Foi um feito "enormissímo". Dormir naquela noite? "Mentira. Ninguém dormiu". O "Moreirense ganhar um troféu destes é a mesma coisa que o Sporting ganhar a 'Champions League', ou o Benfica ou o Porto (...) Moreira de Cónegos nunca foi tão falado ou tão agradavelmente falado como foi naqueles dias" e "nem sei se na autarquia não colocam esse dia como feriado lá na Moreira! Os jogadores, o presidente, a direção, os adeptos... nunca ninguém tinha ganho um troféu daquela dimensão".

Quase nem é preciso intermediar as palavras de Augusto Inácio. Basta ler a conversa, juntar as memórias e sem darmos por ela temos um roteiro do feito histórico que o Moreirense conseguiu durante os últimos dias de janeiro de 2017, que valeram à equipa de Moreira de Cónegos o título de Campeão de Inverno.

A viagem começa na história da meia-final com o Benfica, a "fava", e como o Moreirense deixou os encarnados de "boca aberta de espanto". Depois, recordamos uma final, um momento que foi "enormíssimo", "uma coisa fabulosa". Até que falamos da competição. Aí termina a beleza e começa o relato do nervosismo de um plantel que não fazia ideia de quanto iria ganhar por uma conquista que seria - e foi - épica, da confissão de um treinador que disse que não se importava de dividir o seu prémio pelo plantel, até ao prémio que, efetivamente, não foi pago a Augusto Inácio.

Este é o mote para falar dos moldes de uma competição que o treinador português considera pouco apelativa - monetariamente e desportivamente - e que acaba por estar feita para os grandes. Como é que os pequenos ganham? Como é que o Moreirense ganhou? "Com sacríficio" e "noites 'sim'".  "Tivemos de ter uma noite 'sim' com o Benfica e uma noite 'sim' com o Braga, como é óbvio. Se tivéssemos uma noite 'mais ou menos', como se costuma dizer, 'íamos à vida'. Não tínhamos hipótese nenhuma", confessa Augusto Inácio ao SAPO24.

créditos: EPA/LUÍS FORRA

Há um ano o Moreirense conseguia o feito inédito de conquistar a Taça da Liga. O que é que ainda lhe vai na memória?

É uma daquelas vitórias que, por muitos anos que passem, está sempre presente como é que aquilo aconteceu. Foi uma coisa fantástica, desde o início até ao fim com muito sacrifício. Aliás, quando se é uma equipa pequena há que ter uma série de requisitos para chegar lá. Começou na fase de grupos com o Porto, com o Belenenses, com o Feirense. Conseguimos ser os primeiros do grupo e depois calhou-nos em sorte, na meia-final, o Benfica.

Ou seja, a fava.

Claro, dos quatro que estavam na Final Four, o grande favorito era o Benfica, como toda a gente sabe. E sendo o Moreirense aquela equipa que era a possível, porque nem Braga nem Setúbal queriam jogar com o Benfica... saiu a fava ao Moreirense. E fomos para aquele jogo. Se calhar, em dez jogos [contra o Benfica], ganhamos um, mas há sempre a possibilidade no futebol de se poder ganhar e nós fomos naquela de participar numa fase onde nunca tínhamos estado e desfrutar daquilo que era o momento que estávamos a passar.

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Antes do jogo, acreditava?

A questão não é dizer "acreditava", a gente foi para ali a pensar no jogo do campeonato que era na quinta-feira a seguir, porque tínhamos um jogo muito importante com o Feirense e esse é que era o encontro mais importante para nós. E tanto assim foi que nós jogámos com menos titulares. Quer dizer... o Benfica realmente marca um golo no início do jogo pelo Salvio, mas depois deixou rolar, deixou correr, e nós fomos aguentando o 1-0. Ora, isto em futebol, 1-0… Há sempre a possibilidade de fazer um golo, ou em contra-ataque ou de bola parada, ou uma coisa qualquer... um erro. Mas quando acabou a primeira parte, eu aí acreditei. Se eu antes acreditava? Com a equipa que apresentei não acreditava muito, mas quando foi o intervalo comecei a acreditar porque o Benfica estava a mostrar fragilidades que nós podíamos explorar. Foi aí que entrou o Dramé e entrou o Fernando Alexandre. O Dramé para o contra-ataque... Pelo avanço da linha defensiva do Benfica até à zona do meio-campo, e com o não controle de circulação de bola, era só uma questão de roubar bolas ali no meio-campo e não perdermos tempo e lançarmos os nossos ataques rápidos.

