adler considera que é necessário inserir um olhar feminino na Torá e no Talmude, para que a Halacha se possa transformar num veículo de cura e não “numa ferramenta de opressão”. A professora comenta ainda que o movimento Me Too pode e deve encorajar uma revisão dos preceitos religiosos.

Do sexismo ortodoxo às primeiras mulheres-rabis

Hoje em dia, tal como em outras confissões, as diferentes correntes do judaísmo apresentam diferentes perspetivas do papel da mulher.

A ortodoxia judaica inclui ultra-ortodoxos, ortodoxos e ortodoxos modernos. São, em geral, o ramo mais conservador dos judeus, as expectativas sobre as mulheres baseiam-se quase exclusivamente naquilo que está consagrado na Halacha. As vestes devem ser modestas, o cabelo tem de permanecer coberto e as regras acerca da escolaridade e do papel da mulher no lar são iguais às dos tempos bíblicos iniciais.

Enquanto que muitas mulheres se conformam a este estilo de vida mais regrado, outras tentam explorar o âmbito em que se encontram, permanecendo nos limites da sua fé. Em Nova Iorque, duas irmãs criaram uma linha de roupa dentro das regras do judaísmo ortodoxo, para que as mulheres se pudessem sentir bonitas mesmo vestindo-se modestamente. No mesmo estado, três mulheres ortodoxas criaram uma banda de rock e dão concertos só para mulheres – algo a que as mulheres não podem normalmente assistir.

Num âmbito mais teológico, a americana Lila Kagedan, uma das poucas rabinas ortodoxas (ainda que o Conselho Rabínico dos Estados Unidos não a reconheça como tal) considera que é importante que se continue a insistir no acesso das mulheres ao rabinato: “O sexismo está muito presente na comunidade judaica. Este é um desafio que requer uma mudança cultural e filosófica radical para ser solucionado. Não é fácil conciliar filosofia antiga com valores contemporâneos. Mas agora, mais do que nunca, as mulheres líderes no judaísmo ortodoxo devem ser encorajadas a levantar-se e a ser bem sucedidas.”

Se nos ramos mais conservadores a mudança ainda passa pelo papel da mulher na sociedade, nos ramos mais liberais as mudanças são perspetivadas a um nível teológico. “Apenas recentemente as mulheres se tornaram professoras de teologia, rabis e contribuidoras para a Halacha”, dizia também Rachel Adler.

Até ao Renascimento judaico (Haskalah) nos séculos XVIII e XIX, a ideia de mulheres rabis parecia remota. Mas, nas últimas décadas, começou a assistir-se à formação de várias mulheres em escolas de rabis. A maioria das mulheres-rabis hoje em dia foram consagradas em seminários conservadores, reformadores ou reconstrucionistas. A primeira mulher-rabi oficial foi Regina Jonas, de Berlim Leste, consagrada a 25 de dezembro de 1935 como rabi das comunidades judias da Alemanha. Nos Estados Unidos, o movimento Reformador ordenou a primeira rabina em 1972, o Reconstrucionista em 1974 e o conservador em 1985.

Rezar no Muro das Lamentações

Nas comunidades conservadoras do judaísmo, a perspetiva é a de que a Halacha é vinculativa mas está sempre em evolução.

Em dezembro de 1977, uma assembleia de rabis e o Seminário Teológico Judeu criaram a Comissão para o Estudo da Ordenação das Mulheres como Rabis: daí a um ano, os onze membros concluíram não haver objeção à preparação e consagração de mulheres.

Entre as comunidades reformadoras, desde o início que se permite a homens e mulheres rezarem juntos. À medida que o papel da mulher foi mudando na sociedade, durante o século XX, formou-se nos Estados Unidos o Conselho Nacional de Mulheres Judias, que permitiu a entrada das mulheres no rabinato.

Os reconstrucionistas, finalmente, fundados por Mordecai Kaplan, um judeu estadunidense professor de teologia, têm mulheres rabis desde a sua formação, em 1968. Tal como os reformadores, acreditam que os homens e as mulheres têm direitos iguais, independentemente da Halacha.

Em Israel também tem havido mudanças. A organização Women of The Wall (WOW), um grupo fundado em 1988, defende que as mulheres devem poder rezar como um grupo (lendo a Torá) no Muro das Lamentações. Atualmente, a lei de Israel não permite que isto aconteça e uma mulher que o tente pode ser condenada a seis meses de prisão. As WOW integram milhares de mulheres de todo o mundo e de todos os ramos do judaísmo, incluindo ortodoxos.

A 31 de janeiro de 2016, o Governo israelita aprovou a criação de um espaço de prece igualitário onde mulheres judias (não-ortodoxas) e homens pudessem rezar no Muro das Lamentações. Esta decisão foi celebrada por vários líderes judeus mundiais e condenada por líderes ortodoxos.

Shoshana Gugenheim tornou-se uma das primeiras mulheres tradutoras da Torá em Israel e, em 2010, foi a líder do grupo de seis mulheres tradutoras The Women’s Torah Project. O projeto foi traduzido para a sinagoga Reconstrucionista de Seattle, em Washington (Estados Unidos).

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