A sobrecarga de doentes infetados com covid-19 nos hospitais obrigou o sistema a escolher uns em detrimento de outros.

As sociedades médicas alertaram para o impacto que esta situação terá na saúde dos doentes e na mortalidade, enquanto a Convenção Nacional de Saúde, a plataforma de diálogo entre os parceiros da saúde e os cidadãos, insistem que o aumento das listas de espera e a não realização dos necessários exames de diagnóstico se tornaram no “problema n.º 1 da saúde em Portugal”.

A opção por consultas por telefone, que não compreende, a ausência de marcação de exames e a paragem “forçada” das sessões de fisioterapia são agora a realidade de Cândida Proença, de 48 anos, a quem foi diagnosticada esclerose múltipla aos 20 anos e um cancro na mama há dois.

“Como é que se faz o acompanhamento de um doente oncológico por telefone? Não há palpação da mama. Como é possível?”, desabafa à Lusa esta professora de português e francês de Coimbra.

O cancro de Cândida está atualmente em remissão, depois de ter sido diagnosticado em outubro de 2018. Foi operada cerca de um mês e meio depois, no período da greve cirúrgica dos enfermeiros. O primeiro diagnóstico apontava para um carcinoma de grau 1. Na operação já apresentava grau 2.

“Evoluiu muito rapidamente. Tive muito medo de que me adiassem [a operação] por causa da greve, mas hoje em dia penso: e se fosse agora? Fui operada em tempo útil, mas agora devia ser acompanhada de quatro em quatro meses, no mínimo. Nem sequer me marcaram o exame de marcadores tumorais. O argumento é sempre: sou doente de risco e não me devo expor ao ir ao hospital”, descreve.

A última consulta presencial que teve foi em agosto de 2019. Por telefone conseguiu o que chama de “uma mera conversa com o médico” há cerca de meio ano.

Cândida, que é seguida nos hospitais da Universidade de Coimbra e usa cadeira de rodas na rua e andarilho em casa para se movimentar, também lamenta que lhe tenham descontinuado as sessões de fisioterapia que realizava duas vezes por semana.

Foram canceladas em março e sente que está “a piorar muito”, notando-o na transferência da cama para a cadeira de rodas, por exemplo.

“Os doentes estão a ser colocados de parte. A covid-19 é uma situação aguda, mas os diagnósticos tardios e a descontinuação de tratamento também. E a covid é hipotética. Já o carcinoma e a esclerose, no meu caso, são uma realidade. Sinto-me desamparada. Dizem que estamos todos no mesmo barco, mas uns usam barco de cruzeiro e outros só tem direito a uma barcaça”, desabafa à Lusa.

Fátima Valente foi operada em 2015 a um cancro de mama. Este ano, foi em análises de rotina que indicaram valores alterados que percebeu que algo não estava bem. E confirmou-se: uma metástase no fígado.

As consultas de rotina foram desmarcadas em março/abril por causa da pandemia, tal como os exames, que autorizou a desmarcar pois “não era nada urgente”. Contudo, acabaram por ser estas análises a fazer acender a luz de alerta.

Fátima, de 37 anos, confessa que, depois de ter ultrapassado o cancro há cinco anos e de ter passado, entretanto, por uma situação idêntica com a mãe, o que mais lhe custou foi controlar a ansiedade de saber que tinha algo que não sabia se crescia e se quando fosse operada ainda ia a tempo.

“Depois de detetada a lesão no fígado estive cerca de duas semanas à espera pela biopsia. Como não me chamavam, recorri à medica que me acompanhava, da cirurgia da mama, pedindo que contactasse com os colegas. Fui chamada logo na semana a seguir”, contou à Lusa, sublinhando que se não tivesse sido sempre insistente e atenta com os médicos o seu caso “ainda não estava resolvido”.

E voltou a ter de fazer pressão junto da médica que a acompanha, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa: “Depois da biopsia, a decisão foi ir para cirurgia, pois tinha uma metástase. Passou um mês, não conhecia ninguém da equipa do fígado, e voltei a ter se recorrer à minha médica”.

“Saber que tenho uma metástase que pode aumentar a qualquer momento, pois não estou a fazer mais exames, estar um mês de pés e mãos atados, numa ansiedade tremenda… é insuportável” descreveu, contando que até tinha pedido uma consulta de psicologia e de psiquiatria.

