É português, professor na Universidade de Columbia, e iniciou em outubro do ano passado um protesto pacífico em Nova Iorque, onde vive: #freemycountryfromcorruption [#libertemomeupaísdacorrupção]. André Corrêa d'Almeida quer sensibilizar e promover soluções para o problema da corrupção em Portugal.

Está nos Estados Unidos desde 2005, os primeiros dois anos em Denver, os últimos 13 em Nova Iorque, para onde foi fazer um doutoramento num misto de Ciência Política e Administração Pública, que concluiu há dez anos. A tese é sobre questões de desenvolvimento, especificamente a inovação no setor público: cidades, parlamentos, estruturas públicas urbanas.

Viveu em Moçambique os dois primeiros anos de vida, entre 1970 e 1972, enquanto o pai serviu o exército português como médico na frente moçambicana da Guerra do Ultramar.

Em 2018 publicou "Smarter New York City: How City Agencies Innovate", um livro sobre inovação nas cidades, concretamente sobre a administração das câmaras municipais e vereações, tendo como exemplo o caso de Nova Iorque. Um ano depois, para fechar o ciclo, passou do nível local para o nacional e coordenou o livro "Reforma do Sistema Parlamentar em Portugal".

A experiência multicultural e multi-institucional comparada tem sido fonte de discernimento sobre o que significa ser português e também uma fonte de inspiração para ideias sobre Portugal e o seu futuro.

"Há uma afetividade própria relacionada com Portugal, mas a um nível mais racional o que me interessa é estudar as questões da inovação a partir de um espaço onde poucos acreditam que haja inovação, que é o setor público", explica.

Inovação e corrupção parecem assuntos distintos, mas inovação pode ser uma ferramenta no combate à corrupção. É nisto que acredita André Corrêa d'Almeida e foi por aí que começámos a conversa, num dia soalheiro e com as praias da linha do Estoril como cenário de fundo.

"Penso que a opinião pública está muito enviesada, e um dos desafios à inovação municipal é o da imagem e do prestígio das instituições públicas".

Há espaço para a inovação no setor público ou estamos condenados a fazer assim porque sempre foi assim?

Absolutamente. Calcula-se que em 2050 cerca de 80% das pessoas viverão em cidades. As cidades têm de certeza, por isso, algo que nos faz vir para elas, e isso está muito relacionado com a capacidade de as autoridades locais tornarem as cidades espaços mais ou menos habitáveis. Não é certamente por causa do setor privado que temos as praias limpas; nasci em 1970 e, nessa década e metade dos anos 1980, todas as praias da linha do Estoril eram um esgoto. Foi devido ao dinheiro que veio da União Europeia - e esse dinheiro é também um elemento público -, mas também às opções tomadas pelas câmaras de Cascais, de Oeiras e de Lisboa que se recuperaram as praias. Penso que a opinião pública está muito enviesada, e um dos desafios à inovação municipal é o da imagem e do prestígio das instituições públicas.

Por que motivo diz que a perceção que existe é enviesada?

O que se passa no setor público não é muito diferente do que se passa no setor privado. No entanto, as histórias de inovação que se ouve contar são de bancos, de startups, de empresas como a Samsung ou a Apple. Não digo que o setor público é perfeito, o que digo é que há um grande enviesamento das perceções a desfavor do funcionamento dos organismos públicos, precisamente porque a persistente falta de integridade e transparência em alguns casos mais sonantes, e muitos deles a nível nacional, encobre e mina a prestação mais integra e inovadora de muitas autarquias. No entanto, veja a quem se recorre, por exemplo, para a saúde. A luta americana para ter um serviço de saúde público - eles chamam-lhe universal, mas é público - é imensa. O gosto e o orgulho que os portugueses têm, apesar de todos os defeitos, no seu Serviço Nacional de Saúde, prova isso. Michael Moore, realizador do documentário "Fahrenheit 9/11", de 2004, realizou e dirigiu um novo documentário em 2015, "Where to Invade Next" [O Invasor Americano], uma recomendação ao governo americano, numa sátira à tradição que os EUA têm de invadir países por tudo e por nada, sobre países a invadir. E um dos países que devia ser invadido é Portugal. Michael Moore diz que os americanos deviam invadir Portugal por causa da experiência positiva na despenalização do consumo de drogas; somos um case study, enquanto a experiência americana é a oposta - e Obama contribuiu muito para a massiva penalização do consumo de drogas.

