Em abril de 1994, o FC Porto de Bobby Robson era eliminado nas meias-finais da Liga dos Campeões frente ao FC Barcelona, após uma pesada derrota por 3-0 em Camp Nou.

Na viagem de regresso à cidade Invicta, um jovem técnico seguia cabisbaixo no seu lugar do avião. Era Augusto Inácio, o antigo defesa esquerdo do Sporting e dos dragões, que dava agora os primeiros passos como treinador.

Vendo assim o seu adjunto, “Sir” Bobby Robson aproximou-se e disse-lhe: “Inácio, levanta a cabeça. Futebol é isto mesmo, mas amanhã é outro dia e o sol brilhará para nós”.

E o treinador inglês tinha razão: juntos, viriam conquistar dois campeonatos, uma Taça de Portugal e uma Supertaça; sozinho, Augusto Inácio viria a conquistar dois títulos inéditos, por emblemas diferentes.

Do Sporting ao Porto, de volta a Alvalade outra vez

Aos 27 anos, Augusto Inácio era um dos capitães do Sporting e internacional pela seleção A. No final da época de 1981/82, acabado de conquistar a dobradinha (Campeonato e Taça de Portugal), o defesa-esquerdo leonino, em final de contrato, pediu um aumento. “Ganhava 25 contos, quando já havia jogadores do plantel que ganhavam 80, 90 ou mesmo 100 contos. Eu só queria ganhar um pouco mais, porque era jogador da casa e um dos capitães de equipa”, contava o agora treinador do Moreirense ao jornal I em 2012.

O Sporting propôs ao seu capitão um aumento de "dois a três contos". Insatisfeito, Inácio não aceitou a proposta e conta que, na altura, surgiram três convites: um do Portimonense, outro do Amora e um último do Guimarães. E foi este último que escolheu. Casado e com dois filhos, o defesa português preparava-se para se mudar da capital portuguesa para o berço da nação, mas houve um impasse que inviabilizou o acordo: um Renault 5.

“Tinha tudo acertado”, conta. “Só que disse que precisava de um Renault 5 para a minha mulher fazer as viagens de Lisboa para Guimarães. Eles disseram que não davam carros a ninguém. Ficámos naquele impasse três ou quatro dias até aparecer o FC Porto”.

A Invicta, onde, já instalado, recebeu e recusou duas propostas de renovação dos verde e brancos, era o destino. Lá sagrou-se campeão europeu, tornou-se presença regular entre os convocados para a seleção portuguesa e ‘pendurou as botas’. Mas foi um período estranho, sobretudo depois da chegada, em que se sentia “esquisito com aquela camisola. Era branca, sim, mas havia algo estranho nela. Não era verde, era azul. As linhas não eram horizontais, eram verticais”, disse Inácio na mesma entrevista. Afinal, Inácio tinha jogado de leão ao peito dos 12 aos 27 anos.

Depois de pendurar as chuteiras, de ser adjunto de Bobby Robson nos dragões e das primeiras experiências como técnico principal em Rio Ave, Felgueiras, Marítimo e Desportivo de Chaves, Inácio, o sportinguista que chegou mesmo a ser coroado com dois prémios Dragão de Ouro, preparava-se agora para voltar a Lisboa e deixar o seu nome na história do clube de onde nunca quis ter saído, desta feita como timoneiro, a partir do banco.

De pupilo de Bobby Robson a casa (passando por JJ)

Na temporada de 1996/97, Robson deixava o Futebol Clube do Porto e seguia para Barcelona. Na bagagem levava o seu ‘fiel’ tradutor, já desde os tempos do Sporting, José Mourinho. Inácio ficava e começava a sua segunda aventura enquanto treinador principal no Felgueiras, na altura na segunda divisão nacional, depois de uma primeira experiência em Vila do Conde, ao comandado do Rio Ave em 1991/92.

Inácio não ficaria toda a época. Não demorou muito a dar o salto para o escalão mais alto do futebol nacional, ingressando no Marítimo. Para o substituir e tentar guiar o Felgueiras até à primeira divisão, a direção do clube escolheria um tal de... Jorge Jesus, atual técnico do Sporting Clube de Portugal. No entanto, JJ falharia a subida de divisão, afirmando que se tivesse chegado mais cedo ao comando do clube teria conseguido a promoção. As palavras azedaram a relação entre dois homens que se viriam a encontrar, anos mais tarde, em Alvalade.

Depois de três épocas no Marítimo, Inácio passaria ainda uma temporada no Desportivo de Chaves até regressar a "casa", em 1999, para comandar o Sporting.

