“A minha primeira memória é a guerra [civil angolana] de 92, de ouvir uma AK-47, mas não existe pior som do que ouvir uma floresta a arder”, diz Adjany Costa, de 29 anos, ao SAPO24. Além de brutalmente marcante, o episódio na floresta, que aconteceu numa viagem em criança com a família, foi ímpar; desde logo porque o convívio com a natureza era pontual, requeria muito planeamento, uma vez que vivia em Luanda, “que não é a cidade mais natural do mundo”.

Quando Adjany nasceu, em 1989, a família tinha-se mudado para a capital de Angola para garantir que crescia em segurança. “O meu pai teve de deixar tudo na vida para ir para a guerra, foi arrancado da universidade e enviado em missão. E a minha mãe ficou grávida muito cedo e seguia o meu pai para onde ele fosse. As terras mais altas de Angola eram a parte mais afetada. A minha mãe conseguiu fugir de Huambo quando eu nasci, deixou tudo para trás e foi para Luanda”.

Durante a sua infância, o escape que encontrava na terceira cidade lusófona mais populosa do mundo, pintada com fábricas e materiais de construção, conhecida pela produção de petróleo e pela maior taxa de mortalidade infantil do mundo, era ir à praia com o pai “todos os santos fins de semana”.

“No período de guerra civil, não era fácil sair para conhecer outras partes do país. Portanto fiquei estagnada. Mas quando ia à praia, via o mar e apaixonei-me logo. A minha paixão com a natureza nasceu com o oceano”, conta.

Na “praia quilómetros”, a fitar o mar, Adjany, com meio metro de altura, tentava esquadrinhar o que poderia estar submerso na imensidão daquele mundo desconhecido. Eram os anos em que teimava com a mãe que era ela a pequena sereia. “Era precisamente o desconhecido do mar que me cativava. Eu tinha a vontade de passar a conhecer, de descobrir”.

A sede insaciável de conhecer estendia-se também ao mundo animal. A angolana lembra-se da primeira vez que teve contacto com a natureza. Foi quando pegou num Cnidário [um espécie de alforreca] na “praia quilómetros”, que ganha o nome pela sua extensão. “A maré desceu e estavam centenas de coisinhas lilases espalhadas por todo o lado”. Apressou-se para agarrar “numa daquelas coisas que parecia gelatina”, o que foi má ideia: “fiquei com a mão toda queimada”. O incidente não desvirtuou a magia daquele momento. “Eu estava completamente fascinada. Até hoje nunca perdi essa curiosidade pelas criaturas do mar”.

Já na altura, chamava a si a missão de preservar a existência dos “amigos” animais. “Quando tinha 7 ou 8 anos, na hora de tomar banho, nós tínhamos muitas vezes formigas no poliban, e eu recusava-me a tomar banho até salvar primeiro as formigas. Ou, por exemplo, uma vez fomos acampanhar e apareceu uma cobra, uma spitting cobra, que são super venenosas e toda a gente estava a fugir e eu estava a tentar salvar a cobra porque queriam matá-la”.

O pai sabia. Ela ainda não

Adjany entrou na faculdade com 16 anos, com o empurrão do pai. Como desde pequena que participava nas explicações de português que a avó dava em casa aos seus alunos, quando chegou à escola já sabia o que professor ia ensinar. “Em vez de prestar atenção ao professor ficava a fazer barulho, distraía todos, destruía a sala, eles não sabiam o que fazer comigo”. Acabaram por comunicar a situação ao Ministério da Educação e aperceberam-se de que o melhor seria que Adjany avançasse dois anos.

Com 16 anos, como a leviandade da idade permite adivinhar, Adjany queria tudo menos estudar. Contudo, o pai avisou-a que não ia deixar que ela ficasse ‘kunamba’ [sem fazer nada, em kiumbo]. Inscreveu-a em Biologia, na Universidade Agostinho Neto, que, por ser a única faculdade pública do país, tinha uma enorme discrepância entre a oferta e procura. “Os testes de admissão eram ridículos. Havia 5 mil candidatos para 20 vagas. Havia pessoas que se preparavam durante anos para os testes”.

Adjany entrou à primeira. Agora consegue perceber que, ainda que na altura não tenha sido a sua decisão, estava destinada a seguir biologia. “Não podia ser outra coisa”, garante. A paixão ganha outra cor no segundo ano da licenciatura, onde adquire mais conhecimento sobre os animais, sobre a relação evolutiva que estabelecem uns com os outros e com o meio ambiente. Porém, as salas de aula eram demasiado pequenas.