"As smart cities apontam para uma ficção científica, apenas possível se as cidades tiverem rios de dinheiro para investir"

Entre público e privado existem diferenças, desde logo o "acionista", a origem do capital e a prestação de contas.

O público tem questões específicas, isso é inegável. A minha investigação não vai no sentido de negar esses problemas, vai no sentido de trazer à superfície as dinâmicas específicas de inovação que já existem - em termos de transporte público, do papel dos serviços de saúde, dos serviços de proximidade...

O que descobriu com a sua investigação?

A minha investigação procura criar diálogo. No caso de Nova Iorque, o regime local que mais estudei, o livro aponta para o potencial de parcerias público-privadas, que podem ser desenhadas a partir do que já existe, e mostra como se podem criar agendas de inovação em cidades tão falidas. O livro é uma crítica à lógica das smart cities, porque apontam para um futuro, uma ficção científica, apenas possível de alcançar se as cidades tiverem rios de dinheiro para investir em tecnologia e em sistemas de dados. O discurso das cidades inteligentes ajuda muito vinte ou trinta cidades em todo o mundo - e deixa as indústrias todas contentes porque tem ali belíssimos clientes - mas, numa perspectiva de desenvolvimento global, é uma coisa que não interessa. Tive essa experiência: mayors de pequenas e médias cidades que não querem participar neste tipo de conversa porque não têm um ou dois milhões de dólares ou sequer 15 mil euros para embarcar nisto. O livro acaba por ser uma identificação, até muito na lógica de Michael Porter, do talento que já existe. Há uma quantidade imensa de talento nas nossas vereações e municípios que não é utilizada, redes informais que podem ser potenciadas.

Como se passa da inovação no setor público para o combate à corrupção?

Uma primeira resposta é que nos cinco anos anteriores à Columbia University foquei-me nas questões de desenvolvimento em Moçambique, a partir do papel da diáspora moçambicana na melhoria das instituições africanas. Estávamos ainda no período dos oito objetivos do milénio, muito focados em matérias relacionadas com a pobreza extrema. Foi essa a razão que me levou a fixar-me no hemisfério sul, principalmente em África. Depois há um hiato de tempo de adaptação à universidade - fui convidado para criar um mestrado na área do desenvolvimento e tive muito pouco tempo para a investigação. Estávamos no primeiro ano da troika quando eu, já mais organizado profissionalmente, pude voltar a dedicar-me à investigação. E, como cidadão, como apaixonado por Portugal, comecei a pensar num Portugal pós-troika: falei com pessoas que estiveram ligadas à primeira intervenção do FMI [Fundo Monetário Internacional], em 1977. A investigação que esteve na origem do livro desenvolveu-se ao longo de seis anos com a participação de cerca de 1200 colaboradores e assenta nesta ideia de que uma área específica de intervenção para melhorar as condições socioeconómicas e políticas em Portugal é a Assembleia da República, o órgão deliberativo do país.

Que deu origem ao livro "Reforma do Sistema Parlamentar em Portugal".

Repare que a ideia da inovação está sempre lá: em Moçambique era a questão da inovação das instituições, que pudesse favorecer o desenvolvimento de um país em situação de pobreza extrema, depois a inovação no Parlamento, de forma a melhorar as condições económicas, sociais e políticas em Portugal. Pela investigação casei dois amores, o que descreve um pouco o meu trajeto de vida; apaixono-me pelas coisas e mergulho profundamente nelas, por isso utilizo muito a investigação aplicada e não apenas a investigação.

Gostava que contasse um pouco o processo de investigação...

Criei um grupo, formado por 13 deputados, representantes dos então sete partidos com assento parlamentar, que, ao longo de três anos, trabalhou de uma forma muito low profile. Era um espaço de diálogo, reuníamos de quatro em quatro meses, que acompanhava os trabalhos dos investigadores. Correu de tal maneira bem que foi fácil ter os deputados dos partidos a escreverem o prefácio do livro, com excepção d'Os Verdes.

Quer trazer o debate para a sociedade civil. Acredita que por ter tido a colaboração de deputados, da Assembleia da República, o livro terá um efeito prático?

