“Para nós é estarrecedor o ministro ser condecorado numa faculdade de Medicina importante como esta, dentro do hospital de Santa Maria”, disse à Lusa a dirigente do Coletivo Andorinho Marisie Damin, uma das cerca de 40 pessoas que esta manhã se manifestaram junto à porta de entrada do hospital lisboeta.

“O ministro é um dos responsáveis pelas mais de 600 mil mortes, opôs-se e ainda se opõe hoje ao uso de máscara, que é o princípio básico da proteção [contra a covid-19]”, acrescentou a dirigente brasileira, salientando que “o ‘ministro da morte’ é indiciado por crime de negligência, no mínimo”.

A participação de Marcelo Queiroga numa conferência, a convite do presidente da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, tem sido muito criticada por alguns brasileiros residentes em Portugal, que consideram a presença do governante uma afronta às vítimas mortais da covid-19.

“As nossas preocupações são partilhadas pela maioria dos brasileiros, disso não tenho dúvida; as pessoas estão literalmente a morrer, além de morrer da doença, agora menos, é certo, morrem de fome e isso é resultado das políticas deste governo e da negligência”, disse a responsável.

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à gestão da covid-19, a decorrer no Senado brasileiro, vota esta tarde o relatório final que pede o indiciamento do Presidente, Jair Bolsonaro, por nove crimes e o aprofundamento das investigações contra outros suspeitos.

Com 1.180 páginas, o documento apresentado na semana passada pelo senador Renan Calheiros recomenda o indiciamento de outras 65 pessoas e de duas empresas suspeitas de cometerem crimes durante a pandemia de covid-19, que já causou mais de 605 mil mortos e 21,7 milhões de infetados no Brasil.

Os pedidos de indiciamento serão encaminhados para o Ministério Público Federal, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Supremo Tribunal Federal (STF), caso o relatório seja aprovado pela maioria dos membros da CPI.

O relatório da CPI também poderá ser enviado a entidades multilaterais, como o Tribunal Penal Internacional (TPI) em Haia.

A maioria das acusações estão relacionadas com ações negacionistas, suspeitas de corrupção e de omissão em relação ao novo coronavírus e às vacinas, que teria aumentado o número de mortos no Brasil.

Nas declarações à Lusa à porta do hospital de Santa Maria, Marisie Damin deixou também críticas a Portugal e à Faculdade de Medicina por abrir as portas ao ‘ministro da morte’, como é apelidado pelos seus críticos.

“É preocupante o tipo de pessoa que Portugal está a querer mostrar e que acolhe; enquanto brasileiros, é uma afronta, é um desrespeito à população brasileira e aos 600 mortos, porque ele é o representante deste governo”, disse a responsável, concluindo: “Mobilizámo-nos para dizer que não concordamos com esta honra, porque proferir uma aula magna é uma honra, pedimos informações ao diretor da faculdade, mas sem resposta, e sabemos que foi Queiroga a escolher o tema da palestra, mas se um ministro nazi, por exemplo, viesse da Alemanha a Faculdade de Medicina ia abrir as portas e dizer que não tem responsabilidade sobre o que ele vai dizer?”, questionou.

Em comunicado publicado na página oficial da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), na qual se citam esclarecimentos do diretor da instituição, o professor Fausto Pinto, a faculdade justifica o convite ao ministro da Saúde brasileiro, Marcelo Queiroga, como sendo de âmbito académico a “um médico cardiologista, ministro da Saúde dum país amigo”.

“Vem visitar a nossa Faculdade, pelo que foi convidado, como académico, a proferir uma conferência, tendo escolhido o tema que entendeu. A Universidade será sempre um espaço aberto, sem tabus ou preconceitos”, lê-se no comunicado, publicado no ‘site’ da FMUL na sequência de vários contactos da comunicação social a questionar a confirmação da presença do ministro brasileiro.

Marcelo Queiroga é um dos visados pela investigação da comissão parlamentar de inquérito que ao longo dos últimos meses avaliou falhas e omissões na ação do Governo brasileiro na gestão da pandemia de covid-19, havendo a recomendação para que seja indiciado por dois crimes — prevaricação e epidemia com resultado de morte, sendo que neste último a moldura penal varia entre os quatro e os 15 anos de prisão, consoante se prove ou não a intenção de provocar a morte.

A visita do ministro brasileiro a Portugal – mas também ao Reino Unido, onde se desloca para visitas às universidades de Cambridge e Oxford e outras instituições, prevendo-se também a assinatura de protocolos — foi notícia na imprensa brasileira, com o jornal O Globo a questionar a Universidade de Lisboa sobre a manutenção do convite depois de terem sido conhecidas as conclusões da investigação da comissão parlamentar de inquérito (CPI).