Apontar as flechas à baliza do Benfica, portanto.

Boateng rápido, Dramé rápido, Podence rápido. Enfim, era uma questão de meter a bola no espaço e não no homem, porque o homem estava a ser marcado e foi isso que aconteceu.

E depois fez-se história. Ou melhor, metade da história.

Marcamos dois golos de contra ataque e um num livre bem estudado e acabamos por ganhar o jogo 3-1. Esta é a história daquela meia-final que só começámos a acreditar precisamente no intervalo, quando estávamos a perder por 1-0.

Depois, sim, veio o momento em que se escreveu história. E aí, como foi? Costuma-se dizer, por bem, que numa final não há favoritos.

Na final já pensei de maneira diferente. Aí ‘pá’, estamos na final e ninguém se vai lembrar de quem perdeu. Toda a gente se vai lembrar de quem ganhou. Quem perdeu, perdeu, não conquistou nenhum troféu. Nós aí já fomos bem preparados para ganhar a taça, no sentido de sabermos que tínhamos tantas hipóteses de ganhar como o Braga. E foi isso que aconteceu, fomos superiores, fomos melhores, e o Sporting de Braga só nos últimos 10 minutos é que foi realmente melhor. Ganhámos o troféu com todo o mérito.

"Nem sei se na autarquia não colocam esse dia como feriado lá na Moreira!"

 

E de repente tinha conquistado a Taça da Liga.

Claro que o Moreirense ganhar um troféu destes é a mesma coisa que o Sporting ganhar a 'Champions League', ou o Benfica ou o Porto. Quer dizer... Para o Moreirense é um feito que as pessoas nem imaginam o efeito que isto trouxe em relação aquilo que é a dimensão do clube.

Como é que recorda aquela receção em Moreira de Cónegos?

Ó! Aquilo foi... Para já, ficámos lá no Algarve. Dormir é mentira. Ninguém dormiu nada. Depois era uma viagem para aí de sete horas com uma paragem em Almeirim para almoçar. E depois fomos recebidos lá na Câmara. E só depois da Câmara é que fomos para o estádio, completamente cheio. Quer dizer... É o que estou a dizer, Moreira de Cónegos nunca foi tão falado, ou tão agradavelmente falado, como foi naqueles dias.

créditos: ANTONIO COTRIM/LUSA

Foi quase feriado, não?

Nem sei se na autarquia não colocam esse dia como feriado lá na Moreira! Os jogadores, o presidente, a direção, os adeptos... nunca ninguém tinha ganho um troféu daquela dimensão. Quando se ganha um troféu por muito que seja o troféu mais baixo do futebol nacional, por muito que seja isso, mas se se conquistar é uma coisa… Ainda por cima como é o formato.

É da opinião de que esta não é uma competição feita para clubes como o Moreirense vencerem?

Isto está feito para os grandes! Quatro grupos, cabeças de série: o Benfica fica num grupo, o Sporting fica num grupo, o Braga fica num grupo, o Porto fica num grupo. Só há um apurado e ainda por cima esse favorito, de três jogos, faz dois em casa. Epá, isto está tudo feito para eles, não é para o pequeno.

Mas o dito 'pequeno' chega lá. O Moreirense e o Setúbal já venceram. O Paços de Ferreira e o Rio Ave já estiveram na final...

