A empresária, cujos esquemas financeiros suspeitos foram expostos numa mega investigação jornalística conhecida como ‘Luanda Leaks’, queixa-se de ser vítima de perseguição judicial para ser neutralizada politicamente e alega não ter tido oportunidade de se defender nem ter sido ouvida antes de lhe serem arrestados os bens.

Luaty Beirão, que falava à margem do colóquio "Juventude em Ação", promovido hoje, em Luanda, pelo Centro de Estudos para a Boa Governação, questionado sobre se Isabel dos Santos deverá responder sobre as suspeitas perante a justiça angolana, e se a família dos Santos tem condições para receber um tratamento justo, disse: “Se não for, a culpa é deles, porque foram eles que criaram este sistema de justiça no qual ninguém confia".

“Eu percebo que eles não confiem, mas quem o criou? Quem incentivou? O que temos hoje é fruto do que eles fizeram. Na altura dava-lhes jeito, agora é preocupante", declarou à Lusa, considerando que a família de José Eduardo dos Santos deve vir defender-se das acusações e usar os argumentos que tiverem.

O ativista sublinhou que não defende uma justiça seletiva ou parcial e por isso os documentos vindos a público, através do ‘Luanda Leaks’ ajudam a desmistificar "as bazófias" que Isabel dos Santos insiste em partilhar nas suas entrevistas.

"Ela insiste sempre que é uma perseguição política, uma caça às bruxas e que não vai ter um julgamento justo. Eu não posso dizer que sim, não confio ainda plenamente, quero acreditar que estaremos lá, mas seria falso se dissesse que o sistema de justiça já é plenamente confiável", admitiu o músico.

Para Luaty Beirão, o que está a acontecer tinha que acontecer já que Isabel dos Santos e a família "foram os principais responsáveis pelo estado em que está o país" e os elevados níveis de corrupção.

"Foram eles que promoveram isto, que deixaram acontecer, às vezes oficial e institucionalmente", pelo que "não é surpreendente que sejam eles os primeiros visados", referiu Luaty Beirão, um dos 17 ativistas do conhecido processo 15+2, preso em 2015 e condenado, em 2016, por atos preparatórios de uma rebelião e associação de malfeitores.

De acordo com Luaty Beirão, se não fosse a família dos Santos atingida "iam dizer que só se ia atrás da arraia miúda”, defendendo: “Temos de ir aos tubarões".

Sobre algumas "incongruências" no combate à corrupção, nomeadamente no que diz respeito ao triunvirato que gravitava à volta da família de José Eduardo dos Santos (generais Dino e Kopelipa e o ex-vice-presidente de Angola, Manuel Vicente), considerou que este último está "claramente a ser protegido".

"Existem motivações políticas, acredito que Manuel Vicente está a ajudar a apanhar os outros, se se justifica a nível moral, não, também deveria ser castigado e, se houver provas, também deve ser levado à barra dos tribunais, mas é uma coisa de cada vez, porque não é possível tratar de toda a gente ao mesmo tempo", disse o ativista, sublinhando que deseja que "toda a gente pague por aquilo que fez ao longo dos anos da lambança".

Para o ‘rapper’ e ativista angolano, a luta contra a corrupção só pode ser minimamente bem sucedida se for acompanhada de uma abertura e de muita transparência.

"Infelizmente estas pessoas que governaram e continuam a governar o país até agora não estão habituadas a ser transparentes, então, é um exercício também para eles. Nós como sociedade temos de persistir e insistir para que essa transparência passe a existir”, referiu.

E frisou: “Ainda não há e quando não há transparência há dúvidas e há essas reticências e esses ceticismos e inclusive algum pessimismo, mas dizer que não há nada a acontecer, que é tudo teatro, eu pelo menos acho que é injusto".

Luaty Beirão sublinhou que não pode haver só críticas, mas é preciso reconhecer os esforços, porque para si o mais importante é sentir que "existe uma intenção de caminhar para um sítio diferente”.

“Se vai ser bem-sucedido, ou não, é outra história", vincou.

"Essa intenção eu sinto que existe. Acho que temos que ocupar os nossos espaços como cidadãos e deixar de só apontar dedos, somos 30 milhões, não pode ser só o Presidente da República, não podem ser só os mesmos decisores sempre a determinar o rumo do país", advogou o ativista.