Todos os dias durante a tarde, são várias as famílias que aguardam pela entrega de alimentos à porta da base logística da instituição, instalada numa casa antiga no centro da cidade e cedida à Refood por uma família de Faro.

As entregas são feitas em dois turnos e é no segundo que a reportagem da Lusa encontra mais de uma dezena de famílias, muitas acompanhadas dos filhos, como Marta (nome fictício), que se viu obrigada a pedir apoio após o ex-companheiro perder o emprego e “deixar de pagar a pensão” de alimentos.

Percebeu que “teria de perder a vergonha” e pedir ajuda, tendo decidido recorrer a este movimento voluntário que recolhe e distribui refeições excedentárias de restaurantes, mas também confecionadas por voluntários, e cabazes com alimentos.

“Há vergonha, porque trabalho e ao trabalhar não pensamos que vamos precisar de ajuda e que nos conseguimos sustentar e aos nossos filhos. Não deveria haver, porque não se está a roubar, mas há”, confessa.

Depois de analisada a sua situação, foi-lhe explicado que se encontrava no limite de carência económica e, por isso, teria direito a apoio três vezes por semana. No entanto, optou “por duas” por considerar que “é suficiente” e, assim, “sempre fica para outros”.

Marta mantém o seu trabalho e o mesmo rendimento, mas, sem a contribuição financeira do ex-companheiro, teve de passar a procurar os “produtos que estavam no limite da validade” para alimentar os dois filhos adolescentes.

“A minha intenção é usar a Refood para equilibrar as contas e depois dar lugar a outra pessoa que necessite. Se não fosse a Refood, se calhar não conseguia já colmatar algumas despesas”, desabafa.

Ana (nome fictício) é quem se segue na fila. Grávida de cinco meses e com “mais três crianças em casa”, também viu na Refood a única saída para uma situação que, diz: “já era uma confusão armada” na sua cabeça e em casa.

“O meu marido não estava a trabalhar e eu estava desempregada, a receber o RSI [Rendimento Social de Inserção]. Agora não recebo nada, estou à espera do abono pré-natal”, afirma à Lusa.

Com um empréstimo bancário e as “contas em atraso” recorreu à instituição por indicação de amigos e poucos dias depois de entregar “os papéis” recebeu uma “resposta rápida”, numa altura em que “já faltava comida” em casa.

“Foi um alívio. Tenho três crianças em casa que precisam de comer e sem dinheiro e apoio foi muito complicado”, confidencia com a voz embargada.

À segunda, quarta e sexta, marca presença à porta da Refood de onde leva “leite, sopa, legumes, fruta e o que de alimento houver”. Entretanto, o marido voltou a trabalhar “há um mês”, o que a deixa mais otimista.

Segundo disse à Lusa a coordenadora da Refood em Faro, Paula Matias, neste momento estão a ser apoiadas “300 famílias”, às quais se somam as “famílias em isolamento sem apoio alimentar”, mas a instituição não está a conseguir responder a todos os pedidos.

“Deixámos de dar resposta há uma semana e meia, temos onde ir buscar mais comida mas não temos onde a armazenar. Temos um parceiro de hotéis que nos deu imensos congelados e não temos espaço onde colocar uma arca”, lamenta.

A casa tornou-se pequena demais para as necessidade e para a quantidade de comida recolhida em mais de uma dezena de supermercados e vários restaurantes locais, com uma carrinha que “começa a trabalhar às 10 da manhã e encerra à meia-noite, com uma hora e meio de intervalo”.

“O que precisamos efetivamente é de um espaço, porque temos condições para ajudar mais famílias. Temos comida e mão-de-obra”, refere, acrescentando que está à procura de um espaço complementar.

Neste momento, há cerca de 200 voluntários distribuídos pelos sete dias da semana entre a recolha, o embalamento e a entrega, mas Paula lamenta ter de “recusar alguma ajuda que venha da comunidade” por falta de capacidade armazenamento.

Os pedidos de apoio estabilizaram em agosto e setembro, mas desde o início de outubro que não param de chegar novos pedidos: chegam a receber diariamente “cinco a seis” solicitações, conta Paula Matias.

“Infelizmente a previsão é muito pessimista, cada vez há mais pessoas a passarem necessidades, famílias que estavam estruturadas, com os seus empregos e que, de um momento para o outro, ficaram completamente desamparadas, porque, para pagarem as despesas não têm para a alimentação”, nota.

Entretanto, o motorista da carrinha da Refood Faro já regressou de mais uma ronda pelos supermercados, descarregou as contribuições e está prestes a seguir para o circuito de recolha dos restaurantes locais.

Na zona histórica da cidade, a redução dos clientes “nas últimas duas semanas” refletiu-se também na quantidade de pratos do dia confecionados e, logo, na disponibilidade de apoio, destaca o ‘chef’ Bruno Amaro.

Redução verificada também por outro dos parceiros da Refood em Faro, um snack bar onde a pandemia de covid-19 os obrigou a passar a “controlar a comida” e a “gerir o desperdício”, afirma o seu proprietário, Patrick Martins.

Também o Banco Alimentar do Algarve, que tem 120 entidades parceiras na região, tem registado um aumento de pedidos “nas últimas semanas”, disse à Lusa o seu coordenador, mostrando-se preocupado com os próximos meses.

Atualmente a apoiar 25.000 pessoas, Nuno Alves, prevê que o “fechar de portas” de muitas unidades hoteleiras “venha a aumentar” o número de pedidos de apoio.

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