"Para fazer face a esta dificuldade, são necessárias medidas de fortalecimento do capital das empresas, para reduzir a alavancagem e aumentar sua capacidade de serviço da dívida", disse Mário Centeno na abertura da conferência Money Conference, organizada pelo Dinheiro Vivo e pela TSF.

"Uma utilização eficiente dos fundos públicos exige o estabelecimento de procedimentos que permitam uma identificação efetiva das empresas viáveis, que devem ser as recetoras privilegiadas destes apoios", disse.

Em paralelo, sinalizou, é necessário garantir a resiliência do sistema bancário em face de um provável aumento nas perdas de crédito.

“Por um lado, as entidades bancárias começaram desde logo a provisionar os riscos de crédito, dando assim um passo prudencial adequado. Mas, por outro lado, o sistema bancário continua a enfrentar problemas de rentabilidade e tem de responder aos desafios provocados pela digitalização”, afirmou.

As soluções para estes desafios não devem ter apenas origem em cada um dos países, mas deverão ter um enfoque europeu, considerou.

No seu discurso, Mário Centeno sublinhou também que Portugal enfrenta a crise pandémica com "o trabalho de casa feito".

“No final de 2015, o sistema financeiro português estava subcapitalizado, com estruturas acionista instáveis, em incumprimento de planos de negócios e obrigações assumidas perante as autoridades. Hoje, ninguém reconhece estes problemas no sistema bancário português”, afirmou.

O governador do BdP lembra assim que, na última década, foram adotadas medidas pelos bancos – gestores e acionistas –, pelos legisladores e reguladores e pelos supervisores que permitiram aumentar a resiliência do sistema financeiro.

“No período anterior à crise pandémica, acumulámos um capital de confiança, de redução do risco e até de partilha de risco que não podemos desbaratar”, disse.

Para Mário Centeno, a importância deste enquadramento foi evidente na reação ao surto pandémico, “não apenas na dimensão do apoio, mas também na sua rapidez e abrangência”.

“A resposta à pandemia impôs a ação de Governos, bancos centrais, reguladores financeiros e, no plano europeu, das instituições comunitárias. Termos um sistema financeiro resiliente foi determinante para a rapidez e intensidade das medidas aprovadas”, considerou.

“Por ter posições de capital e liquidez mais sólidas do que na anterior crise financeira, o sistema bancário contribuiu para a acomodação do choque inicial da pandemia, garantindo que os agentes económicos tivessem à sua disposição o crédito necessário e reduzindo as pressões de desalavancagem”, acrescentou o responsável insistindo na ideia que tem vindo a defender de que “os bancos fizeram parte da solução, não foram parte do problema”.

Mas o sistema financeiro enfrenta ainda “enormes desafios”, avisou.

As medidas de confinamento adotadas para responder à primeira vaga da pandemia interromperam a atividade económica em vastos setores, desencadeando aumentos maciços no subemprego. E sem uma intervenção pública concertada, teríamos assistido a uma crise de crédito e de liquidez, que levaria a uma vaga de insolvências com consequências na estabilidade económica e financeira, disse.

“Quando estávamos a reagir à crise num contexto em que não tínhamos livro de instruções, dado o caráter global, inédito e inesperado da crise, o resultado foi positivo”, reconheceu.

Numa segunda fase, continuou, o levantamento gradual das restrições à atividade económica levou a uma recuperação imediata e mais rápida e intensa do que o previsto.

“Com a incerteza elevada e a recuperação ainda parcial, os riscos de uma retirada precoce dos apoios parecem sérios, exigindo avaliações cautelosas. A modulação adequada das estratégias de saída deve levar em consideração a evolução dos desenvolvimentos sanitários, económicos e financeiros”, disse.

As diferentes autoridades deverão também coordenar entre si esse momento de alteração das políticas, considerou ainda.

[Atualizada às 12:03]

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