“O livro já não é meu”, anuncia o homem que o escreveu. Afonso Reis Cabral, 30 anos, é o autor de Pão de Açúcar e sentou-se no “banco dos réus”, sendo o primeiro escritor convidado para a discussão do próprio livro do clube de leitura do SAPO24. Aos leitores, Afonso Reis Cabral explica que a obra deixa de ser sua quando é tomada por eles — e, hoje, não tem nenhuma “chave de leitura” que explique a totalidade dos símbolos no texto.

Pão de Açúcar, o segundo romance do escritor lisboeta, decorre nas “zonas sujas” do Porto e conta a história de Gisberta, assassinada, em 2006, num edifício abandonado no Campo 24 de Agosto — que deveria ter tido um supermercado Pão de Açúcar, que lhe valeu o nome. Mas a Gisberta e o Campo 24 de Agosto de Afonso Reis Cabral são só seus. Inspirado numa história real (o homicídio cometido por jovens), o autor constrói os seus cenários e personagens.

Questionado sobre quais as partes mais difíceis de escrever, Afonso conta que “houve momentos de escrita que foram complicados”, alturas em que teve mesmo “pesadelos com o que estava a escrever”.

O tema é delicado: jovens — crianças — matam uma mulher transexual num prédio do Porto. E os factos reais da história de Gisberta vêm mobilizando agitações sociais, desde os memoriais nas paredes abandonadas do mono que ainda resiste à beira da Fernão de Magalhães, aos pedidos dos cidadãos da cidade para dar o nome dela a uma rua da Invicta. Afonso Reis Cabral não estava, porém, à procura de passar uma mensagem “social” sobre a questão.

“É evidente que uma ilação pode ser tirada pelo leitor — mas isso cabe ao leitor”, assume. “Se as pessoas querem ser sensibilizadas, que se sensibilizem”, acrescenta ainda, lembrando que o aspeto mais importante desta narrativa nem é a transexualidade, uma realidade que lhe é alheia, mas “a procura da felicidade”, o “crescimento” das outras personagens. “O Rafa anda à procura de uma mãe”, lembra.

Assim, afasta também as críticas de apropriação de uma história que não é sua — porque, na verdade, as pessoas que habitam o Porto de Afonso Reis Cabral não são de carne, mas de descrições e letras. “O caso [Gisberta] é uma pedra de toque”, uma inspiração para chegar a outro universo, sublinha o autor, em resposta aos leitores. “Não quero ensinar ninguém a viver — o papel do escritor é fazer literatura”.

O grupo de leitores que participou nesta edição do clube de leitura do SAPO24 aproveitou a ocasião para elogiar Afonso Reis Cabral, mas também desvendar os artifícios usados na construção de um livro, da pesquisa às inspirações, que descreveu ao pormenor — e que podem ser ouvidas no áudio desta conversa divertida e descontraída, disponível acima.

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