O Brasil tem mais de 600 mil mortes associadas à covid-19 e teve cerca de 22 milhões de casos de infeção pelo novo coronavírus desde o início da pandemia.

Ministro brasileiro diz que vacinar 10 milhões não é igual a 180 milhões

O ministro da Saúde brasileiro, possível indiciado num relatório parlamentar sobre a covid-19, afirmou hoje, em Lisboa, que Portugal “vai muito bem” na vacinação, mas que vacinar 10 milhões de habitantes não é igual a vacinar 180 milhões.

Marcelo Queiroga, crítico do uso obrigatório das máscaras de proteção individual e um possível indiciado no relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à gestão da covid-19, que pede o indiciamento de Bolsonaro por nove crimes, falava durante uma conferência organizada pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

À sua espera, um grupo de manifestantes brasileiros que criticava a presença do polémico governante no evento, mas que não o conseguiram visualizar, pois a conferência foi apenas transmitida online e sem a presença da comunicação social.

No decorrer da sua intervenção, Marcelo Queiroga, que apenas retirou a máscara para usar da palavra, estabeleceu algumas comparações entre os sistemas de saúde públicos brasileiro e português.

Ambos, refletiu, deparam-se com grandes desafios ao nível das doenças cardiovasculares, do cancro e também enfrentam alterações geracionais, com o aumento da esperança de vida das populações e as consequentes comorbilidades.

Os dois países apresentam igualmente bons indicadores de saúde ao nível, por exemplo, da diminuição da taxa de mortalidade infantil.

Sobre a gestão da covid-19, Marcelo Queiroga enumerou algumas dificuldades iniciais na gestão da “maior emergência sanitária que a humanidade já viu” num país com 200 milhões de habitantes e que dispunha apenas de 23 mil camas de cuidados intensivos.

“Nunca pensei assistir a uma coisa destas”, assumiu, exemplificando com a situação em Manaus (Amazónia), onde não existia uma única cama de cuidados intensivos e que se tornou conhecida pelas longas filas de populares para a compra de botijas de oxigénio.

“O problema do Brasil não é diferente de países com a nossa dimensão, um país com 200 milhões de habitantes”, frisou.

O governante optou por enaltecer os ganhos conseguidos ao nível da vacinação e que, segundo disse, resultaram na diminuição de 90% dos casos e de 90% dos mortos devido à covid-19.

A pandemia infetou, até hoje, 21.729.763 pessoas no Brasil, dos quais 20.907.224 recuperaram da doença, e causou 605.644 óbitos.

Os dados mais recentes, recordados por Marcelo Queiroga, indicam que foram distribuídas, no Brasil, 320.004.875 doses da vacina, da quais 269.129.590 foram já aplicadas.

Com mais de 12 anos, 86,8% da população brasileira (153.640.236 pessoas) recebeu a primeira dose e 65,2% dos brasileiros (115.489.354) tem a vacinação completa.

Sobre a vacinação, aquele que é apelidado pelos críticos como o “ministro da morte”, disse que Portugal “vai muito bem”, mas sublinhou que “o esforço não é o mesmo”.

“Portugal tem cerca de 10 milhões de habitantes, vai muito bem na sua campanha de imunização, mas o esforço para vacinar 10 milhões de habitantes não é o mesmo do que para vacinar 180 milhões de habitantes”, referiu.

A presença do ministro da Saúde brasileiro para esta conferência em Lisboa foi hoje criticada por dezenas de brasileiros que protestaram em frente ao hospital de Santa Maria.

“Para nós é estarrecedor o ministro ser condecorado numa faculdade de Medicina importante como esta, dentro do hospital de Santa Maria”, disse à Lusa a dirigente do Coletivo Andorinho Marisie Damin, uma das cerca de 40 pessoas que esta manhã se manifestaram junto à porta de entrada do hospital lisboeta.

“O ministro é um dos responsáveis pelas mais de 600 mil mortes, opôs-se e ainda se opõe hoje ao uso de máscara, que é o princípio básico da proteção [contra a covid-19]”, acrescentou a dirigente brasileira, salientando que "o 'ministro da morte' é indiciado por crime de negligência, no mínimo".

A participação de Marcelo Queiroga numa conferência, a convite do presidente da Faculdade de Medicina de Lisboa, tem sido muito criticada por alguns brasileiros residentes em Portugal, que consideram a presença do governante uma afronta às vítimas mortais da covid-19.

A faculdade justificou o convite como sendo de âmbito académico a “um médico cardiologista, ministro da Saúde dum país amigo”.

(Artigo atualizado às 14:01)

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