Uma volta ao mundo dos estudos escolhendo alguns que nos podem ajudar a pensar o presente e planear o futuro.

Classe média já não é o que era (e talvez não volte a ser)

“Sob pressão: a classe média espremida” é o nome do estudo divulgado pela OCDE que revela que, entre 2007 e 2015, mais de metade da classe média baixa portuguesa perdeu 20% do seu rendimento. Ou seja, ficou ainda menos média. A classe média-alta também perdeu rendimentos, mas houve menos pessoas afetadas (cerca de 30% dos que fazem parte deste grupo). Contas feitas: o salário médio é mais baixo para quem ganha menos e para quem ganha mais o que torna hoje mais difícil ter a vida que se convencionou à da classe média. Casa, carro, férias, tempos livres são alguns dos fatores afetados.

Classe média e salário médio são hoje conceitos sem relação

Os dados da OCDE encontram eco no que se passa nos Estados Unidos. Vamos começar assim: em 1972, um carpinteiro americano ganhava o equivalente ao que seriam hoje 33,55 dólares por hora. Ou seja, 70 mil dólares anuais. Hoje, este mesmo carpinteiro ganha 20,24 dólares/hora e tem um rendimento anual de 42 mil dólares Vem isto a propósito se a América de Trump recuperou ou não a classe média. O que os números mostram é que o salário médio não paga hoje uma vida de classe média - pelo menos como foi desenhada ao longo do século XX. Um pouco de história. Em 1948, os sindicatos da indústria automóvel, uma das mais vigorosas na América de então, conseguiu uma importante vitória ao estabelecer o salário básico fixado em 20 dólares/hora. Trinta anos depois, em 1979, 23% de todos os assalariados à hora nos EUA ganhavam pelo menos 20 dólares/hora. A partir daí esse número começou a baixar e em 2000 já só 16% tinham esse mínimo assegurado. Até que chegámos ao século XXI e mais precisamente à crise de 2008. E a partir daí os economistas passaram a considerar como salário médio 15 dólares/hora, sendo o anterior básico - 20 dólares/hora - considerado topo de tabela no salário médio. Em 2015, 42% dos assalariados americanos ganham 15 dólares/hora ou menos, segundo o National Employment Law Project. Ou seja, com o salário médio em queda, é preciso ganhar mais que a média para se ser classe média. Confuso?

Sexo é tão século XX

Perguntaram-se a homens entre os 18 e os 30 anos quantas vezes fizeram sexo no ano passado e 28% responderam “nenhuma”. Os números são de 2018. Em 2008, à mesma pergunta apenas 10% davam a mesma resposta (“nenhuma vez”). Também há mais mulheres na mesma faixa etária a responder da mesma forma - 18% em 2018 versus 10% em 2008 - mas a evolução é menos acentuada. Os dados fazem parte do General Social Survey realizado nos Estados Unidos.

O celibato entre os mais jovens chama a atenção, lá está porque são os mais jovens, mas na realidade essa tendência faz parte de um quadro maior: a percentagem de adultos que afirmam não ter tido sexo no último ano (23%) nunca foi tão alta e é o corolário de uma linha de evolução ao longo de 30 anos. Razões? Envelhecimento e mais pessoas a viver sozinhas. Mas não só.

O desemprego não estimula relações ( 54% dos desempregados não tinham segundo o inquérito um parceiro) e o desemprego entre os mais jovens leva a que vivam mais anos em casa dos pais (o que também não promove uma sexualidade adulta). Mas, mas, mas. Há ainda outra coisa a perturbar a vida sexual dos americanos e chama-se tecnologia. Ver séries, jogar, estar nas redes sociais - ao que tudo indica são fortes concorrentes do sexo e parecem estar a ganhar.

É mais fácil encontrar o amor se fores branco e com emprego

Já sabemos que é preciso mais dinheiro para se ter vida de classe média e ficámos também a saber que o dinheiro - ou o emprego que o gera - também importa quando se fala de relações emocionais e sexo. Falta dizer que, nos Estados Unidos, também é mais fácil para quem é branco ou asiático. Mais de metade dos nascimentos entre as mães hispânicas foram fora do casamento e a taxa sobre para 69% na comunidade afro-americana. Desce para 28% nos caucasianos e para 11% nos asiáticos.

Há cada vez mais pessoas a viver sozinhas

Prevê-se que o número de lares com uma só pessoa aumente 128% entre 2000 e 2030, segundo um relatório do Euromonitor International. O mesmo estudo prevê que o número de famílias monoparentais aumente também, suportado no crescimento de 79% esperado nos divórcios. Do impacto que todas estas mudanças sociais terá na vida colectiva, das casas que habitamos aos impostos que pagamos, estamos apenas a ver a ponta do iceberg.

A maior parte dos professores quer desistir da carreira

Em Portugal são uma das classes mais descontentes mas parece que não estão sozinhos. Segundo um inquérito publicado pelo British Journal of Educational Studies, cerca de metade dos novos professores - acabados de chegar à profissão - pensam deixar de o seu durante os dez anos que se seguem. Dificuldade de conciliar a vida pessoal e profissional e excesso de trabalho são as razões apontadas.

Nem, nem

Além de desistirem do sexo, os millennials também estão menos interessados em álcool. As razões são económicas, de saúde, em alguns casos de opção por outras substâncias, mas também de estilo de vida. Os dados da Nielsenmostram um abrandamento no consumo de bebidas alcoólicas e os dados da Bon Appétit dizem que o mercado de bares sem álcool pode crescer 30% nos próximos três anos.

Super-empregos? Não se entusiasmem

Os empregos disponíveis são outro grande tema. Mais real que a calamidade que alguns especialistas antecipam com a automação e inteligência artificial, há uma realidade que já se impôs, a dos super-empregos (nome atribuído no estudo sobre capital humano da Deloitte). O que são? Basicamente funções que antes eram feitas por duas ou três pessoas diferentes estão agora concentradas numa só Erica Volini, da Deloitte, explicou como “isto” poderá vir a acontecer: 20 a 30% dos empregos serão super-empregos, 10 a 20% serão empregos de baixos salários e qualificações e 60 a 70% serão híbridos que exigem competências técnicas e soft skills.

Mais pessoas a adiarem as reformas e jovens com encargos mais pesados

E por último, as reformas. Em Portugal fala-se em prolongar a idade de reforma para os 69 anos e nos Estados Unidos aumenta o número de pessoas que as adiam: eram 37% em 2015 passaram para 52% em 2019, segundo dados de um estudo da Metlife. Os mais jovens, por seu lado, têm dívidas já tão pesadas como os pais - em função da crise de 2008 e dos encargos com os estudos -. razão pela qual são a geração que menos pensa em comprar casa.

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