Depende do uso que lhe for dado na academia e no Parlamento. Por coincidência ou não, tenho ouvido falar no código de ética dos deputados, na questão do regime de exclusividade, na Comissão Eventual para a Transparência [Comissão Eventual para o Reforço da Transparência no Exercício de Funções Públicas]... Não sei se há uma relação causa-efeito, mas quero acreditar que o livro ajudou pelo menos um bocadinho. Porque a investigação, embora independente e autónoma, foi feita em conjunto com as lideranças parlamentares, através de deputados com peso em cada bancada - André Silva, do PAN, António Filipe, do PCP, também muito ativo, Ricardo Baptista Leite, do PSD, na altura júnior e agora muito importante no partido, Sandra Cunha, do BE, muito próximo da liderança, Porfírio Silva, do PS, juntamente com Carlos Zorrinho, e Ana Bandeira, do CDS-PP. Além disso, houve muitas conversas com a Presidência da Assembleia da República, várias reuniões com o Jorge Lacão.

"Não é preciso muita ciência para se achar inconcebível que um deputado que está na comissão parlamentar que trata da privatização da EDP seja ao mesmo tempo quadro superior do banco que faz a assessoria aos chineses que estão a comprar a empresa"

O que virá a seguir?

Há projetos que estão a ser desenvolvidos. Criei uma rede de investigação na área da Inteligência Artificial e Machine Learning para a prevenção e combate à corrupção, que integra especialistas da Universidade do Minho, da Universidade do Porto, da Universidade Católica, do Instituto Superior Técnico, da Universidade de São Paulo, da Universidade Portucalense, do INESC TEC, do INESC-ID, da Universidade Columbia de Nova Iorque e da Carnegie Mellon University. Estamos a produzir uma ferramenta com base em inteligência artificial para estudar os conteúdos produzidos na Assembleia da República. São conteúdos públicos, disponíveis online no site do parlamento, mas que não são utilizados por quase ninguém. Começámos este projeto há quatro meses e a ideia é, resumidamente, carregar os algoritmos que estamos a desenvolver com uma quantidade imensa de dados em torno de iniciativas legislativas, atas dos votos eleitorais, atas das comissões parlamentares e das resoluções plenárias e, depois, criar um conjunto de métricas que permitam dar vida ao discurso político ou ao comportamento histórico dos políticos. Isto é: o que é que o deputado x, y, z - não vamos começar com os 230, estamos a testar com um número mais reduzido - defendia há cinco anos? Quem são os campeões anticorrupção? Como é que o discurso se descaracterizou em relação a cada pessoa? Esta ferramenta vai permitir analisar certos temas e a coerência e evolução dos partidos e dos políticos em determinadas matérias. Esperemos que sirva de incentivo e crie uma concorrência positiva, porque o discurso político atual é negativo, quem disser mais mal ganha porque faz o outro sofrer mais. Ao mesmo tempo isto permitirá conhecer melhor dos nossos representantes.

"Há coisas que não são ilegais apenas porque não estão regulamentadas e muitos casos têm implicações diretas no erário público"

Uma das críticas que faz é que, em matéria de boas práticas, já quase tudo foi escrito.

Claro, porque não é preciso muita ciência para se achar inconcebível que um deputado que está na comissão parlamentar que trata da privatização da EDP seja ao mesmo tempo quadro superior do banco que faz a assessoria aos chineses que estão a comprar a empresa. Ou que um conselheiro do Banco de Portugal seja, imagine-se, gestor de um fundo de investimento.

E, no entanto, esses casos aconteceram e continuam a acontecer.

Banalizou-se, claro. Se o PS faz, diz que o PSD também fez. Quando o PSD fizer, diz que o PS fez antes. E andamos assim, felizes e contentes. Há duas questões em particular que me interessam: a das portas giratórias e a dos conflitos de interesses. Mesmo que se diga que a questão da corrupção existe em todo o lado, mesmo que se diga que, apesar de tudo, nos últimos cinco anos os tribunais e os procuradores têm sido mais ativos, há coisas que não são ilegais apenas porque não estão regulamentadas e muitos casos têm implicações diretas no erário público.

Habitualmente acontece o contrário, legaliza-se comportamentos duvidosos. Foi assim com o caso "Family Gate" ou com a escolha de Mário Centeno para o Banco de Portugal.

A questão é essa. Qual é o incentivo que existe para fazer diferente? Por isso tenho muitas dúvidas, para não dizer que tenho a certeza, que esta mudança alguma vez venha do Parlamento ou do governo. Qual o incentivo que têm para se autorregular?

