As reações na Europa ao anúncio de terça-feira de que Centeno deixa a pasta das Finanças no Governo português e, consequentemente, não se candidatará a um segundo mandato de dois anos e meio, demonstraram que o ministro português reunia todas as condições para ser reconduzido, mesmo que o seu mandato como presidente do Eurogrupo, iniciado em janeiro de 2018, não tenha sido glorioso em toda a linha.

Ao iniciar funções, Centeno elegeu como grande prioridade a reforma da zona euro e a concretização do aprofundamento da União Económica e Monetária e da União Bancária, mas abandona o cargo com a missão por completar, depois de muitos meses de negociações que não se traduziram nos progressos ambicionados.

Mário Centeno viu designadamente ‘esfumar-se’ aquela que foi uma das suas grandes ‘bandeiras’, o orçamento próprio da área do euro, o chamado instrumento para a convergência e competitividade – que provocou de resto um ‘choque’ com o primeiro-ministro António Costa em plena cimeira do Euro em Bruxelas, em dezembro passado –, e que parece ter definitivamente perdido as poucas hipóteses que tinha de singrar, ao ser ‘ignorado’ nos planos de recuperação da economia europeia no pós-pandemia da covid-19.

Hoje à tarde, na penúltima reunião do Eurogrupo a que presidirá, Centeno lança a ‘corrida’ à sua sucessão, e em julho passará o ‘testemunho’ ao quarto – ou quarta – presidente da história do Eurogrupo, tornando-se o primeiro a não ter cumprido mais de um mandato, depois de Jean-Claude Juncker ter exercido o cargo entre 2005 e 2013 e de o holandês Jeroen Dijsselbloem ter cumprido dois mandatos, entre 2013 e 2018.

A eleição para a presidência do Eurogrupo, em dezembro de 2017, foi o corolário de uma ascensão meteórica de Centeno a nível de credibilidade e prestígio entre os seus homólogos na Europa, conquistada em dois anos.

Olhado à sua chegada a Bruxelas com desconfiança, em dezembro de 2015, por ser o titular da pasta das Finanças de um novo governo “geringonça”, apoiado por uma maioria parlamentar de esquerda – na ótica comunitária, de perigosa extrema-esquerda, apostada em inverter a política de austeridade aplicada durante o programa de ajuda externa –, Centeno teve de conquistar a confiança de Bruxelas e dos parceiros europeus.

Aliás, nos primeiros meses em funções, o primeiro Governo de António Costa teve como principal missão em Bruxelas lutar contra anunciadas sanções a Portugal, devido ao défice excessivo, de 4,4% do Produto Interno Bruto (PIB), registado no final de 2015, tendo a Comissão Europeia acabado por desistir das sanções em julho de 2016.

A partir daí, Centeno foi ganhando capital na Europa, que, olhando para o desempenho da economia portuguesa, deixou de recear novo ‘descarrilamento’ das contas públicas de Portugal ou uma nova Grécia. E 2017 seria em definitivo o ano da ‘consagração’ da economia portuguesa fora de portas.

Além do encerramento do Procedimento por Défice Excessivo sob o qual o país se encontrava desde 2009, e de as agências de notação financeira começarem a melhorar a sua avaliação da dívida soberana portuguesa, Portugal avançou com uma candidatura que meses antes era impensável, a do seu ministro das Finanças, entretanto ‘batizado’ – em maio de 2017 – pelo homólogo alemão Wolfgang Schäuble como “o Ronaldo do Ecofin”, a presidente do fórum informal de ministros das Finanças da zona euro.

Em 04 de dezembro, Centeno foi eleito presidente do Eurogrupo, à segunda volta, sucedendo a um dos ‘falcões’ de Bruxelas em termos de política económica, o holandês Dijsselbloem.

Em 2018, ao cabo de sensivelmente meio ano em funções, teve um dos momentos altos do seu mandato, ao anunciar o acordo “histórico” com as autoridades gregas – no final de uma maratona negocial – sobre a conclusão do terceiro programa de assistência à Grécia, consumada em agosto, e que, nas palavras do próprio, representou o “final dos últimos resquícios da crise do euro”, já que pôs fim ao ciclo de resgates a países na zona euro no quadro da crise económica e financeira, entre os quais Portugal (2011-2014).

Enquanto na Europa se concentrava nas complexas negociações sobre o aprofundamento da União Económica e Monetária, a nível nacional garantiu que Portugal fosse prosseguindo a trajetória de correção do défice, e logrou a ‘proeza’ de garantir que o país registasse, em 2019, o primeiro excedente orçamental da história da democracia (0,2% do PIB).

A parte final do mandato de Centeno – à imagem do sucedido com o seu trabalho no Governo – acaba, todavia, por ficar marcada pela profunda crise provocada pela pandemia da covid-19, que, como afirmou recentemente o vice-presidente da Comissão Valdis Dombrovskis, deixou uma “cratera” na economia europeia idêntica à causa por um asteroide. O impacto exato só será determinado mais à frente, mas o certo é que o novo coronavírus é responsável pela maior contração económica da história da zona euro, quando esta estava finalmente reerguida.

No entanto, o seu trabalho nos últimos meses a nível da resposta europeia à crise da covid-19 acabou por ser curiosamente dos que mais elogios lhe mereceram por parte dos seus pares e das instituições europeias – incluindo dos ministros das Finanças da Alemanha e da 'frugal' Holanda –, pelo que Mário Centeno deixará Bruxelas ‘de cabeça erguida’ e seguramente com a convicção de que, se não tivesse tomado a decisão de ‘pendurar as chuteiras’, não teria tido muitas dificuldades em continuar na posição de 'Ronaldo do Eurogrupo' por mais duas épocas e meia.

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