Foi um ano duro, mas nem tudo é mau. Alguns tiveram boas razões para celebrar naquele que ficará para a História como o ano da pandemia. Este é o Almanaque da Felicidade de 2020. Se também teve motivos para ser feliz este ano partilhe connosco, envie um email para 24@sapo.pt


Tudo se precipitou no final do mês de novembro de um ano maldito. O nome de Ljubomir Stanisic saltou, uma vez mais, para a ribalta da esfera mediática quando se assumiu como rosto do Movimento “Sobreviver a Pão e Água”.

Recuando no tempo, o proprietário de restaurantes, reputado chef e consultor que cozinha para bolsas um tanto ou quanto abastadas e mais ou menos democráticas, já tinha tido tempo de antena - enquanto júri de programas de televisão, durante as suas explosões de impropérios em reality shows mais dados a audiências menos endinheiradas, na condução programas sobre gastronomia e na escrita de livros para todos os gostos e bolsas.

No entanto, uma fotografia de very-light na mão em plena baixa lisboeta durante a manifestação que reuniu profissionais dos setores da restauração e hotelaria trouxe para o centro da arena a imponente figura balcânica, de barba bem tratada e braços rasgados por tatuagens. Os holofotes ficam centrados no cozinheiro contestatário que não gosta de política, serve políticos à mesa, mas nunca se serve destes. Nem de António Costa, primeiro-ministro, cliente de quem confidenciou ser amigo, numa conversa longa, na primeira pessoa, com o SAPO24. Seguiu-se uma greve de fome durante sete dias e uma ida ao hospital, bem por debaixo dos olhares dos deputados da nação, em São Bento. Um gesto que viria a reconhecer ter sido “estúpido”, em entrevista ao Observador.

Esta, contudo, não foi a primeira ação contestária de Ljubo, como é tratado pelos próximos. Desvendou-o, em anterior entrevista à RTP. O então simples ajudante de cozinha, recém aterrado a terras lusas, chegou a dormir em frente à embaixada dos EUA, em Lisboa. Revoltou-se contra a guerra na Jugoslávia, país de nascença e do qual fugiu. “Foi a primeira vez que apareci nos jornais”, contou ao entrevistador, Vítor Gonçalves.

A fama despertou invejas, a característica que mais abomina no povo que tanto ama. O Ministério Público viria a bater-lhe à porta no culminar de uma agitação onde mergulhou sem medos.

Num ano cujas circunstâncias pandémicas obrigaram-no a fechar portas, sofreu, como tantos outros sectores da economia, um valente abanão das contas. Mas não foi ao tapete.

2020 ficou ainda marcado pela mudança de estação televisiva (da TVI para a SIC). Uma curta viagem, com polémica à mistura. Para não variar.

Uma estrela e um filme para fechar o ano

Quando o ano já estava em tempo de balanços, uma estrela iluminou-o nas vésperas de Natal. Tal qual o Pai Natal, o volumoso senhor Michelin, vestido de encarnado, capa do guia com o mesmo nome, concedeu a 14 de dezembro uma estrela ao “100 Maneiras”, restaurante no Bairro Alto, bem no centro de Lisboa.

Um reconhecimento internacional que lhe espoletou a vontade de pegar em duas pistolas e dar tiros. Não deu. Antes, eternizou na pele mais uma tatuagem, assim escreve o Observador, num quadro corporal iniciado aos 14 anos, na ex-Jugoslávia, conforme o próprio já tinha mostrado ao SAPO24, uma arte que tanto preza.

Do protesto à consagração, uma mistela de emoções espartilhada nos últimos dois meses do ano, em apenas 30 dias, o que poderá servir como sinopse da vida cuja história dará um filme.

A vida de Ljubo é um retrato de sobrevivência onde cabe a dor e o amor. O choro, sorrisos e abraços. O sofrimento atroz e o êxtase. A loucura e a busca incessante por ser o melhor. E onde, por certo, entrarão aqueles que mais ama. A mulher, Mónica Franco, os filhos, Mateus, 14 anos, 1,90 de altura e pé 47, tal como Stanisic, e Luca, 8 anos, a mãe, Rosa, a irmã, Natasha, a sua equipa, em especial, Manuel Maldonado e Miguel Santos, os braços direitos a quem abraça e com quem discute diariamente.

