Demolir uma vila para haver mais carvão. O que está a acontecer em Lützerath?

Alexandra Antunes
Alexandra Antunes

Embora o plano do Governo alemão pretenda eliminar progressivamente o carvão na Renânia do Norte-Vestefália até 2030, um acordo assinado no ano passado com a empresa de energia RWE veio mostrar que está previsto aumentar a extração de carvão a curto prazo, tendo em conta a crise energética resultante da invasão russa da Ucrânia.

Assim, um caso em concreto veio despertar as atenções: a demolição da vila alemã de Lützerath, para que seja expandida uma mina de carvão.

Em outubro de 2022, depois de o último agricultor ter saído do local, continuou a ver-se gente por lá: ativistas climáticos que queriam tentar impedir esta expansão.

Em casas de madeira e metal penduradas nas árvores, ligadas por uma rede de cabos, mostraram-se desde logo persistentes ao afirmar que seriam capazes de resistir por várias semanas, caso as forças de segurança tentassem expulsá-los.

Mas o inevitável teria de acontecer.

Porquê mais carvão?

O governo e a empresa energética RWE argumentam que o carvão é necessário para garantir a segurança energética da Alemanha.

No entanto, um estudo do Instituto Alemão de Investigação Económica questiona a postura do governo, depois de ter sido divulgado que outros campos de carvão existentes poderiam ser usados, embora o custo para a RWE fosse maior.

Outra alternativa seria a Alemanha aumentar a produção de energia renovável, reduzir a procura através de medidas de eficiência energética ou importar mais carvão ou gás a outros países, segundo o mesmo estudo.

Em que ponto estão os trabalhos e a resistência dos ativistas?

A polícia alemã deu hoje por concluída a operação de despejo da localidade de Lützerath, depois de forte resistência de ativistas ambientais.

Em declarações à cadeia NTV, Andreas Müller, porta-voz da polícia de Aachen, confirmou que a operação policial de despejo em Lützerath foi concluída, mas disse que a retirada de duas pessoas que permanecem barricadas num túnel subterrâneo ainda está em curso e precisou que se trata de uma “operação de resgate” a cargo da RWE, o operador da mina Garzweiler II.

“Não restam mais ativistas na zona de Lützerath”, confirmou a polícia em comunicado.

Depois de todos os edifícios terem ficado vazios na sexta-feira da semana passada, a polícia desocupou também, desde o início da operação de despejo, na última quarta-feira, 35 estruturas em árvores, bem como 30 construções de madeira erguidas pelos ativistas.

Ao todo, quase 300 ativistas foram retirados de Lützerath durante a operação, que incluiu quatro ações de resistência ao despejo.

Como têm sido as manifestações? 

Desde o início do despejo foram abertas 154 investigações criminais.

A polícia de intervenção começou a expulsar na quarta-feira ativistas climáticos da vila. Algumas pedras e engenhos pirotécnicos foram atirados quando os polícias entraram na pequena localidade.

Já no sábado, uma ampla aliança de organizações contra a exploração mineira e a demolição de Lützerath realizou uma marcha em que também participou a ativista sueca Greta Thunberg.

Além da marcha pacífica, os manifestantes tentaram quebrar as barreiras policiais de acesso à aldeia isolada e à beira da mina a céu aberto, onde a polícia utilizou nomeadamente canhões de água e gás pimenta e efetuou 12 detenções.

O que levou às detenções?

Andreas Müller defendeu as ações das forças de segurança, argumentando que no sábado os manifestantes quebraram as barreiras policiais, e apesar dos repetidos apelos não se abstiveram de pôr em risco os agentes, o que não teve “nada a ver com um protesto pacífico, mas sim com procurar um confronto consciente e deliberado com a polícia”.

Segundo o comunicado, desde o início da operação mais de 70 polícias foram feridos e nove ativistas foram levados para o hospital, embora não tenham sido relatados feridos graves.

Cerca de 30 veículos da polícia foram danificados e 32 pneus de carros das forças de segurança foram furados.

Como está a ser vista a intervenção policial?

Os ativistas que se opõem à expansão da mina de carvão acusaram a polícia de ter reprimido com violência a manifestação que no sábado degenerou em confrontos com dezenas de polícias e manifestantes feridos.

Uma porta-voz dos organizadores do protesto, Indigo Drau, acusou em conferência de imprensa a polícia de “pura violência”, dizendo que os agentes tinham espancado os ativistas “sem restrições”, batendo-lhes na cabeça.

O coletivo “Lützerath lebt!” relatou no sábado que dezenas de ativistas foram feridos, alguns gravemente. Cerca de 20 deles foram hospitalizados, de acordo com uma enfermeira do grupo de ativistas, Birte Schramm.

A operação de evacuação em Lützerath é politicamente sensível para a coligação do social-democrata Olaf Scholz, que governa com os ecologistas, acusados pelos ativistas de terem traído os seus compromissos.

Também o coletivo português ambientalista Climáximo se solidarizou em comunicado com os ativistas que defendem Lützerath.

*Com agências

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