“Os que julgam que não se faz nada num mosteiro, estão muito enganados”, segundo o abade do Mosteiro de Singeverga, no concelho de Santo Tirso, Bernardino Costa.

“No mosteiro trabalha-se e muito. Não é só as oficinas, mas também o trabalho de toda a comunidade. Temos serviços como a enfermaria, e hoje temos muitos irmãos que precisam de cuidados. E temos de preparar tudo para receber os hóspedes”, disse o abade à agência Lusa.

Em busca da autossuficiência, as ordens religiosas encontram na doçaria, na arte sacra ou nos licores algumas das suas fontes de rendimento.

Em Singeverga a comunidade, com monges entre os 34 e 95 anos, é praticamente autónoma: “Temos vacaria, currais, pomares e hortas, só compramos o que não conseguimos produzir, como o arroz ou as massas”.

Também têm em comum o ritmo da oração. O dia inicia-se com oração e com oração termina. Pelo meio, cada membro da comunidade desempenha as suas funções nos ofícios que aprenderam, no cuidado e manutenção da vida comunitária.

Nestes espaços de clausura a palavra-chave é comunidade. As tarefas são distribuídas, tudo é partilhado.

No Carmelo da Guarda, o ambiente afigura-se algo descontraído, e como a irmã Maria da Trindade confirmou, nesta comunidade de 11 irmãs nem tudo é só trabalho e oração.

“Há alturas em que parecemos umas 30 ou 40 só pelo barulho que fazemos nos nossos recreios. São momentos especiais criados por Santa Teresa, para que a nossa vida de silêncio e de deserto seja aliviada pelo contacto espontâneo entre todas”, explicou.

Há, também, a vertente laboral para serem autossustentáveis, que recai, tradicionalmente, na costura e bordados de toalhas de altar e litúrgicas. Porém, as crises económicas também tocam nesta pequena comunidade e com a baixa procura as irmãs recorreram, já desde há dois anos, à doçaria conventual.

“Nós não estamos nem nos sentimos presas nem confinadas. Aliás, a nossa vida requer uma grande liberdade interior dada pelo dom da vocação que é ajudada também pelos espaços belíssimos que rodeiam o nosso mosteiro e são reservados só para nós”, notou.

Por seu turno, o foco da missão do Mosteiro de Santa Beatriz, de Viseu, recai na oração e fraternidade, e na contemplação.

“Uma mede a outra, ou seja, a oração é muito o termómetro para perceber como está a minha relação com as irmãs e a vida fraterna também mede a oração”, explicou a irmã Inês, acrescentando que oração e fraternidade é o que se propõem realizar até ao fim da sua vida.

Recebem visitas e dizem ter muitos amigos, embora as poucas vezes que saem da clausura seja por razões de saúde, para votar ou por razões muito particulares.

“Não viemos para o Carmelo para ser alguém, para sermos importantes ou figuras de destaque. Viemos para viver uma história pessoal e concreta de amor com Deus”, frisou a irmã Maria da Trindade, em jeito de explicação final para a sua opção radical por uma vida de clausura.

Mosteiros de clausura guardam histórias e sonhos de quem escolheu viver da oração

“Eu ouvia falar dos monges, mas a minha vida era do outro lado da montanha”, disse à agência Lusa o abade do Mosteiro de Singeverga, Bernardino Costa, natural de Vizela.

Um dia, visitou o mosteiro e a resposta que recebeu de um monge à pergunta sobre qual o carisma dos beneditinos, caiu-lhe como uma flecha: “Nós procuramos viver como as primeiras comunidades cristãs”.

Aquela frase traçou-lhe o destino e Bernardino Costa decidiu ingressar na vida monástica, acreditando que ali conseguiria realizar todos os seus sonhos. Antes de ser monge namorou e teve vários projetos de vida, um dos quais era abrir o seu próprio restaurante.

“Namorei antes de entrar no seminário e, claro, o namoro e o casamento não desaparecem da cabeça de um dia para outro”, admitiu, reconhecendo que depois de algumas hesitações, que considera fazerem parte do caminho religioso, decidiu abraçar a vocação definitivamente.

Em 2001, fez a profissão monástica solene. Apesar de ser um dos irmãos mais novos - tem 46 anos - foi eleito pela comunidade para ser o seu superior.

As funções que desempenha exigem uma proximidade diferente da que existia no passado, uma vez que a antiga tradição levava o abade a um distanciamento dos restantes irmãos. Hoje, “todos fazem um pouco de tudo no mosteiro”, disse este monge que se confessa “feliz” na vocação que abraçou e não esconde acreditar que ainda vai a tempo de abrir um restaurante no mosteiro.

“Juntar este tipo de serviço à hospedaria faz todo o sentido, porque os beneditinos têm o dever de receber os hóspedes como se fossem o próprio Cristo”, afirmou. Até lá, continuará a desenvolver mais ideias como novos tipos de encadernação, a par da oficina de madeiras.

Um pouco mais a sul, há 11 e quatro anos, o Mosteiro de Santa Beatriz de Viseu acolheu duas jovens, Leonor e Inês, ambas a lembrarem que, durante a infância, Deus sempre fez parte das suas vidas em casa, na escola, nas suas férias em campos e retiros.

Apesar de parecer “um Deus de fim de semana” na adolescência, ambas as jovens sentiram a falta de algo mais, apesar das muitas incertezas.

Para a irmã Leonor, com 31 anos e natural de Sintra, bastou um campo de férias para cessar as suas dúvidas, mas espoletar outro tipo de desconforto. “Voltei de lá bastante mudada e com uma alegria muito grande. O que é que ali havia de diferente do resto do ano?”, questionou.