O pequeno aparece lá porque às vezes o grande facilita. Se o grande não facilitar, que hipóteses é que se tem de em três jogos a gente se apurar? Nós ou a Oliveirense, por exemplo? Que hipóteses é que há? Não há hipótese. Por isso, na fase de grupos soubemos aproveitar bem aquilo e na Final Four ainda foi mais saboroso estarmos lá.

Sentiu alguma amargura por não ter podido terminar a época no comando do Moreirense e defender o título esta época?

Claro que senti. Quer dizer, depois de uma coisa daquelas, tinha de pagar-se a fatura do esforço que tínhamos feito. E depois era tempo da recuperação. Mas deixe-me dizer, que isto pouca gente sabe, aquele é um troféu que teve tanta dimensão que eu nem olhei para o lado monetário. Porque esta Taça da Liga, monetariamente, para o Moreirense nem foi nada de especial. Foi 150 mil euros, salvo erro. Porque tirando as despesas que o clube tinha, a grande verdade é que o presidente dava 50% daquilo que sobrasse.

 "Eu não recebi dinheiro nenhum da Taça da Liga, mas não era aquilo para mim o mais importante. Para mim o mais importante era realmente a Taça da Liga"

 

Na altura falava-se de grandes valores na comunicação social...

Aquilo foi de tal maneira que a gente não sabia quanto a Liga dava, porque a Liga tinha de contar as receitas e as despesas, e os jogadores estavam em pulgas porque veio no jornal "400 mil euros para quem ganhar a Taça da Liga", "500 mil euros para o vencedor da Taça da Liga". É evidente que os jogadores começaram a fazer contas, "Epá, se a gente ganhar a Taça da Liga, pode-nos calhar 5 mil euros a cada um". E os jogadores queriam saber realmente o número, porque o presidente tinha dito que dava 50%, como acabou por dar, como é evidente, mas não sabiam a quantia. Eu senti os jogadores muito nervosos, porque nunca mais sabiam daquilo, e eu até lhes disse "se vocês acharem que o prémio que vos vai ser dado é pouco, eu não me importo e dou-vos o meu prémio, a dividir por vocês. O mais importante aqui é ganhar o troféu. É algo que vai ficar para sempre nas vossas carreiras e o dinheiro aqui é o menos importante". Mas os jogadores queriam saber, queriam saber, queriam saber...

E como é que ficou? Acabou por dar quanto a cada um?

Eu saio do Moreirense e depois é pago o prémio aos jogadores. Foi 1.500 euros, salvo erro, e eu não recebi dinheiro nenhum. Não sei se dividiram o meu prémio pelos jogadores ou não, não interessa. Eu não recebi dinheiro nenhum da Taça da Liga, mas isso para mim não era o mais importante. Para mim o mais importante era realmente a Taça da Liga. É isso que conta. Isto para dizer o quê? Para dizer que esta Taça da Liga, monetariamente - eu acredito que se a final fosse FC Porto - Benfica, Benfica - Sporting, Sporting - Porto, teria uma receita maior, os sponsors seriam melhores, a época seria diferente, os direitos televisivos seriam diferentes -, mas para o Moreirense poder tirar algum dividendo financeiro... realmente tirou muito pouco porque financeiramente aquilo deu os números que disse.

Não deu muito...

Não deu muito e a mim não me deu nada (risos)

"O histórico desta Taça da Liga não é muito limpo. Eu lembro-me de uma vez do Sporting com o Benfica, os sportinguistas até lhe chamaram a Taça Lucílio Batista"

 

O Augusto Inácio disse na altura que isto tinha sido como ganhar a Liga dos Campeões para as pessoas da Moreira. Para quem é que este ano a Taça da Liga pode ter o mesmo sabor?