“Comecei a imaginar um mundo além da sala de aula. Eu sabia que não queria ficar trancada nos laboratórios. Se era para fazer biologia era para fazer biologia de campo”, diz ao SAPO24.

Quando termina a faculdade, começa a trabalhar numa empresa de consultoria ambiental que a enviava para outras províncias de Angola, onde fazia a monitorização de algumas espécies. Ainda que fosse a oportunidade de visitar o “mato”, onde fazia cem quilómetros num dia, em 7 ou 8 horas de viagem, o seu trabalho não lhe permitia fazer o que realmente ambicionava: investigação no terreno e de raiz.

Fugir de hipopótamos. Sorrir com o voo das águias

Angola é um “país esquizofrénico”, explica Adjany: “Tem florestas tropicais como tem deserto, tem planícies da mesma forma que tem montanhas”. A diversidade fazia com que Adjany tivesse mais e mais curiosidade de explorar o seu país fora de Luanda.

Em 2014, recebe a proposta com que sonhava. “Um grupo de investigadores da América do Sul queria fazer um projeto de exploração da vida selvagem no Okavango. Chegaram a Angola e tentaram encontrar algum investigador que se quisesse juntar à expedição. Mas não é fácil encontrar um angolano que não tenha ambições financeiras”, relata. “Então foi difícil encontrarem alguém porque na altura ainda não tinham financiamento da National Geographic e se podiam pagar. Até que alguém mencionou a possibilidade de eu ser maluca o suficiente para fazer parte daquilo. Ligaram-me e aceitei logo”.

A angolana era a única mulher numa viagem de 121 dias, ao lado de 25 homens. O objetivo era explorar a bacia do rio Okavango, que é a maior área húmida de água doce do sul do continente africano e a principal fonte de água para um milhão de pessoas.

Este rio é de tal forma extenso que consegue ligar três países que nada têm em comum - Angola, Namíbia e Botswana. À parte disso, é um dos lugares mais ricos em termos de biodiversidade e é o habitat da maior população de elefantes do mundo, além de leões, leopardos, cães selvagens e centenas de espécies de aves.

Ao contrário dos demais, o pai de Adjany conhecia bem aquela região. “O meu pai chamava-lhe Terra da Fome e eu estava cheia de medo. Era um lugar fantasma, isolado pela guerra e cheio de minas à conta da guerra que durou 27 anos. Ele insistia para eu não ir para lá”, contou na conferência do National Geographic. Contudo, Adjany queria sair da “sala de estar” de Angola.

Ficar longe da família não era o único sacrifício que as expedições envolviam. Todos os dias era necessário enfrentar tarefas físicas exigentes. Ora tinham de puxar as canoas na lama, com equipamento que chegava aos 350 kg, ora tinham de remar oito horas por dia.

Não demorou muito tempo até perceberem que a natureza ali era “dura” para os que a visitavam. Nos primeiros dias em Okavango, Adjany e os colegas iam colocar as canoas na lagoa para chegar ao rio. Contudo, ao contrário do que pensavam, não havia ligação entre a lagoa e o rio. “Passámos duas semanas a fazer 12 quilómetros por dia, um colega chegou a ter um ritmo cardíaco de 192 batimentos por minuto ao empurrar, ao sol, as canoas do lago até ao curso da água”.

À medida que os dias passavam, Adjany começava a ver o rio Cuito como a “Mãe Cuito” conhecida por ser extraordinariamente severa. “Não era a mãe que passava a mão na cabeça. É a mãe que nos dá lições de vida duras a partir da experiência”.

Além da Mãe Cuito, era necessário ter enorme respeito pelos “guardiões do rio”, isto é, as pessoas que lá viviam, muitas não recebiam visitas há mais de 40 anos. “Não podemos chegar lá e dizer que eles fazem isto mal e nós bem. É preciso ouvi-las, respeitá-las”.

Os título de “guardiões” também se ajustava aos animais. No início, a equipa foi assustada por leopardos, elefantes e hipopótamos, que, segundo a investigadora, são “mal humorados” por estarem traumatizados pela guerra.“Vê-se a diferença de comportamento para os da Namíbia. Um deles empurrou a nossa canoa, depois de fugir assustado por nos ver de um lado para o outro”, recordou na conferência que a trouxe a Lisboa.

A relação com os animais começa a ser mais harmoniosa depois de um mês em Okavango. “Eles [os animais] começaram a olhar para nós como animais, não como humanos. Nós também sentíamos cada vez mais que fazíamos parte daquele lugar, que éramos daquele lugar”.

