A visita da ministra da Justiça portuguesa, Francisca Van Dunem, a Angola, prevista para hoje e quinta-feira, foi adiada "sine die", a pedido das autoridades angolanas, anunciou em comunicado o Ministério da Justiça, ao final da tarde de terça-feira.

"As autoridades angolanas solicitaram um adiamento tendo em vista um reagendamento da visita para outra data. Procurar-se-á reagendá-la", afirmou hoje aos jornalistas o ministro dos Negócios Estrangeiros português, após uma audição na comissão parlamentar de Assuntos Europeus.

Questionado sobre qual foi a explicação do Governo angolano, Augusto Santos Silva respondeu: "A justificação apresentada foi a necessidade de reponderar nova data".

"O que eu disse foi o que foi comunicado e isso é bastante", salientou, acrescentando: "A consequência óbvia é que a visita não se podia fazer hoje e amanhã [quinta-feira], conforme estava previsto".

Interrogado sobre se esta decisão do executivo de Luanda poderá estar ligada à acusação, na semana passada, do vice-Presidente angolano, Manuel Vicente, pelo Ministério Público português, no âmbito da "Operação Fizz", relacionada com corrupção e branqueamento de capitais, o ministro sublinhou a separação entre poder executivo e judicial.

"Do ponto de vista das autoridades portuguesas, os planos são completamente diferentes", disse.

"Não há nenhuma relação entre os factos, porque para nós a política externa não se confunde com a normal administração da justiça e a administração da justiça não se confunde com a política externa. O Governo só tem competências em matéria de política externa e não tem competências em matéria do exercício do poder judicial", sublinhou.

A confirmação da visita da ministra da Justiça foi feita a 10 de fevereiro, em Luanda, pelo próprio ministro dos Negócios Estrangeiros, numa visita oficial a Angola.

Até ao momento, nenhum elemento da cúpula do Governo angolano em Luanda ou do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, no poder) comentou esta acusação.

Francisca Van Dunem, escolhida em novembro de 2015 por António Costa para ministra da Justiça, foi procuradora-geral distrital de Lisboa durante oito anos e fez toda a carreira profissional como magistrada no Ministério Público.

Nasceu em Luanda a 5 de novembro de 1955, no seio de famílias conhecidas de Angola - Vieira Dias, pelo lado materno e Van Dunem pelo paterno.

Francisca Van Dunem chegou a Portugal com 18 anos, para estudar direito, mas a revolução do 25 de Abril de 1974 apanhou-a no segundo ano do curso, tendo regressado temporariamente a Angola.

A ministra portuguesa é irmã de José Van Dunem, do setor ortodoxo e de obediência soviética do MPLA, e cunhada da militante comunista Sita Valles, ambos mortos na sequência do golpe de maio de 1977 em Angola

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