A tecnologia é nossa aliada, não tenho dúvidas disso. Rejeito as premonições pessimistas que dizem que a tecnologia será a desgraça da espécie humana e que antigamente é que se estava bem, à luz da vela e a ler hieróglifos nas paredes enquanto se limpava o rabo a cascas de árvore. Claro que, por cada passo na escada do progresso tecnológico, corremos o risco de tropeçar num degrau defeituoso, seja a criação de bombas nucleares com o advento da energia atómica, seja com a utilização de funcionalidades quase mágicas como o envio de fotografias através do ar para o outro lado do mundo, para assediar pessoas enviando-lhes fotos não solicitadas do pénis. Faz parte, são dores de crescimento de uma espécie que não é mais do que macacos com telemóveis inteligentes.

Agora, por vezes, a tecnologia vem disfarçada de nossa amiga e apunhala-nos nas costas. Não estou a falar de redes sociais que armazenam os nossos dados e os utilizam indevidamente ou que usam estratégias dissimuladas para nos viciar. Também não estou a falar da utilização de fake news para manipular eleições e especular mercados. Nada disso, falo de coisas mais impactantes como as aplicações ligadas a serviços de entrega de comida como a Uber Eats, Glovo e afins. Antigamente, só havia sopa feita e só tinhas descongelado uma posta de pescada, o que é que acontecia? Jantavas sopa e uma posta de pescada cozida que te lixavas. Fim de discussão. Mais tarde, começou a ser possível encomendar pizza através do telefone, um pequeno salto para o homem, mas um grande salto para a obesidade. Ainda assim, encomendar comida por telefone implicava ter de falar com pessoas do outro lado da linha e, para alguém como eu, era motivo mais que suficiente para preferir jantar a pescada cozida.

Até aos meus trinta e poucos anos vivi na Buraca, o que significava que encomendar uma pizza por telefone era uma espécie de roleta russa. Podia chegar ou não. Não foram duas nem três vezes que, passado meia hora da encomenda, me ligaram a dizer que o estafeta tinha sido assaltado e que tinham de refazer a pizza e o envio. Houve uma noite em que só à terceira é que foi de vez e, depois disso, passaram a fazer entregas de carro em vez de motas. Estafeta thug life. Isto de encomendar comida por telefone foi um avanço significativo na forma como comemos, mas nada comparado ao que aconteceu nos últimos anos em que fomos brindados com algo saído de uma fantasia de nerds comilões: com apenas dois ou três cliques, ou touches, podemos ter comida à porta de casa sem interagimos com seres humanos.

Faço muitas vezes o paralelismo entre a obesidade e o tabagismo, agora imaginem uma aplicação que vos manda notificações a impingir maços de tabaco mais baratos, oferta da entrega ou leve um SG Ventil e receba um Camel Activate de borla às quartas-feiras. Parecia mal, certo? Pois, mas é assim que as aplicações de comida funcionam. Estou já conformado que vou comer a minha pescada cozida e recebo uma notificação a dizer que se encomendar um Big Mac recebo outro gratuito. Não se faz. Claro que a pescada vai para o lixo e eu fico mais gordo e menos saudável. O “comes o que há no frigorífico” passou a ser uma frase do passado porque agora o frigorífico tem scroll infinito.

Lá encomendamos, quase imediatamente arrependidos, e esperamos que o estafeta chegue, impacientes. Rogamos-lhes pragas se vêm de bicicleta porque sabemos que as batatas vão chegar frias e moles e ficamos a olhar para o percurso para perceber se estão a andar bem e a vir pelo caminho mais rápido. Sabemos quando estão a chegar, posicionamo-nos perto da porta e, mesmo assim, quando tocam, fazemos aquele compasso de espera para não darmos um ar de desesperados ao abrirmos a porta no segundo a seguir.

Recebemos o pedido, hoje em dia quase com medo que os nossos dedos toquem nos dedos da outra pessoa, quando há a passagem de saco de uma mão para a outra, e vamos comer, envergonhados de, mais uma vez, não termos resistido à tentação. As aplicações de comida deviam ter aquela opção que têm as de apostas online que é de nos banirmos a nós mesmos ou de definirmos um limite de encomendas por mês para isto não ficar fora do controlo. Bem, sejam fortes que agora tenho de ir ali que chegaram os meus donuts com esparguete carbonara.

Sugestões:

Para ver: Consultório Sexual do Doutor G, no YouTube
Para ver: Red Dot, na Netflix.

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