A época em que Inácio varreu 18 anos de amarguras

Estávamos na época de 1999/00. Era o virar do século e os leões queriam virar a sorte. 18 anos sem vencer um título era tempo demais. Para isso, José Roquette, Presidente do Sporting à época, confiou o comando da equipa a um treinador italiano desconhecido de todos: Giuseppe Materazzi.

O plantel era coroado pela figura de Peter Schmeichel, o nome mais sonante. Campeão europeu na época anterior, ao serviço dos ingleses do Manchester United e, na altura, considerado um dos melhores guarda-redes do mundo, chegava a Alvalade para defender as redes verdes e brancas.

Para além de Schmeichel, os argentinos Aldo Duscher e Acosta, o espanhol Toñito, os brasileiros André Cruz e César Prates (chegados no marcado de Inverno com o belga Mbo Mpenza), o ganês Ayew (irmão do lendário jogador ganês Abedi Pelé e tio de Jordan e André Ayew, estrelas da atual seleção do Gana) e os portugueses Beto, Rui Jorge e Pedro Barbosa eram alguns dos nomes maiores de um plantel determinado a colocar fim à hegemonia do Porto, que caminhava a passos largos para a conquista do hexacampeonato (seis títulos nacionais consecutivos).

Mas a época não começou bem. À quinta jornada, os leões já somavam três empates. A derrota (3-0) na primeira-mão da Taça UEFA frente à equipa semi-amadora do Viking, da Noruega, foi a gota de água. Materazzi foi despedido e para o seu lugar chegou Augusto Inácio, um homem que conhecia bem os cantos à casa.

Ao contrário do que se podia prever, o primeiro campeonato do novo milénio era liderado pelo Benfica de Jupp Heynckes. Mas os encarnados estavam frágeis, afetados por uma grande crise financeira. A histórica derrota, em Espanha, para a Taça UEFA, frente ao Celta de Vigo, por 7-0, baixou a moral da equipa.

Partindo de trás, os leões de Inácio acabam por conseguir terminar a primeira volta em segundo lugar, a apenas três do primeiro classificado, o FC Porto.

O campeonato segue com empates desaproveitados por dragões e leões, para ter o seu ponto alto na 26.ª jornada. No dia 18 de março, diante de cerca de 50 mil espectadores no estádio José Alvalade, André Cruz e Acosta deram a vitória aos verdes e brancos, com um golo cada, selando a vitória ainda na primeira parte. Inácio sorria, tinha chegado para vencer.

O rival da segunda circular, em crise, haveria de ser o anti-herói de uma época que começava a ficar  destinada a terminar com um país pintado de verde e branco. Na 28.ª jornada as águias receberam e venceram o Porto por 1-0 dando uma folga maior ao Sporting, primeiro classificado. Por outro lado, na penúltima jornada, em Alvalade, quando os leões se podiam sagrar campeões nacionais, o Benfica estragou a festa ao vencer por 0-1, golo de um egípcio (Sabry) que ficaria na história por ter demorado 8 minutos calçar umas chuteiras, segundo um tal de José Mourinho.

O capítulo maior da história foi adiado e viria a escrever-se no último jogo do campeonato quando o Sporting venceu o Salgueiros por 0-4, no estádio Vidal Pinheiro, depois de ter chegado ao intervalo empatado a zeros.

Desde então, só o romeno Laszlo Bölöni conseguiu sagrar-se campeão pelo clube de Alvalade, fazendo de Inácio o último treinador português a ganhar o título nacional pelos leões e o homem que pôs fim ao ‘jejum’ de 18 anos de títulos do Sporting.

De Guimarães ao Catar para treinar Guardiola, o rodopio de Inácio até voltar a ser verde e branco

Na época seguinte à conquista do título, o técnico sairia de Alvalade sem “saber os porquês”. De Lisboa foi para Guimarães, desta vez sem um Renault 5 no meio, e por lá ficou 4 épocas. Depois de uma época a treinar o Belenenses, era a vez de Augusto Inácio se estrear além fronteiras. O destino seria o Catar, no Al Ahli, onde o antigo técnico dos leões se encontrou um jogador de nome bastante familiar: Pep Guardiola.

“O Guardiola funcionava como meu adjunto, porque tinha uma paciência ilimitada em relação aos outros jogadores. Dizia-lhes como receber uma bola, como rematá-la. É uma pessoa fabulosa, bastante humana, com um trato fácil e simples”, contou Inácio ao i.

