De acordo com documentos da investigação, a que a agência Lusa teve acesso, Luís Filipe Vieira e Bruno Macedo, empresário de futebol e advogado, desenvolveram desde 2014 um esquema para tirarem benefícios pessoais de pagamentos realizados pela Benfica SAD, relativos à compra e venda de jogadores, lesando também o Estado português.

O esquema passava pela utilização de sociedades ‘off shore’, ou domiciliadas na Tunísia, nos Emirados Árabes Unidos e nos Estados Unidos, controladas por Bruno Macedo, nas quais eram colocadas verbas obtidas através da simulação de negócios que envolviam a Benfica SAD, da qual Luís Filipe Vieira foi presidente até hoje, quando anunciou a suspensão de funções.

Para o Ministério Público (MP), essas verbas, cujo valor global ascende a quase 2,5 milhões de euros (ME) foram posteriormente introduzidas em Portugal e colocadas, em fundos de sociedades da esfera empresarial de Luís Filipe Vieira, diminuindo as tributações em território nacional, com ganhos pessoais para os suspeitos.

Luis Filipe Vieira, Tiago Vieira e Bruno Macedo, detidos desde quarta-feira na operação ‘Cartão Vermelho’, juntamente com o empresário José António Santos, são também suspeitos de terem ocultado as verbas em causa à administração fiscal, obtendo assim benefícios pela não liquidação de impostos.

Segundo o documento, através de contratos simulados foram justificados pagamentos realizados pela Benfica SAD, de forma beneficiar os suspeitos e as suas empresas, tendo as verbas servido para amortizar financiamentos contraídos por sociedades de Vieira, permitindo a diminuição do passivo e a libertação de garantias prestadas.

No esquema, que acredita o MP, estava acordado entre Luís Filipe Vieira, cujo nome sempre foi protegido, e Bruno Macedo, as verbas circulavam através de uma complexa teia de empresas, em muitas das quais o empresário de futebol e advogado figurava como administrador.

Tiago Vieira era, segundo o MP, administrador de várias sociedades envolvidas, nas quais atuava segundo as indicações do pai.

O MP diz haver indícios que entre 2015 e 2019 a Master Internacional FZC, ligada a Bruno Macedo, registada nos Emirados Árabes Unidos, beneficiou de transferências de quase três milhões de euros feitas pela Benfica SAD.

Já antes, em 2013 e 2014, a Benfica SAD tinha procedido à alienação dos direitos económicos dos jogadores Denis Galiano e Claudio Correa a uma outra sociedade, pelo valor de 1,7 ME.

Posteriormente, os jogadores foram vendidos tendo a sociedade lucrado cerca de 1,2 ME, que vieram a beneficiar sociedades do grupo de Luís Filipe Vieira, através de um esquema que permitia ocultar a origem dos fundos.

O mesmo documento indica que Luís Filipe Vieira e Tiago Vieira eram os gerentes de facto da PROMOTAV, uma empresa do ramo imobiliário, da qual Bruno Macedo foi nomeado gerente em 2018, apenas para encobrir pai e filho, e que esteve envolvida no recebimento de verbas provenientes de outras empresas, mas com origem na Benfica SAD.

Na operação "cartão Vermelho", o MP defende medidas de coação ‘pesadas’ e sugere a aplicação de prisão preventiva de forma a evitar a possível adulteração de provas e eventuais fugas dos envolvidos.

Luís Filipe Vieira, de 72 anos, foi um dos quatro detidos na quarta-feira numa investigação que envolve negócios e financiamentos superiores a 100 milhões de euros, com prejuízos para o Estado e algumas sociedades.

Segundo o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) estão em causa factos suscetíveis de configurar "crimes de abuso de confiança, burla qualificada, falsificação, fraude fiscal e branqueamento de capitais".

Para esta investigação foram cumpridos 44 mandados de busca a sociedades, residências, escritórios de advogados e uma instituição bancária em Lisboa, Torres Vedras e Braga. Um dos locais onde decorreram buscas foi a SAD do Benfica que, em comunicado, adiantou que não foi constituída arguida.

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