A TVI instaurou um inquérito interno e a jornalista foi alvo de um processo disciplinar. A informação foi confirmada à publicação pelo advogado da jornalista, Ricardo Sá Fernandes.

Em causa está o facto de Ana Leal ter entregue ao Conselho de Redação correspondência eletrónica que trocou com a Direção de Informação da TVI sobre "divergências internas acerca da emissão de reportagens".

Ricardo Sá Fernandes não vê “qualquer fundamento, nem para a suspensão, nem para qualquer processo disciplinar” e receia que "investida possa comprometer a liberdade de imprensa”.

A suspensão vai durar enquanto decorrer o inquérito interno instaurado pela TVI.

Cancelamento do programa de investigação "Ana Leal" na origem da polémica

O segmento “Ana Leal”, que era transmitido quinzenalmente, às terças-feiras, foi suspenso a 10 de março, na sequência da propagação da pandemia.

O cancelamento foi alvo de  críticas por parte dos jornalistas que integravam a equipa do programa. “A equipa continuou a trabalhar sob as orientações da coordenadora Ana Leal”, apenas em “histórias sobre a temática covid-19” e que seriam transmitidas no “‘Jornal das 8’ sempre que estivessem concluídas, mas agora sem dia nem hora marcados”, refere uma carta, a agência Lusa teve acesso, enviada pela equipa da jornalista ao Conselho de Redação da TVI.

A carta refere ainda que o Diretor de Informação, Sérgio Figueiredo, concordou manter “a marca de água ‘Ana Leal’ para que os espetadores soubessem que o programa estava vivo”, mas acabou por retirar a “respetiva autorização acordada com a jornalista Ana Leal, sem nunca explicar porquê”.

Segundo o documento, o diretor de Informação comunicou, em 26 de março, que a equipa do programa “era dissolvida” e que os jornalistas que a integravam “regressavam à redação”.

A carta acrescenta que nunca foi referido a este grupo “que se tratava de uma situação transitória para acorrer a necessidades da redação” e que “a ideia foi transmitida como definitiva”.

Os jornalistas que integravam a equipa deste segmento incluíram na missiva um excerto de uma conversa na aplicação de mensagens para 'smartphone' WhatsApp, de 17 de março, com uma mensagem atribuída a Sérgio Figueiredo e que consideram que demonstra “o que pretendia da informação da TVI”.

“Jornalismo é informar, mas é, sobretudo, ter a noção do papel que desempenha na sociedade. Por isso, também é filtrar, ter a noção do tempo e do modo como o nosso trabalho impacta na vida dos outros. Enquanto os incêndios não se apagam, não é hora de questionar os bombeiros. Não ignoramos as falhas, mas estar a insistir nelas, estar sobretudo preocupado em denunciar o que não funciona, assusta as pessoas e afasta-as da antena, provoca rejeição. As televisões têm agora a preocupação de informar, de esclarecer, de ser pedagógicos, de perceber que as pessoas precisam sobretudo tranquilizar-se e confiar”, terá dito Sérgio Figueiredo, em resposta a Ana Leal sobre uma reportagem que seria exibida no dia seguinte (18 de março).

“Quando ela acabar [a pandemia], quando ela for vencida, então voltamos a questionar, a denunciar, a pôr em causa. Como sempre temos feito, como esta equipa tem feito, com o aval e o comprometimento pessoal deste diretor que vos admira e dá o corpo às balas para que nenhuma pressão nenhum interesse vos trave”, terá acrescentado o diretor de Informação da TVI.

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