Adjany Costa
créditos: National Geographic

Adjany confessa que gosta particularmente de ouvir os barulhos associados aos animais. Fica arrepiada com o rugido dos leões, maravilha-se ao sentir a reclamação dos hipopótamos e até gosta do barulho dos sapos, que não a deixavam dormir. Ao contrário do que se pensa, Okavango é muito barulhento. “É adormecer e acordar com barulho, mas é esse barulho que alimenta o sentido de pertença”. Uma das memórias que guarda com mais carinho é acordar com o som das águas, que a fazia sorrir, ainda antes de abrir os olhos.

Além dos animais, até a própria água a conseguia deixar fascinada. “A água que não tem cor. Vê-se o verde das margens, o branco do fundo do rio e o azul do céu, mas, em si, não tem mesmo cor”.

Desta viagem, resultaram várias descobertas: quatro novas espécies de peixes, três de aranhas, quatro de plantas e seis de répteis. Quando voltou para Luanda, continuava a ser a “lunática” junto dos luandenses, que “não têm curiosidade em explorar o resto de Angola”.

Ainda assim, para a investigadora, a viagem permitiu ver o seu país de outra forma. “Desde a expedição que tudo mudou na forma como eu vejo o meu país. Toda a gente que conheço cresceu numa sociedade sem esperança em que só se lembra dos tempos da guerra. Este projeto deu-me a possibilidade de ter esperança. Mostrar que estamos numa nova era”.

Mesmo depois de explicar os benefícios de visitar outras províncias, as pessoas continuavam a perguntar: “porque é que uma Muzumbia [mulher bonita] e de bom berço vai para fora de Luanda e o que é que está a fazer em biologia?”.

O espanto é sempre maior quando se fala de uma mulher. São raras as que fazem parte do mundo de investigação no terreno - e o impedimento parte, em primeiro lugar, delas. “A maior parte das mulheres retraem-se. Não são barradas, retraem-se, por terem família, por serem donas de casa, mães, e pensam que não existe conciliação entre fazer pesquisa, trabalho de campo e ter uma família e uma vida estável. Na verdade é muito difícil. Eu tenho sorte porque sou jovem e não tenho família”.

Não é fácil convencer uma mulher a viajar para longe, ficar três ou quatro meses em terras desconhecidas, só com homens à volta, e convencer que a viagem vai ser uma benção na vida delas. “É preciso existir muita paixão por este tipo de trabalho. E quando estas mulheres existem, as grandes exceções, os maridos não ajudam”.

“Tivemos várias mulheres que mostraram esse interesse, que queriam ir, e dois ou três dias antes da expedição ligaram-me aflitas porque o marido ameaçou que ia pedir o divórcio se elas fossem, diziam que a mulher tinha de ficar em casa”, diz Adjany.

Pelo contrário, esta Muzumbia sempre teve outra maneira de ver as coisas. Por ter crescido com dois pais “cheios de sonhos”, mas que tiveram de abdicar daquilo que queriam ser por causa da guerra e dos filhos, Adjany sabe bem qual é a sua prioridade.

“Os meus pais educaram-me a ser eu, a ser sincera com o que eu quero e a ter prioridades. A minha prioridade sou eu e a minha paixão. Da mesma maneira que eu tenho de respeitar um possível parceiro, o possível parceiro tem de me respeitar a mim. O que eu faço é uma grande paixão. Um grande pedaço da minha vida. Se a outra pessoa não respeitar isso…” Nem é necessário terminar a frase.

Atualmente, Adjany Costa trabalha como diretora assistente do Okavango Wilderness Project, uma iniciativa da Fundação Wild Bird e financiada pela National Geographic Summit. Neste projeto, a equipa de investigadores angolanos e internacionais, em colaboração com cineastas, fotógrafos e escritores da National Geographic estão a estudar a área de forma a, entre muitas coisas, perceber como se pode provar que é aqui que está o futuro e porque os olhos devem estar colocados no Okavango.

Para a investigadora, foi em Okavango, longe da vida regrada da civilização, que aprendeu a ser pessoa que queria ser. “Lidar com a vida selvagem dá um sentido de vida muito diferente do que é o conceito moderno humano. É tão bom sair do nosso conforto, sair desta sociedade que nos impõem tanto”.

Fala de Okavango, dos seus cheiros, das suas cores, das suas aventuras sempre sem deixar de sorrir. Contudo, é o carinho que sente pelos pais que lhe arranca sempre as expressões mais doces, mais bonitas. Confessa-nos que gostava que as memórias que o pai tem de uma Angola bonita, rica e diversa, pudessem voltar a ser uma realidade. Já à mãe, lança apenas uma pergunta: “Mãe, estás a ver? Consegui ser a pequena sereia!”.

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