Carlos Simões, 25 anos, natural de Cantanhede, ilustrador e designer há um ano a trabalhar em Barcelona.

Anderson Silva Netto, 35 anos, natural do Rio de Janeiro, amigo e colega de trabalho de Carlos.

Ambos espectadores de mais uma noite de confrontos em Barcelona, talvez esta a mais extremada, diz-nos Carlos em mensagem de WhatsApp, a rede pela qual nos fez chegar fotos, vídeos – nomeadamente os que foram captados por Anderson, na casa onde vive no Passeig de Sant Joan/Avenida Diagonal, perto do Arco do Triunfo - e onde respondeu às questões que lhe fomos colocando enquanto relatava como têm sido estes dias.

“Desde que foi conhecida a sentença dos políticos que apoiam a independência da Catalunha que Barcelona anda cheia de revolta”, diz o ilustrador português. “Logo no dia [em que foi conhecida a sentença dos políticos independentistas] cortaram acessos durante horas.  Vivo ao lado do hospital de S.Pau e vi uma rua inteira (Carrer Padilla) a fazer marcha atrás para que uma ambulância passasse para o hospital.”

A noite de quarta-feira foi pior, parece-lhe, mesmo que durante o dia a vida corra normal. “Embora não sinta tanto esta pressão durante o dia, já ontem aconteceu na zona do Passeig de Gracia durante a noite, mas não com a mesma intensidade”.

Sentes-te seguro? questionamos.

“Tranquilo, vida igual. Talvez um pouco mais de pânico, mas ainda ontem fui à Praça da Catalunha de manhã e senti zero pressão. Parecia um dia normal. Comprei a minha revista numa papelaria dos Led Zeppelin, apanhei o metro para o trabalho, passeei e às 24 horas saí, e fui de autocarro até Alfons X sem sentir quaisquer manifestações.

Eu sinto-me seguro.

Barcelona não é Passeig de Gracia nem Praça de Catalunha, é muito mais.” [Passeig de Gracia e Praça de Catalunha são zonas centrais da cidade onde têm existido confrontos]
créditos: Google Maps

Todavia, nos próximos dias o ambiente pode ficar mais tenso, antecipa.

“Todas as santas quintas-feiras há uma coisa que me impressiona em Barcelona. As pessoas colocam na rua camas, mesas de cabeceira, cadeiras, secretárias, mobílias, molduras, sanitas, de tudo. Quebrado ou em boas condições (devido a mudanças, que as pessoas em Barcelona mudam de casa como quem muda de boxers) . Se não limparem as ruas na quinta, não vai faltar material para "queimar" /bloquear/ partir com a casa toda.”

E, para o dia seguinte, está marcada uma greve geral.

“Vai ser uma revolta brutal na greve geral de sexta.”

Isto não é só independentistas ‘radicais’. Nem é tudo anarquismo

Quem está nas ruas a manifestar-se? São só radicais? Fações diferentes de independentistas?

“Na rua, creio que há de tudo. Há tanto o grupo considerado uma "minoria indepe" que é nada mais que os independentistas mais radicais como há pessoas contra as sentenças referentes à liberdade de expressão. Misturam-se também tanto o lado anarquista como os independentistas (não é tudo o mesmo grupo)”.

Sobre as manifestações pacíficas, não os confrontos mais violentos, não tem dúvidas: “isto não é ‘uma minoria’”. Isto não é só independentistas ‘radicais’. Nem é tudo anarquismo. Isto é Catalunha em força e peso contra o governo”

Mas, sobre situações como as que se viveram ontem à noite na capital da Catalunha tem menos certezas. "Creio que sejam mais os radicais descontentes juntamente com, não se sabe mas talvez, pessoas que não queiram a independência e estejam lá metidas no meio para danificar a imagem de Barcelona".

“Esta tensão anda a evoluir bastante”, continua. “Há cidades grandes como Girona onde na rua há bandeiras a apoiar estes políticos. Em Barcelona, perto de Urquinaona há um edificio gigante cheio de laços amarelos, de apoio aos mesmos. E isto foi só o rebentar da bolha. O povo catalão está em choque com o ‘fascismo’ atual”.