Leonor ingressou na Faculdade de Belas-Artes em Vídeo e Multimédia, mas a religião sempre a acompanhou nos seus estudos, com as lições de catequese e os campos de férias que animava, com vista a “responder às inquietações”.

E acabou por “encontrou alegria” no que poderia ser um desagrado de ter de acompanhar uma rapariga com deficiências motoras num acampamento. Ao querer ajudar os fragilizados em toda a parte, percebeu que querer tudo ao mesmo tempo não seria possível. Entre dar catequese ou fazer missões em África, haveria sempre uma que poderia escapar e, nessa lógica, concluiu que “a oração era a maneira de poder chegar a todo o lado” e deu conta de “que existia a vida contemplativa”.

Já para a religiosa Inês, de 22 anos, de Torres Vedras, bastou uma conversa com um colega de escola seminarista para despertar o “terror” da vida consagrada. “A ideia que se tem de freiras é diferente, a perceção dos filmes, muito escura, muito tétrica”, observou.

Leonor reconheceu, também, que “a primeira ideia de ir para um convento é assustadora e pensa-se: ‘não, que horror, eu não quero ir para freira e ficar lá fechada a vida toda’”.

A curiosidade, porém, foi mais forte e, depois de as ter impelido à visita a mosteiros, traçou-lhes o caminho.

Mosteiros de clausura atravessam pandemia com rotinas de quem já vivia em reclusão

A pandemia de covid-19, há mais de um ano a marcar o ritmo do país, pouco alterou nos mosteiros de clausura, acostumados a portas fechadas e onde é a oração que faz pulsar a vida destes espaços.

“Praticamente nada na nossa rotina mudou por causa do vírus. Não falamos muito sobre a pandemia”, disse à agência Lusa a irmã Maria da Trindade, superiora do Carmelo da Santíssima Trindade, na Guarda, com religiosas dos 30 aos 80 anos.

Ali o novo coronavírus não entrou até agora.

“Não temos medo, mas prudência. As compras que nos trazem ficam 24 horas num espaço próprio antes de as arrumarmos. Também, por segurança, não recebemos visitas”, afirmou a irmã Maria, acrescentando: “Sabemos que se uma apanhar [o novo coronavírus], é natural contagiar as outras”.

As carmelitas dizem ainda experimentar momentos de verdadeira generosidade. “Temos recebido muitas ajudas dos nossos amigos, não nos tem faltado nada”.

Já no Mosteiro de Singeverga, em Santo Tirso, a covid-19 apanhou de surpresa todos os monges.

O abade Bernardino Costa admitiu que “tinha tudo pensado” para o caso de se registar “um, dois, três ou quatro casos”, e a necessidade de “isolá-los”. A realidade, porém, foi outra, e dos 23 monges do mosteiro, 17 já testaram positivo à covid-19.

“Não entrámos em pânico, mas tomámos decisões desde logo. Fiquei com receio, temos monges com idade avançada, diabéticos. Os funcionários foram dispensados para não haver risco. Encerrou-se a hospedaria. Contactou-se uma empresa de alimentação para nos trazer as refeições ao mosteiro”, explicou Bernardino Costa, ele próprio atingido pela doença e que teve necessidade de ser hospitalizado durante 24 dias.

“Quando se vive em comunidade, partilha-se tudo, o bom e o mau”, resumiu.

Já as religiosas Leonor e Inês, monjas concepcionistas franciscanas, do Mosteiro de Santa Beatriz, em Viseu, com 31 e 22 anos, respetivamente, não deixam de apontar que numa contrariedade “há sempre um sentido e pode sempre tirar-se algo bom. É meio caminho andado para se encarar de outra forma” a situação que se está a viver com a pandemia de covid-19.

A mesma perspetiva é admitida pelo padre Filipe Santos, que acompanha espiritualmente as irmãs enclausuradas do Mosteiro da Imaculada Conceição de Campo Maior, e segundo o qual a rotina e a missão deste mosteiro não mudaram.

Este mosteiro foi também afetado no início deste ano por um surto que atingiu um “considerável número” de monjas, como informou na ocasião o arcebispo de Évora, Francisco Senra Coelho, em nota, adiantando que as religiosas afetadas estiveram em “isolamento total” nas suas celas.

Agora, a situação já é diferente e “as irmãs já recebem pedidos de oração de gente em desespero. Talvez com a pandemia se tenha intensificado um pouco mais, mas isso já faz parte da sua missão”, considera.

Se a intensidade da oratória não oscila, o foco pode mudar, associando-se a causas específicas, como a proposta que foi feita no início da pandemia de oração pelos profissionais de saúde.

Já a irmã Verónica Benedito, da Aliança de Santa Maria, em Fátima, tem um trabalho contrário ao da clausura. Tem como função o serviço comunitário de “evangelizar segundo a mensagem” dos videntes de Fátima através da presença nas celebrações dominicais, em atividades para a juventude, conferências, palestras e acompanhamento de casais.

Com a limitação do contacto físico, os confinamentos e as restrições governamentais, “os trabalhos têm continuado por Zoom” e a pandemia obrigou a “perceber que agora era prioritária a evangelização via ‘online’”, notou a freira.

A vida e a missão de quem já está enclausurado não muda, reconheceu, por sua vez, o padre Filipe dos Santos, do Seminário de Caparide, em Cascais.

“Para estas irmãs, enclausuradas por opção, o confinamento não trouxe alteração no ritmo do dia a dia. Uma irmã não sente grande diferença deste tempo face ao tempo que não havia pandemia”, frisou.

O sacerdote adiantou, por outro lado, que [as freiras de clausura] “serem na Igreja esta retaguarda silenciosa, mas presente pela oração”, não lhes traz “uma crise”, mas “clarifica a sua vocação”.

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