O técnico regressaria depois a Portugal, para devolver o Beira-Mar à I Liga, mas ficou apenas duas épocas por terras lusitanas antes de passar por vários clubes estrangeiros: Ionikos, da Grécia Foolad, do Irão e Interclube, de Angola, onde conquistou uma Supertaça.

Depois regressou a Portugal (Naval 1º de Maio e Leixões), voltou a emigrar para a Roménia (onde treinou o Vaslui), até assumir, pela primeira vez, o comando do Moreirense. Aí a história seria mais longa, mas o primeiro capítulo não seria o melhor: o clube desceu de divisão e Inácio saiu.

Durante duas épocas, o antigo defesa-esquerdo e treinador dos leões voltou a servir o clube do seu coração, desta feita como Diretor de Relações Internacionais do Sporting.

No início da temporada 2016/17, o antigo jogador do Benfica, Pepa, assumia o comando do Moreirense, mas o resultado não foi o melhor. A ligação entre clube e treinador durou pouco tempo e Augusto Inácio foi chamado a salvar o clube da despromoção. Com a luta pela permanência ainda a decorrer, o treinador conseguiu, entretanto e mais uma vez, fazer história por um clube que equipa de verde e branco, mas agora no Algarve. 17 anos depois de Vidal Pinheiro.

A Liga dos Campeões do Moreirense que deixou todos de boca aberta de espanto

Na segunda passagem de Inácio por Moreira de Cónegos, Inácio recebeu um Moreirense já fora da Taça de Portugal, em último lugar na I Liga mas a disputar, ainda assim, a fase de grupos da Taça da Liga.

Em 6 jornadas, o técnico português, retirou a equipa de Moreira de Cónegos do fundo da tabela e colocou-a no 14º lugar. E depois… venceu a Taça da Liga. Como?

O jogo frente ao Feirense, a contar para a primeira jornada da Taça da Liga, foi um dos primeiros de Inácio. A prova foi levada "na desportiva", com uma equipa em modo de rotação, mas não foi por isso que o Moreirense deixou de arrancar uma vitória por 1-2 em Santa Maria da Feira. Depois, os cónegos foram ao Restelo empatar a 3 bolas com o Belenenses. Ficava a faltar um jogo, frente ao FC Porto, decisivo para a qualificação para a próxima fase da competição. Contra todas as expetativas, o Moreirense venceu os dragões com um golo de Francisco Geraldes. Augusto Inácio e a sua equipa estavam na Final Four.

O sorteio estava pré-determinado e a sorte não sorriu aos estreantes nesta fase da competição. Pela frente tinham o Benfica, dono e senhor da Taça da Liga, com sete conquistas em 9 edições.

“Se o Moreirense ganhar ao Benfica, todos vocês vão dizer ‘Ah, o Moreirense eliminou o Benfica’. Se o Benfica ganhar ao Moreirense, é uma coisa normal. Porque é assim, porque as forças são assim. Nós vamos tentar fazer com que vocês abram a boca [de espanto]: ‘Ah, o Moreirense passou, vai à final'”, disse Augusto Inácio na conferência de imprensa de antevisão à meia-final com os encarnados.

O jogo da meia-final começou e Salvio abriu o marcador para o Benfica. As bocas, até aí, estavam fechadas. Na segunda-parte, o francês Dramé empatou o jogo e passados 8 minutos do primeiro golo do Moreirense, dois golos de Boateng fizeram mesmo as bocas abrirem-se de espanto, fixando o resultado final nos 3-1. Era inédito: o Moreirense estava na final, a primeira da sua história. Estava a 90 minutos do seu primeiro título.

A final fazia-se com um dérbi minhoto: Sporting de Braga vs Moreirense. O favoritismo estava do lado dos guerreiros, é claro. Mas a equipa de Moreira de Cónegos vinha embalada. E de repente, com uma vitória por 1-0, Augusto Inácio vencia a Taça da Liga e erguia o primeiro título do Moreirense, vincando a sua tendência para feitos inéditos, 17 anos depois de conquistar o título pelo Sporting.

“Para o país é um sentimento de admiração, mas para a gente de Moreira é como a Liga dos Campeões", disse já no final do encontro.

Afinal de contas, as cores de Inácio são as mesmas do Moreirense, que ecoam no seu hino:

“O verde da esperança

A quem pertence, a quem pertence

Ao Moreirense, ao Moreirense

O branco da pureza

A quem pertence, a quem pertence

Ao Moreirense, ao Moreirense”

E as asas com que voaram até ao Algarve, essas também foi Augusto Inácio que lhes deu:

"Nasceu pequenino mas valente

Pelo bem e contra o mal

Ganhou asas, voou alto e foi em frente

Hoje é grande em Portugal"

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