Nomes recordado na hora do sucesso e cuja pronuncia é capaz de transformar o semblante granítico numa geleia de emoções fáceis. E, até, fazerem-no verter lágrimas. Chorar.

Um português com coração bósnio ou vice-versa

Com a estrela Michelin atribuída estava consumado o devaneio que antes tinha estado na base da falência do primeiro projeto que abriu em Portugal, em Cascais. A busca da perfeição na arte de comer e servir atirou-o para um rombo financeiro anunciado com a crise 2008. Endividado, faliu, caiu e reergueu-se.

Atirou o sonho para o saco do lixo, quase como quem atira um passado para trás das costas. E seguiu vida. De tachos, panelas, facas e a tabuleta do restaurante nas mãos.

O passado, aliás, explica a sua resiliência. Palavra portuguesa que deve ter aprendido muito depois das primeiras palavras aprendidas ao lado de namoradas portuguesas que teve, aos 19 anos. Ou com os companheiros de copa, no início de carreira.

Nascido na Bósnia, em Sarajevo, Ljubomir Stanisic, viveu, por perto, a guerra que deflagrou nas Balcãs. Não fala muito deste episódio. Mexe, demasiados, com as emoções. Nasceu no meio de tiros e ao lado da morte. De amigos e de um país que revisita de alma partida.

Refugiou-se no trabalho numa padaria. Dos 14 aos 18 anos sustenta a família. Foi refugiado, passou pela Sérvia e Croácia. Deixa o inferno para trás. O palato da comida caseira é uma memória trazida de Sarajevo.

Anda pelo mundo e aterra no aeroporto da Portela, nos finais dos anos 90. Segue as pisadas da irmã. Tem um guia turístico na mão. Compra um carro e parte a aventura por Portugal. O Gerês foi amor à primeira vista. Que viria a resultar num casamento com a pátria de acolhimento.

Trabalhou à borla, levou “nos cornos”, aprendeu muito com outros chefes – Michel Chabran, Fernando Barcena, (Alain) Ducasse, (Paul) Bocuse e Vítor Sobral.

Cidadão do mundo, português de coração jugoslavo (bósnio), ou vice-versa, reconhece não ter nascido com a cozinha no horizonte. Seria qualquer coisa. E seria sempre bom no que fizesse. Não acredita na sorte. Acredita sim, no trabalho. E na busca da perfeição.

Adora facas, define-se como um homem de excessos e quer chegar a velho e atirar a frase para o ar. “Uau, a minha vida foi um turbilhão do caraças”.

Adora a caça e pesca. Vive para comer. Come tudo. Na sua boca entra tudo o que mexe, “de entranhas, pescoço, corações, fígados, rins, testículos, rojões, molhengos ... mioleira, olhos, cabeças de peixe, cabeça de vaca e de porco”, admitiu, há três anos. Hoje, já mudou, um pouco. Já trinca vegetais e outros sabores que brotam da terra. Escreve sobre eles, cozinha-os e serve-os.

Por entre dentes cerrados, saem, com frequência, asneiras. Basta fazer uma busca por entrevistas concedidas. Poucas, serão as pessoas a quem um “foda-se” parece poesia declamada.

Não tem filtro entre a boca e cérebro. Mónica Franco, a grande mulher que está por detrás do mais de 1,85 de cozinheiro, caracteriza-o em quatro palavras. Segue a ordem de um menu de degustação. Entrada, prato, prato principal e sobremesa.

Acrescenta uma nota prévia. Como de uma bebida se tratasse. “Ai”, responde à pergunta, por SMS, do SAPO 24, admitindo “normalmente fugir disto”. Depois serve as características. É “autêntico”. Tem o “coração na boca”. Um ser “generoso”. E por fim, define-o como um “touro selvagem”.

A provar a generosidade e autenticidade, Ljubomir ajudou Leonardo, ajudante num restaurante de sushi na Nazaré, caído no desemprego. E, com 2021 à espreita, enterra o ano findo com o enterro do bacalhau, um vídeo partilhado com a sua legião de fãs nas redes sociais.

2021 trará novos capítulos. Aguardaremos que o pano se levante.

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