No distrito de Buzi, um dos mais afetados em Moçambique pelas cheias que se seguiram ao ciclone de 14 de março, mas também noutros distritos afetados, improvisam-se abrigos, constroem-se novas habitações precárias, mas o principal lamento é o de que, até agora, ainda nenhuma ajuda lhes chegou.

“Se dão (alimentos) é à beira da estrada, não vêm para o interior, para estes caminhos”, contou à Lusa Bernardo António, enquanto a tentar recuperar tijolos de uma casa destruída. “Ajuda? Não temos ajuda. Só houve umas bolachas que jogaram de avião mas aqui não temos nada”, diz.

As palavras de Bernardo António não são muito diferentes das de outros habitantes da localidade de Mudamufo, entre Tica e Buzi. Apesar de terem ficado sem casas, de terem de improvisar locais para dormir, é da falta de apoio alimentar que se queixam.

“Comida ainda não chegou, não veio ajuda, não temos ajuda”, queixa-se Raul Augusto, que, juntamente com a mulher e os quatro filhos, dorme naquele que seria o alpendre de uma casa, um plástico grande seguro por paus encostados à parede e um montinho de roupas a um canto. Diz que vai ficar ali não sabe quanto tempo mais e que se chover é no mesmo sítio que estará.

Não muito longe, na localidade de Castigo, distrito de Nhamatanda, Zacarias Paulo também teve de improvisar para recomeçar no negócio da moagem, totalmente destruído pelo ciclone Idai.

“A ventania fez deixar cair a casa e nós levantámos um pouco para conseguir trabalhar”, conta. A moagem tem um aspeto frágil, mas Zacarias diz que a vai reconstruir dentro de dias e que agora está a “organizar dinheiro”, para comprar chapas de zinco e bambu. Para já usa chapas recicladas, recuperadas depois do ciclone, um pedaço de lona num lado, umas ramas de árvore do outro.

“Ajuda ainda não veio”, atira.

À beira da estrada de terra batida que liga Tica a Buzi, distrito ainda isolado pelas águas, Beatriz Mequi, com quatro filhos, diz que vive na escola porque ficou sem casa e que até agora ainda não teve qualquer ajuda. Na escola, conta, já distribuíram alimentos que não chegaram a ela: “Não sei se vão trazer mais, eles disseram que vão voltar, há muita gente que não recebe nada”.

Queixas idênticas de muitos outros moradores da região, como Sebastião Zacarias, que diz que até agora “nada mesmo”, queixas de Vasco João, que garante que àquela zona não chegou qualquer ajuda e que esta ficou só junto da estrada principal, sem chegar às populações que vivem no interior.

O número de vítimas mortais do ciclone Idai e das cheias que se seguiram no centro de Moçambique subiu na terça-feira para 468, anunciaram as autoridades moçambicanas.

Enquanto isso, Sebastião diz que nem ajuda de arroz e nem de milho, e fala também das bolachas que caíram do céu mas que ninguém apanhou. Ou quase ninguém. “Se pelo menos nos dessem um plástico…”.

Zacarias Mbimba, que reinventou um casa, pequenina e frágil, com restos de “plástico estragado”, bambu e caniço, semeava arroz, milho e tomate e agora não tem nada e nem lhe chegou qualquer ajuda.

E não muito longe, o irmão, Luís Mbimba, numa casa mais precária do que é costume em Moçambique, inventada com ervas e outros produtos da natureza, diz o mesmo, sem exceção, de todos os outros no interior dos distritos de Nhamatanda e de Buzi: “Nada ainda ajudou. Coisa de comer, roupa, tudo”.

E depois, apontando para a casa, de caniço, sacos de serapilheira e roupas velhas a servirem de telhado, atira, de voz sumida: “Dormimos aqui todos, em baixo nem esteira, em baixo mesmo, uma vida… oh pá!”

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