De onde pode, então, vir a mudança?

Gorbatchov auto-regulou-se; representava uma máquina e disse que queria que aquilo que representava deixasse de representar o que quer que fosse. Nelson Mandela também se autorregulou: disse não continuaria a alimentar o regime e a primeira coisa que fez foi pedir ao staff  branco que ficasse no governo. A mudança tem de vir da Presidência da República, dos tribunais e da sociedade civil, caso contrário é difícil que venha.

O presidente da República tem tido esse papel?

Não penso que seja um problema deste presidente da República, creio que é uma tradição das presidências, que se foram demitindo do sistema semi-presidencialista consubstanciado na Constituição. Acredito que o único verdadeiro presidente que tivemos no que se refere ao que a Constituição prevê que seja um presidente da República foi o general Ramalho Eanes.

"Portugal adoptou apenas uma de 15 medidas contra a corrupção propostas pela Comissão Europeia"

Que ferramentas tem a sociedade civil, além das eleições?

Tem de ser mais do que as eleições. Temos o ativismo, mas a última grande mobilização foi na altura da troika, em 2011, porque nos foram diretamente ao bolso.

Iniciou em outubro uma série de ações de rua em Nova Iorque: hashtag libertem o meu país da corrupção. Porquê em Nova Iorque e qual o objetivo?

O objetivo principal é sensibilizar e promover soluções, que já são conhecidas, para o problema insidioso da corrupção em Portugal. Em Nova Iorque porque é lá que eu vivo. Protesto contra duas coisas: o imobilismo do legislador, que se recusa a legislar sobre as coisas mais básicas já recomendadas por autores internacionais e nacionais. Portugal adotou apenas uma de 15 medidas contra a corrupção propostas pela Comissão Europeia. Não surpreendentemente descemos do 23.º para o 30.º lugar em termos de perceção da corrupção. Este é o meu contributo para que o legislador mude de atitude, mas também a obrigação que sinto de não me ficar pelos papéis, pelos livros e pelos bitaites nos social media e entre amigos e família. Acima de tudo, é uma coisa que devo a mim mesmo, é uma questão de coerência. Mas sou uma voz entre outras - Medina Carreira, Paulo Morais, José Gomes Ferreira, Luís de Sousa, Susana Coroado, Nuno Garoupa. Se o facto de ser emigrante e a simbologia de estar em Nova Iorque ajudar, melhor ainda.

"Quando a corrupção começar a ser o assunto, quando todos pressionarmos para que seja um assunto, a coisa vai lá"

Falou em dois motivos, qual é o segundo?

É lutar contra um certo imobilismo das pessoas, da sociedade civil. Sou o mais velho de nove irmãos, se mobilizar a minha família, já é um número simpático. Se a isto juntar amigos e o meu círculo de social media, já é um número considerável. Fui criado numa tradição em que a família, de forma geral, acreditava que a política era para os políticos: "Deixa lá os políticos", "não te metas, que eles lá se entendem". É uma família de classe média-alta, muito ligada à Igreja, aos escuteiros, à comunidade local, que era Carnide. Meter-me na política era igual a arranjar chatices. Agora, o que quis fazer foi dar um contributo, o testemunho de que isto não é uma coisa para deixar para São Bento, porque não se vai alterar por dentro.

Há pelo menos uma geração inteira que nunca viu Portugal numa rota ascendente, viu o país sempre em crise.

Temos muita urgência na transformação durante a nossa geração, temos muita urgência de as coisas terem de mudar enquanto ainda somos vivos. Mas ao nível da história e da ciência política 44 anos é pouco. Há dez anos falar de sustentabilidade era uma coisa tonta, que se deixava para a responsabilidade social. Quando a corrupção começar a ser o assunto, quando todos pressionarmos para que seja um assunto, a coisa vai lá. Mas são processos lentos. Há pontos positivos, sinais de esperança. O alargamento do número de partidos com assento parlamentar de seis para dez mostra que o eleitorado está mais disperso por ideias diferentes. Mesmo se considerarmos que os níveis de abstenção estão a aumentar, vejo isso como um sinal de que já não é só PS e PSD. Depois, os casos mais mediáticos da justiça, sobretudo desde Sócrates, e apesar de todas as deficiências e confusão, mostram que esta área se democratizou. Até o facto de estarmos a ter esta conversa mostra isso: eu não previa ser embaixador do tema corrupção até há pouco tempo, mas chegou-se a um nível que não é comportável.