Nas redes sociais, circulam textos e imagens de catalães a condenar a violência e a apelar ao entendimento. "São notícias de conhecidos meus que mostram um pouco a opinião catalã. Falam da violência, falam também da destruição dos mobiliários que serão colocados outra vez na rua hoje com uma mensagem de esperança".

créditos: DR

Neste vídeo, Carlos Simões mostra como estão as ruas hoje, quinta-feira, o dia de colocar fora de casa o que já não se quer usar.

A viver há um ano na cidade, como é que olhas para tudo isto?

“É triste que isto esteja a acontecer. Mas é algo de que se fala bastante desde que cheguei a Barcelona. Acho que a liberdade de expressão não deveria ser motivo de prisão. É a mesma coisa que um membro do governo ser preso por ser de um clube de futebol diferente de todo o governo, só que neste caso, fala-se da independência.”

O que poderá acontecer nos próximos dias?

Apesar da tensão que vê em crescendo, Carlos prefere acreditar num desfecho em modo  braço de ferro com a Uber. Para quem não se recorda, Barcelona foi uma das cidades de onde a Uber foi forçada a sair, bem como outras empresas de transporte como a Cabify. A origem dos confrontos é claramente diferente, mas, ainda assim, o ilustrador português pensa que tudo poderá acabar bem.

E acabar bem é ...?

“A manifestação dos taxistas só acabou quando a Uber saiu de Barcelona. Estava a chegar da Suíça, o autocarro não passava da Praça de Espanha, e dentro da cidade, para ir para o emprego, ou ia de bicicleta, ou de metro, ou a pé. As ruas estiveram cortadas durante dias até que o Governo ouvisse os empregados dos transportes. Creio que agora passará o mesmo, mas com a retirada da sentença."

Não digo que haja um ‘sejam felizes com a vossa independência’, mas sim uma possível retirada da sentença

Assim tão simples? Depois da crispação e do confronto?

“Não digo que haja um ‘sejam felizes com a vossa independência’, mas sim uma possível retirada da sentença. Haverá sempre o Espanhol vs Catalão... que é um ódio forte....“.

Para já, o horizonte é de dias turbulentos. Há uma greve geral marcada para sexta-feira e há um clássico do futebol espanhol – Barcelona defronta Real Madrid em casa – que ainda não se sabe se acontecerá e onde acontecerá. “Haja ou não jogo durante o fim de semana, o será dentro do estádio. Os jogadores poderão estar partilhando do desgosto, mas a manifestação é feita fora do estádio”.

Naquela que é a sua vida na cidade catalã, o balanço é positivo, mais que isso, bom. Tem muitos amigos brasileiros, mas a maioria é mesmo catalão. De Badalona, Hospitalet, Mataró, Gavá, Casteldefells, Sitges, Tarragona. “Se não fosse o meu emprego e trabalhos freelancers para Portugal, falava "catanhol" o dia inteiro”, brinca.

Sinto que há uma tensão muito forte com isto da independência e de Espanha não querer perder "o ouro" deles

“Por muito que me digam que o povo catalão não é ‘amável’, não vejo assim. Porque vivi em Llorenc del Penedés, onde não se falava mesmo espanhol, e pediam-me desculpa por só falarem catalão...  Foram os meus primeiros tempos na Catalunha antes de me mudar para Barcelona, onde se fala catanhol...  Os meus melhores amigos, com quem falo todos os dias são catalães, e não tenho nada contra espanhóis pois convivi muito com eles enquanto Erasmus buddy em Portugal, e mesmo em festivais”.

Mas quando olha ao cerne da questão – a independência da Catalunha – Carlos tem opinião clara.

“Sinto que há uma tensão muito forte com isto da independência e de Espanha não querer perder "o ouro" deles”.

O ouro?

“A ‘casa de papel’”.

Barcelona.

Nota: A conversa foi realizada ao longo da noite através de WhatsApp e editada para ter um relato o mais fiel possível do que Carlos Simões e Anderson Netto partilharam. As fotos e os vídeos deste artigo são de Anderson Silva Netto.

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