Se me perguntarem quem é que eu gostava que ganhasse a Taça da Liga, digo já que era o Sporting, que é o meu clube, e não vamos tirar aos nossos para dar aos outros. É o meu clube e também porque não ganhou ainda uma Taça da Liga. Mas, se por qualquer motivo o Sporting não for à final, eu gostaria que quem vencesse a Taça da Liga fosse o Oliveirense. Precisamente por aquilo que aconteceu ao Moreirense no ano passado. Era a equipa mais fraca da Final Four e foi aquela que ganhou.

É verdade, o Sporting ainda não ganhou nenhuma Taça da Liga. Nem o FC Porto. Não acha isso curioso numa “competição feita para os grandes”?

Não, não é curioso porque, enfim, o histórico desta Taça da Liga não é muito limpo. Eu lembro-me de uma vez do Sporting com o Benfica, os sportinguistas até lhe chamaram a Taça Lucílio Batista, quer dizer, aquilo foi um autêntico escândalo aquela final.

Está a falar da segunda final da Taça da Liga?

Exato. Aquilo foi um escândalo e, há coisa de quatro anos, a história do apuramento em que têm de jogar todos à mesma hora e o FC Porto jogou a segunda parte passados dois minutos e é precisamente nesses dois minutos, que acontecem nos descontos, que o FC Porto marca um golo ao Marítimo e acaba por ser o apurado e não o Sporting. E depois nem todos os clubes olharam para esta competição da mesma maneira. No ano a seguir a isso do FC Porto, o Sporting jogou na Taça da Liga com a equipa B, não jogou com a equipa A, como protesto por aquilo que tinha acontecido. Por isso acho que os clubes não encararam bem. Agora, se este formato fosse diferente, e eu estou farto de dizer isto, vale o que vale, mas a ideia mantém-se.

Qual é a sua proposta?

Esta Taça da Liga, mesmo que seja com quatro grupos com cabeças de série, ou seja, Sporting num grupo, Porto noutro, Braga ou Guimarães noutro - como foi o caso deste ano em que foi o Guimarães o cabeça de série -, fazia-se como na 'Champions League' e apuravam-se dois em vez de ser só um. E depois desses oito serem apurados havia um sorteio puro. Como é na 'Champions League'. Igual.

créditos: ANTONIO COTRIM/LUSA

Só não se encontravam os do mesmo grupo.

Exato! Sorteio puro, o que der deu. E depois o vencedor da Taça da Liga, vamos imaginar que é o Moreirense, ter direito a uma entrada direta na Liga Europa, porque isso chamaria a atenção de todos porque abria ali uma oportunidade de ir a uma competição europeia. Eu acho que isso iria gerar mais receitas, acho que iria gerar mais positivamente o encarar desta competição pelos clubes e pelos adeptos e era capaz de ser mais interessante. Sendo assim, as coisas estão feitas para os grandes e dificilmente um pequeno ganha esta competição. Por acaso este ano até houve a sorte de não ser um pequeno a jogar com um grande na meia-final, são os grandes que jogam um com o outro. Por acaso. Isso é uma sorte. Mas vamos imaginar, se fosse FC Porto-Setúbal e Sporting-Oliveirense, quais eram as possibilidades de os pequenos serem apurados?

E de quem é a culpa? Da Liga?

O presidente da Liga também não pode dar aquilo que não tem. Pode dar consoante aquilo que vai recebendo, penso que com um molde diferente de competição haveria mais riqueza para distribuir.

Mas tudo isso só enfatiza mais o feito do Moreirense a época passada.

Exatamente, por isso é que isso denota que o feito do Moreirense não é só maior: é enormíssimo. É uma coisa fabulosa. Eliminar o FC Porto da fase de grupos, ganhar ao Benfica e ainda por cima apanhar um grande Braga. Epá, digam-me lá para passar isto, para um clube ganhar, o sacríficio que é e ter de estar em noites "sim" para ganhar. Tivemos de ter uma noite "sim" com o Benfica e uma noite "sim" com o Braga, como é óbvio. Se tivéssemos uma noite mais ou menos, como se costuma dizer, "íamos à vida". Não tínhamos hipótese nenhuma.