“Se calhar, para o médicos, estava no timing certo, mas para o doente, que conhecse já como o cancro de desenvolve, ter uma metástase assim, sem saber se está a crescer, durante um mês e meio… é muito duro”, acrescenta.

Apenas na véspera da cirurgia, que aconteceu há 15 dias, conseguiu falar com uma das médicas da equipa que a operou: “Não é o mais correto. Esta ansiedade levou-me a mexer e a insistir com os médicos. Fui sempre apoiada pelos amigos e pela associação Careca Power. Mas se eu baixasse os braços ainda não tinha sido operada”, desabafa.

Na região Centro, em Oliveira de Azeméis (Aveiro), vive Gilberto Soares, um distribuidor de bebidas que não exerce a sua profissão há 19 meses. Teve de meter baixa: “Não consigo andar direito, sinto muitas dores. Conduzir é um sofrimento”, conta.

Gilberto, de 45 anos, aguarda uma cirurgia ao pé esquerdo, que tem vindo a ser “sucessivamente adiada”, isto depois de uma queda em maio de 2019 que o levou ao Hospital de Santa Maria da Feira para reconstruir o osso. Pelo que lhe explicaram na altura, teria de ser operado “o mais rapidamente possível” uma segunda vez.

“Mas meteu-se esta desgraça [a pandemia da covid-19]. Cheguei a ir a uma consulta. Foram sempre adiando a cirurgia. Fui lá, liguei dezenas de vezes, marcaram com um novo médico para 15 de outubro e adiaram de novo. Ninguém consegue resolver. Tenho muitas dores", descreve à Lusa.

Gilberto diz que não se conforma com os atrasos, mas não desiste: “Preciso de trabalhar. Nunca fui pessoa de estar de baixa. É o corte no salário e o não saber o que fazer com o tempo. Não posso andar de bicicleta, correr, jogar futebol. E pioro todos os dias”.

Ana Carriço tem 25 anos e é portadora de mutação genética BRCA (Brest Câncer Gene, gene do cancro da mama cancro de mama). Desde os 18 anos que é seguida no IPO de Lisboa e conta que desde que começou a pandemia nunca mais teve qualquer consulta. Foi contactada no verão para justificar a desmarcação da consulta, que estava marcada para quando os primeiros casos de covid-19 surgiram em Portugal.

“Até hoje, ainda estou a aguardar”, conta à Lusa, explicando que desde o início sentiu pouco acompanhamento da unidade de saúde e, por isso, decidiu pedir uma segunda opinião e passou também a ser seguida na Fundação Champalimaud.

"Aliás, os exames que tenho feito até hoje foi porque sou seguida lá”, explica.

Diz que sempre se sentiu pouco acompanhada: “De início até achei a abordagem agressiva. Disseram logo que deveria retirar mama e ovários, que devíamos pensar logo na data, que seria entre os 23 a 24 anos no caso da mama e, no dos ovários, ao 35. Ora, isto é uma cirurgia muito drástica, não é como ir fazer um exame”, desabafa.

Ana compreende que o instituto esteja sobrecarregado de doentes prioritários, mas lembra que “o doente não tem culpa” e que “quanto mais cedo se detetarem os problemas mais depressa se tratam” e menos despesas traz no futuro ao sistema.

Segundo dados do Ministério da Saúde, até outubro foram realizadas menos 172.036 consultas nos cuidados de saúde primários, menos 1.179.554 consultas hospitalares e menos 108.448 cirurgias.

Na área dos Cuidados de Saúde Primários, por exemplo, o mês de agosto de 2020 registou uma diminuição de -4,4%, valor que rondou os -2,6% em setembro e -0,6% em outubro.

Em ambiente hospitalar, no caso das consultas regista-se um diferencial de -12,6% em agosto deste ano (face ao período homólogo) e -11,0% em setembro. Em outubro houve uma estabilização desta variação, que se situou nos -11,4%.

Já nas cirurgias a diferença para os mesmos meses do ano anterior também tem baixado, revelando o aumento da atividade: até setembro registava-se um diferencial de -20,2% e em outubro -18,6%.

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