"É fome e pobreza que precipitaram oportunismo nas pessoas para o roubo de combustível, que acabou em tragédia", disse à Lusa Adelino Biquilone, líder do povoado de Nhacathale, o local da explosão, na quinta-feira, de um camião-cisterna, quando dezenas de pessoas se juntaram junto do veículo para um saque coletivo.

A população, frisou Biquilone, viu no roubo de combustível uma oportunidade de ganhar dinheiro para aliviar a pobreza e fome, agravadas por uma seca severa e falta de chuvas naquela comunidade de carvoeiros, no interior do distrito de Moatize, 65 quilómetros a norte da cidade de Tete, capital provincial.

"Pobreza sempre houve em Caphirizhange, mas este ano a situação está pior. A população encheu [bidões] no cisterna porque via dinheiro na revenda daquele combustível", precisou o líder local.

Caphirizhange resume-se em centenas de minúsculas palhotas em blocos de argila bruto e cobertas de capim - raras são as que têm cobertura de chapas de zinco -, um lugar pobre e com falta de quase tudo junto à Nacional 7, a estrada que liga Tete ao Malaui.

Os jovens, na sua maioria, deambulam na terra branca de areia e nas pedras de Caphirizhange, caçando oportunidades de negócio na N7, incluindo a compra e venda de combustível em camiões, e outros dedicam-se à venda de carvão vegetal.

"Eu queria dinheiro, e aceitei o convite de ir tirar combustível. Se tivesse conseguido, ia vender a 50 meticais [0,6 euros] o litro contra os 60 meticais praticados por outros revendedores", disse à Lusa Mauro Nfuneni, um jovem sobrevivente da explosão, com os pés enrolados em ligaduras.

Vários outros sobreviventes invocam a falta de recursos como a causa da adesão ao roubo de combustível no camião-cisterna.

"Qualquer coisa que me dizem para fazer eu faço, mesmo sem avaliar os riscos porque preciso de dinheiro. Eu sabia que gasolina arde, mas precisava de dinheiro, e acabámos queimando com o combustível", contou Jairosse Frederico, que perdeu a camada exterior de pele em quase todo o corpo.

"O meu marido saiu daqui a correr também com bidões para catar combustível, não tínhamos nada para comer, e era para vender. Só que nem combustível nem o meu marido vieram a casa", lamenta Ana Fopenze, agora viúva.

O Governo de Tete montou uma tenda próximo do local da explosão e iniciou a assistência alimentar às famílias das vítimas.

Numerosas famílias terão de recomeçar do zero, até a própria compra de recipientes para conservar água, pois tudo o que foi levado para o camião cisterna ficou carbonizado.

Relatos à Lusa no local indicam que o camião-cisterna com matrícula malauiana, pertencente a uma firma de distribuição de combustível, desviou-se da rota na quarta-feira à tarde, após um pré-negócio, para uma pequena mata a uns 400 metros da N7, onde parte da carga seria retirada para os bidões de um grupo de revendedores de rua.

Contudo, na sequência de um curto-circuito da motobomba que puxava o combustível, uma das secções do tanque incendiou-se.

Já na quinta-feira, devido à fuga do motorista do camião e ausência das autoridades, a população começou a retirar combustível, com recurso a baldes, da segunda secção do tanque que ainda estava intacta.

Foi esta secção que explodiu, matando inicialmente 43 pessoas, mas o número de mortos subiu entretanto para pelo menos 60, havendo ainda cerca de uma centena de feridos, um terço dos quais em estado grave.

Treze corpos irreconhecíveis foram sepultados numa vala comum no local na sexta-feira.

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