Isolados, mas não sozinhos, e nos tempos que correm há quem procure trazer alegria à vida do outro. É o caso de José Gonçalves (mais conhecido ZéZé Gongalves) que ontem fez uma sessão de música online, inspirada nas matinés dos anos 80. Assim, a partir da sua garagem, acompanhado pela sua mesa de mistura e demais material necessário, o DJ conseguiu entrar na casa de mais de 17 mil pessoas.

Passando por Espanha, França, Inglaterra, Suíça, Malawi, Angola e Moçambique, foram muitos os que através do ecrã se juntaram na garagem transformada em discoteca, deixando para trás as más notícias do covid-19. E esse era o principal objetivo de Zézé Gonçalves.

"Lembrei-me disto por causa desta situação de estarmos todos em casa e de estar muita gente a queixar-se de que não tem nada que fazer. Então pensei em fazer isto para a família e para os amigos", conta ao SAPO24.

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"Enquanto estavam a dançar, a cantar e a recordar aquilo que as músicas nos fazem lembrar" — seja "de um amigo ou de uma amiga, de uma viagem ou de uma situação qualquer desse género" —, "acho que as pessoas se conseguiram abstrair do que estava a acontecer no mundo e ainda bem."

ZéZé Gonçalves sempre achou que esta iniciativa seria para "300, 400 pessoas". Hoje de manhã viu que a sua sessão "tinha 18 mil e quinhentas e tal visualizações". "Nunca pensei que atingisse estas dimensões", confessa.

Zézé Gonçalves, técnico comercial numa empresa de produtos alimentares, começou a sua carreira de DJ com 14 anos, nas famosas rádios-pirata. A primeira foi a rádio Geice, de Viana do Castelo, e o que começou por ser uma atividade de fim de semana, no verão, evoluiu para uma carreira de mais de uma década.

"Comecei com 14 e fui até aos 27", conta.  Já se passaram 20 anos desde esse tempo, mas há quem ainda tenha frescas na memória as noites animadas por Zézé na Discoteca Viana do Sol — e a prova disso está nas partilhas da sessão musical de ontem. Embora a matiné tenha passado "nesses países todos (...) penso que a maior parte das pessoas que começaram a partilhar [a sessão] são ex-clientes da discoteca", afirma.

Uma dessas pessoas foi Gonçalo Nuno Ribeiro, "amigo da juventude" e antigo colega de faculdade de Zézé. Neste momento está a viver em Maputo, mas admite ter recuado no tempo e voltado às noites da Viana do Sol durante aquelas três horas.

"Eu ainda conseguia adivinhar qual era a música que vinha a seguir. Voltou-se mesmo àquele ambiente", conta. "As pessoas recordaram coisas de que nós já nos tínhamos esquecido, como aqueles casos de perder o cartão, por exemplo". É que "as bebidas eram apontadas num cartão e às vezes perdia-se e era um problema grande".  Mas mais que lembrar os pormenores das saídas à noite, Gonçalo diz aquilo de que mais gostou foi perceber que as pessoas "deixaram de pensar em tudo".

"Em Portugal, há muitas pessoas com pequenos negócios fechados, que não estão a fazer dinheiro, que não vão ter como para pagar as contas, que estão extremamente preocupadas, quer com a doença [covid-19], quer com os pais, que fazem parte do grupo de risco, e percebeu-se que durante aquelas três horas deixaram tudo de lado e estiveram ali", afirma.

Cristina Malheiro foi outra dessas pessoas. Conheceu Zézé em agosto do ano passado, quando estava a organizar um sunset, em Darque, Viana do Castelo. O antigo DJ ofereceu-se para animar o evento gratuitamente. "Foi aí que eu conheci o ZéZé e, para mim, é uma pessoa com um coração enorme, que fez desse dia um dia espetacular". E o mesmo se aplica a ontem, conta.

"Para mim foi um momento mais que espetacular! Aqui em casa pusemos a aparelhagem nas alturas, dancei com a minha filha, dancei com o meu marido e conseguimos abstrair-nos do coronavírus. Infelizmente, é um mau momento que estamos a passar". "Sem ele a tarde de domingo não podia ter sido a mesma", acrescenta.

André Pinto, amigo de Zézé Gonçalves, também ajudou a transformar o domingo de ontem num dia especial, uma vez que esteve a seu cargo o apoio à transmissão da matiné. "Ele estava a passar o som e o filho estava com o telefone dele e via as mensagens, e assim íamos trocando informações", para garantir que, mesmo com "uma sessão muito amadora", as pessoas "que estavam a ouvir recebiam aquilo com qualidade", diz ao SAPO24.

Surpreendido pela grande adesão e "orgulhoso" pelo que aconteceu ontem, André Pinto diz que o que foi "mais espetacular" foi receber "fotografias e mensagens de todo o mundo". "Vi amigos que não via há anos e também foi uma forma de reavivar memórias e amizades". Agora, espera que "daqui para a frente", com este evento,  as pessoas possam "reunir-se e reavivar os anos vividos fora das redes sociais".

Gonçalo, que também conseguiu conviver com amigos de longa data devido a esta matiné virtual, espera que o amigo faça mais festas como a de ontem. "Ele agora tem de recriar as sextas à noite, as quintas à noite, tem que continuar, tem que nos ajudar", diz com entusiasmo.

Mas para já ZéZé ainda não tem planos, porque acredita que se "este tipo de eventos se repete muitas vezes também se perde um bocado a curiosidade". No entanto, confessa que se repetir "será noutros moldes (...) talvez relembrar uma quinta-feira académica", deixa no ar.

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