No seu romance “Revolução”, editado pela Companhia das Letras, o autor recupera todo o período revolucionário, desde o fim da ditadura até ao início da democracia, lembrando a falta de liberdade, a clandestinidade, as lutas e o difícil processo revolucionário.

Falando, em entrevista à agência Lusa, sobre as conquistas de então e as derivas extremistas que hoje ameaçam pôr em risco a liberdade alcançada, o escritor afirma que esse é o “paradoxo da democracia”: na era da informação haver tanta desinformação.

Recorrendo a uma fase de Mark Twain, o escritor lembra que “a história não se repete, mas rima”, ou seja, que olhando para o que está a acontecer, não só em Portugal, mas na Europa, constata-se que os símbolos e as formas de tirania não são exatamente idênticos aos que aconteceram nos anos 1930.

Mas “há coisas que rimam com os anos 30” e “uma delas é a ideia de líderes providenciais que tudo resolvem. A ideia do líder messiânico”, que passa a mensagem de que só ele pode “resolver isto”, disse, sublinhando: “Isso existe agora e existia nos anos 30”.

“Outra questão que é muito curiosa é a ideia de uma nova tecnologia que servia de propaganda nos anos 30, que era a rádio, o impacto da rádio na ascensão dos movimentos totalitários”.

Hoje em dia, existe a Internet e as redes sociais, que têm essa função de desinformação, considerou.

“Diante de momentos de maior periclitância das democracias – porque as democracias têm este problema, às vezes estão mais fortes, às vezes menos fortes” -, há a ideia “de oferecer escolhas super-simplistas para problemas muito complexos e, além disso, a ideia do outro, da culpabilização do outro, do estranho, do estrangeiro, que tem outra cor. Todas estas coisas fazem parte desta cartilha, de que a História não se repete, mas rima”.

Outro aspeto apontado pelo escritor é o do “trabalho diário” que uma democracia exige, e “há duas coisas que são péssimas para a democracia”, a zanga e o medo, porque “são inimigas da razão e da sensatez”.

“A zanga e o medo fazem hoje parte da vida, do dia-a-dia. Há muitas pessoas estão descontentes e que estão zangadas e há muitas pessoas que têm medo e isso é ótimo para os movimentos populistas radicais, ou como se queiram chamar. Então é muito mais fácil e isso é muitas vezes o apelo inicial das tiranias, que é a ideia do ‘eu resolvo isto de uma assentada’, mas a vida não é assim, a vida é cheia de dúvidas”, afirmou.

Na opinião de Hugo Gonçalves, nunca será possível alcançar uma democracia que agrade a todos, que corresponda àquilo que cada um imagina, mas não é por isso que se deve deixar de trabalhar para ela, porque “demora muito tempo para conseguir o que nós conseguimos 50 anos depois do 25 de Abril, aquilo que nós conseguimos hoje, mesmo com todas as coisas que ficaram por fazer”.

A liberdade é hoje um bem dado como garantido, sobre a qual nem se pensa, como quando se bebe água ou se respira o ar, compara o autor, assinalando que esse tipo de assimilação acontece sobretudo com as gerações mais jovens, que “não têm a presença do que é que era viver antes do 25 de Abril”.

“A liberdade demora muito a ganhar, mas perde-se num ápice, e às vezes não temos noção disso e, no meio da zanga e do medo, este tipo de escolhas muito emocionais podem depois ter um desfecho que é rebentarem-nos na cara”.

Como o “direito da liberdade implica o dever da memória”, Hugo Gonçalves acredita que tanto os romances, “porque muitas vezes os romances permitem causar empatia”, como qualquer outro tipo de informação, fazem falta no combate à sentença de uma repetição do passado.

No entanto, alerta para um paradoxo: “Como é que na era da informação, em que todos os melhores livros estão disponíveis, jornais, documentos, teses da universidade, nós andamos tão desinformados e somos tão suscetíveis ao engano?”

“Isso é um dos grandes problemas da democracia, porque a democracia supostamente devia dar instrumentos, um bom sistema de educação, as bibliotecas”, mas Portugal tem baixos índices de leitura e de escolaridade, e a verdade é que “é necessário esclarecimento” para não ir “atrás destes vendilhões do templo, que acenam com estas promessas feitas”.

Um problema que complementa esta falta de informação e literacia — nas palavras de Hugo Gonçalves — é a “espécie de ‘zumbificação’ em que as pessoas se encontram, agarradas aos telemóveis.

“Está toda a gente quase no ‘Matrix’, são sorvidos pelo ‘scroll down’”, considerou, admitindo, contudo que não há uma solução fácil.

Não se pode fazer como na antiga União Soviética, em que se obrigava as pessoas a ir à ópera, porque há a questão da liberdade, mas pode tentar-se dar-lhes ferramentas, só que a mesma liberdade permite-lhes fazer a escolha de não as usar, afirmou, defendendo que, ainda assim, é sempre preferível o caminho da liberdade.

“Tudo isso que é a democracia tem estes ângulos cegos, ou tem estes perigos, mas no outro dia vi esta frase e gosto muito dela, que diz — e espero que as pessoas se lembrem disto — ‘é mais fácil ser fascista numa sociedade livre, do que ser livre numa sociedade fascista”.

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