O Relatório de Outono de 2019, cuja divulgação foi feita em duas partes (a primeira em 12 dezembro e a segunda hoje) demonstra que a mediana dos tempos de dedicação semanal a cada doente é de cerca de 45 minutos na área da medicina, 82 minutos na da enfermagem, quase nove minutos na da psicologia e dez minutos na área de serviço social.

Outra das conclusões do relatório “Atividade Assistencial das Equipas/Serviços de Cuidados Paliativos” aponta que, em 2018, acederam a cuidados paliativos 25.570 doentes adultos e 90 em idade pediátrica, o que denota uma taxa de acessibilidade de cerca 25% dos adultos e 0.01% em crianças e jovens.

Em declarações à agência Lusa, o coordenador do OPCP - Instituto de Ciências da Saúde, da Universidade Católica, Manuel Luís Capelas, explicou que a taxa de acessibilidade “está em linha com o que tem sido estudado e apresentado”, que ronda entre os 25 e os 50%.

“Estamos no limite mínimo dessa taxa de acessibilidade”, mas está em consonância com o preconizado para dois anos de implementação de um programa de cuidados paliativos.

Mas, afirmou Manuel Luís Capelas, “o que nos preocupa de sobremaneira” é o baixo tempo de alocação profissional às equipas, com baixo número de recursos, já apontado no relatório de dezembro.

“Este relatório vem dizer que, apesar de tudo, até se consegue receber muitos doentes, mas o que acontece é que isso tem algum impacto aparentemente negativo”, nomeadamente no escasso tempo de dedicação profissional por doente.

Isso traduz-se no facto de, em “metade das equipas, os médicos terem cerca de nove minutos ou menos por doente por dia, o que não abona nada em termos de uma prática integral e de uma visão multidisciplinar que tem que haver” nestes cuidados.

O tempo alocado dos psicólogos e dos assistentes sociais ao doente também é “muito reduzido para uma prática verdadeiramente de cuidados paliativos”, que não deve ficar muito centrada no controlo de sintomas.

“Nós não poderemos prestar bons cuidados se não tivermos as pessoas com alocação necessária”, disse, defendendo ser “preferível” ter menos recursos e ir dotando a rede para crescer de “uma forma sustentada, prática, com os recursos adequados”.

O objetivo é permitir uma prática adequada, sendo “muito seletivos” na identificação, triagem e na admissão dos doentes e, “acima de tudo, em tempo útil para que estas equipas possam verdadeiramente prestar os cuidados”.

O estudo também demonstra que há realidades “muito diferentes” no país, com locais onde há médicos a poder dedicar seis minutos por semana a um doente e outros quase duas horas.

Para Manuel Capelas, “há que repensar de forma urgente [este problema], porque o sofrimento é urgente e o número de pessoas” que necessita destes cuidados vai aumentar.

“Isto não é uma questão de esperar que o tempo resolva. O tempo vai agravar esta situação se continuarmos a dar respostas que apostam sobretudo na estrutura”, em números e numa taxa de acessibilidade por recurso em vez de uma taxa de acessibilidade por doente que coincida com o tempo que o médico tem disponível para o paciente.

Estima-se que existam em Portugal cerca de 102.452 doentes adultos e 7.828 em idade pediátrica com necessidades paliativas.

O relatório ressalva que, apesar de os resultados não poderem ser definidos como completamente representativos da realidade nacional, as taxas de resposta acima dos 50% justificam a importância e validade externa deste estudo.

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