A Cognizant é uma empresa norte-americana de tecnologia de informação que decidiu na semana passada, a 31 de outubro, fechar a secção de moderação de conteúdo. Se esta fosse uma simples decisão empresarial, provavelmente não teria sido notícia no mundo inteiro. Ou teria, uma vez que a escolha deste caminho afetará a vida de seis mil funcionários espalhados por todo o mundo. Ainda assim, é muito mais do que isso.

Esta história começou com uma reportagem do The Verge, que em fevereiro deste ano publicou uma grande reportagem sobre as condições de trabalho da empresa nos escritórios de Phoenix, no estado norte-americano do Arizona. A peça descrevia um cenário de vários funcionários a trabalhar no limiar da saúde mental com vários responsáveis pela moderação de conteúdo em sites como o Facebook e a Google a serem diagnosticados com síndrome de stress pós-traumático desenvolvido pela contínua exposição a imagens gráficas descritas como perturbadoras.

Além disso, a investigação revelou que vários funcionários começaram a seguir teorias de conspiração, depois de serem expostos continuamente a estas teses, sendo ainda relatados casos de ameaças à integridade física entre trabalhadores.

Uma nova reportagem publicada no mesmo site, quatro meses depois (em junho), desta feita sobre os escritórios em Tampa, na Flórida, denunciou casos de tratamento abusivo pelas chefias, descrevendo situações de assédio sexual e moral por parte e de instalações em más condições de higiene.

Depois de este retrato viver na imprensa online nos últimos meses, a Cognizant anunciou o fecho da divisão de moderação de conteúdo a partir do próximo dia 1 de março de 2020, o que resultará no despedimento de seis mil funcionários por todo o mundo.

A razão oficial apresentada pela empresa é que “esta área de trabalho não segue a linha da visão estratégica da empresa”, o que, como escreve Casey Newton, autor da reportagem sobre a Cognizant no The Verge, pode querer dizer qualquer coisa.

Na imprensa financeira especializada, escreve-se que aos artigos sobre os abusos psicológicos no trabalho se soma uma redução das vendas da empresa, que tem mostrado dificuldades em conseguir novos clientes, embora ainda este ano tenha apresentado lucros na ordem dos 500 milhões de dólares (quase 450 milhões de euros). Mais, a The Business Standard revelou que a Cognizant conseguia anualmente entre 240 a 270 milhões de dólares (entre 215 e 24o milhões de euros, aproximadamente), proveniente da moderação de conteúdo.

Num e-mail enviado pelo CEO da empresa, publicado no Times of India, Brian Humphries explicou que não descura a importância da moderação de conteúdo na era em que vivemos e anunciou uma doação de cinco milhões de dólares (cerca de 4,5 milhões de euros) para a ajudar à investigação e desenvolvimento de um algoritmo capaz de substituir cada vez mais o ser humano enquanto moderador e assim evitar a exposição de pessoas a conteúdo mais sensível.

Arun Chandra, vice-presidente do Facebook, disse respeitar a decisão da Cognizant em deixar de fazer revisão de conteúdo para as redes sociais. “O trabalho dos moderadores de conteúdo tem sido incalculável para manter as nossas plataformas seguras - vamos trabalhar com os nossos parceiros durante este período de transição para assegurar que não terá impacto na nossa capacidade de moderação e de manter as pessoas seguras”, afirmou Chandra em resposta ao The Verge.

Há um ano, a Vice descreveu o trabalho de moderação no Facebook como "o trabalho impossível". Talvez a Cognizant possa ser exemplo disso.

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