Gostava que definisse corrupção.

A Transparency International Portugal define-a como “abuso do poder confiado para obtenção de benefícios privados. A corrupção pode ser classificada como grande, pequena e política, dependendo do volume de dinheiro perdido e do setor em que ocorre”. O meu trabalho de investigação e foco como cidadão centra-se na corrupção política a nível central - órgãos do Estado - e local - municípios e freguesias. A definição de corrupção política da Transparency International Portugal é: “Manipulação de políticas, instituições e regras de procedimento na distribuição de recursos e no financiamento, por parte de decisores políticos, que abusam da sua posição para manter o seu poder, estatuto e riqueza”.

"Se não se alterar o sistema eleitoral, o candidato a deputado não será escolhido pela competência técnica, mas por variáveis como a lealdade à liderança do partido"

Qual a extensão e o impacto da corrupção em Portugal?

O Corruption Perception Index [Índice de Percepção de Corrupção] de 2019 indica que nos últimos 19 anos Portugal regrediu do 23.º para o 30.º lugar em termos de corrupção no setor público. A GRECO, entidade do Conselho da Europa que monitoriza o combate a este fenómeno, indica que apenas 6,7% das medidas anticorrupção recomendadas por este organismo europeu foram implementadas em Portugal (2019). O Flash Eurobarómetro (2019) sobre empresas e corrupção indica que mais do que o pagamento de subornos (34% das respostas), são o favorecimento de amigos e/ou familiares em negócios (55% dos inquiridos) e em instituições públicas (59%) as práticas mais comuns em Portugal. A Transparência e Integridade Portugal (2020) considera a estratégia nacional de combate à corrupção 2020-2024 apresentada pelo governo “vaga, insegura e acanhada, excessivamente legalista e muito pouco ambiciosa”. Dois estudos levados a cabo no âmbito do Parlamento Europeu, em 2016 e 2019, apontam para que a corrupção em Portugal tenha um custo entre os 8% e os 10% do PIB.

"Existem muitas formas de corrupção, incompatibilidades, conflitos de interesse e abuso de poder que não estão ilegalizadas em Portugal, o que é inaceitável"

Qual seria um fator decisivo no combate à corrupção ou por onde começaria a mudança?

Começa pela separação de poderes: se autoridade é competência, é ela que confere legitimidade útil ao poder. A escolha aleatória confere uma legitimidade que pode ser perigosa. A primeira coisa a fazer é deixar de permitir que o candidato a deputado nos seja imposto. Se o sistema eleitoral fosse diferente, eu eleitor teria mais responsabilidade e mais autonomia na escolha específica da pessoa. Isso pode ser feito de diversas formas: listas abertas, voto preferencial... Mas se não se alterar o sistema eleitoral, o candidato a deputado não será escolhido esmagadoramente pelo mérito, pela competência técnica, mas por variáveis como o partidarismo, a lealdade à liderança do partido. A experiência positiva ao nível das eleições locais, com a possibilidade das candidaturas independentes, é algo que poderia acontecer a nível nacional [das eleições legislativas]. Mas não, tenho de vender a minha alma ao diabo se me quiser candidatar. Se não quisermos mexer no sistema eleitoral, em última análise a questão está toda no recrutamento. Mas até isto não é rocket science. Numa análise de medidas anticorrupção está-se a falar de medidas que promovam uma igual distribuição de riqueza, uma igual distribuição de oportunidades, e tudo o que possa promover essa igualdade é benéfico.

O caso do Procurador Europeu, José Guerra, é corrupção?

Se é ou não corrupção, só uma investigação imparcial o poderá determinar. Mas claramente que a falta de transparência que persiste sobre o caso após todas estas semanas (ninguém conseguiu ainda explicar cabalmente quais foram os critérios utilizados pelo governo na escolha do Procurador Guerra) é, por si só, indiciador não só de eventual corrupção, mas também, talvez, de abuso de poder, clientelismo, falta de ética, falha no código de conduta, conluio, fraude, falta de integridade e nepotismo. Voltamos à história do ilegal: temos de perceber que não ser ilegal não significa ser eticamente aceitável. Existem muitas formas de corrupção, incompatibilidades, conflitos de interesse e abuso de poder que não estão ilegalizadas em Portugal, o que é inaceitável. O Estado português nunca promoveu uma elevação e avaliação integral e multi-institucional dos seus alicerces de transparência e integridade. O que temos de avaliação integrada foi um trabalho muito inovador da Transparency International Portugal em 2012. Diversos organismos europeus desenvolvem relatórios setoriais periódicos.

Como poderia ter sido prevenido e como se podem evitar casos futuros?

É importante que se investigue este caso, mas, acima de tudo, que sirva de exemplo para tornar os processos de recrutamento público mais transparentes. Aprenda-se com os erros e inove-se; evolua-se. Temo, no entanto, que por não haver quem fiscalize seriamente (ou, havendo, não tem capacidade para investigar tudo o que deveria ser investigado sobre o funcionamento do Estado) nada se altere e modernize no sistema, tornando-o mais robusto e menos vulnerável a interesses particulares. Este caso poderia ter sido evitado se existisse um sistema nacional de integridade coordenado por um organismo nacional robusto, não dependente do Parlamento nem do governo, que avaliasse, fiscalizasse, investigasse, julgasse, penalizasse e recomendasse novas formas de combate à corrupção. Uma nova autoridade administrativa independente que resultasse da fusão de todas as atuais instituições, tais como o Conselho de Prevenção da Corrupção, a Entidade de Contas e Financiamentos Políticos, a nova Entidade da Transparência que ainda não saiu do papel, entre outras que ou são redundantes ou são ineficazes ou não têm os recursos necessários ou estão capturadas por interesses instalados.

A CRESAP - Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública foi um ato falhado?

Isso é tudo cosmética. Tudo o que não permita às pessoas mais capazes e talentosas desempenhar uma determinada função, discordo. Estou a terminar um manifesto com 13 pontos, um deles é que os reguladores sejam selecionados no mercado laboral internacional, por concurso público internacional. Podem candidatar-se todos, portugueses incluídos, e depois a seleção é feita por um painel independente. Não há nenhuma justificação para que essas pessoas sejam nomeadas, nenhuma.

Acresce que vamos ter cerca de 6 mil milhões por ano a chegar a Portugal até 2027.

E rejeitaram o portal proposto pela Iniciativa Liberal. Aqui está um belíssimo exemplo do motivo por que não acredito, mesmo com o meu otimismo racional, que a haver mudança ela possa vir da Assembleia da República. Possivelmente poderia vir de um presidente da Assembleia da República especialmente carismático, que não temos. Defendo que o plano de recuperação da União Europeia deve ser acompanhado por peritos independentes, pela sociedade civil e por uma UTAO [Unidade Técnica de Apoio Orçamental] com um orçamento três a cinco vezes maior que o atual, a criação de uma nova entidade de fiscalização da luta contra a corrupção independente, que reporte diretamente ao Presidente da República, e o recrutamento no mercado de trabalho internacional de presidentes e staff sénior das entidades reguladoras e de supervisão.

Como é que a inovação pode ajudar no combate à corrupção?

Primeiro, Bill Gates fazia parte do sistema da IBM, que não o apoiou. Saiu e fez a Microsoft. Jeff Bezos trabalhava num fundo de investimento ao qual pediu 10 ou 20 mil dólares para criar uma livraria online. Não teve esse apoio, saiu e fez a Amazon. Ou seja, a inovação causa estes momentos de rutura. Há dez anos, quando foi criada a Transparência e Integridade de Portugal, foi a primeira vez que foram feitas avaliações na área da corrupção, uma inovação brutal. O empreendedorismo de deputados como André Silva ou André Ventura, goste-se ou não, criou momentos de rutura com o sistema. Em todos estes exemplos há algo em comum, a redistribuição de poder. Por exemplo, os municípios cobram impostos, taxas e, no caso português, isso é menos de metade da média europeia. Isto é, o grau de dependência das autoridades locais do nível nacional é muito maior do que a média europeia. Uma vez mais, tudo o que se puder fazer descentralizar poder, distribuir poder é positivo. Mas enquanto São Bento continuar a ser uma réplica das cortes - tínhamos o rei e todo o séquito que andava pelos corredores - porque, querendo ou não, premeditadamente ou não, fazem todos parte de uma família, de um cartel, a realidade não mudará.