50 centímetros. Eram só 50 centímetros que separavam o fim do cabo de carregamento da “ficha” do carro. É preciso esperar que um dos motoristas da Câmara de Lisboa volte para puxar a sua viatura para trás. Resolveu-se rápido, mas nem sempre é assim, conta-nos o polícia municipal que faz guarda aos carregadores junto ao edifício camarário lisboeta.

Por vezes, há quem deixe a sua viatura horas no mesmo sítio, impedindo outros de carregar baterias. E quando se deparam com o reboque, reagem mal — o passeio é testemunha do mais recente acesso de fúria de um condutor que aderiu a esta tecnologia e que colou o papel do reboque no chão de tanto saltar sobre ele.

Quando um carro acaba de carregar o condutor é avisado por email ou sms, explica Alexandre Videira, presidente da Mobi.e. E, ditam as regras, o condutor tem cerca de 30 minutos para retirar a viatura. Espera-se um pouco, apela-se ao bom senso, diz-nos o guarda municipal, mas quando tal não acontece passa-se à ação: liga-se à Mobi.e para confirmar se o carregamento já terminou — “porque eu posso estar a embirrar com o carro e ele ainda está a carregar” —, e se o condutor continuar sem aparecer, é chamar o reboque. Pelo contrário, há quem tenha até o cuidado de deixar um contacto para que possa ser chamado quando é preciso ceder lugar.

“É uma questão de civismo”, comenta André Calazans, membro da equipa que está a divulgar a experiência COP by Electric Car e que aguarda a chegada do vereador do Ambiente José Sá Fernandes e de outros parceiros desta iniciativa — como o Fundo Ambiental, a Agência Portuguesa do Ambiente, a associação ambientalista Zero, entre outros — para que seja dado o arranque oficial, que é como quem diz, meter a primeira nesta viagem de Lisboa até Katowice a bordo de um carro elétrico — experiência que o SAPO24 está a acompanhar.

A COP by Electric Car é uma iniciativa da Get2C e tem como objetivo atravessar a Europa de carro elétrico, de Lisboa até Katowice, cidade polaca que recebe este ano a 24.º Conferência das Partes, isto é, a cimeira do clima das Nações Unidas, ou, simplesmente, COP24.

Ao longo do caminho vai falar-se sobre mobilidade elétrica — o potencial desta tecnologia versus as suas fragilidades e limitações — e sobre estilos de vida sustentáveis — a pegada ambiental de cada um de nós e que está relacionada com as pequenas e grandes escolhas que fazemos todos os dias, do guardanapo de papel aos alimentos que ingerimos e produtos que usamos.

"Temos de começar a demonstrar aos cidadãos que os carros elétricos são fiáveis em longas distâncias, e, por outro lado, esta iniciativa chama também à atenção para a grande ameaça que são as alterações climáticas, que já estamos a viver", diz o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, Nuno Lacasta, que vê com bons olhos esta incursão.

Otimista, mas mais previdente, Rita Antunes, da associação ambientalista Zero, admite que "é muito importante mostrar que os veículos elétricos já são tecnicamente viáveis, numa altura em que a descarbonização no setor dos transportes ainda está por acontecer. No entanto, esta viagem, para além de mostrar que já é possível fazer um percurso tão longo num veículo elétrico [cerca de 3200 quilómetros], certamente irá evidenciar os desafios que a mobilidade elétrica ainda enfrenta, sobretudo ao nível dos carregamentos".

Rita Antunes terá, sem saber, ditado nesse momento o rumo deste relato do primeiro dia de viagem.

Antes de mais, o roteiro previa uma passagem por Évora, entrando depois em Espanha em direção a Mérida. No entanto, cálculos de última hora obrigaram a mudar os planos: “Fosse qual fosse o percurso, eu tinha de chegar ao carregador de Talavera de la Reina. Como viemos pelo Fundão chegámos aqui com 100 quilómetros de reserva; se viéssemos por Évora teríamos uma margem de 20 quilómetros”, explica Luís Costa, engenheiro, e condutor nesta experiência.

Por outro lado, pela rota escolhida tínhamos dois carregadores rápidos, em Abrantes e no Fundão; pela outra rota só tínhamos o de Évora”, continua. Apesar de reconhecer que a “paragem em Abrantes foi escusada”, Luís preferiu arriscar e fazer um teste de estrada com o objetivo de garantir que não havia problemas no carregamento rápido. "Assim testámos o carregamento e se houvesse qualquer problema poderia chamar alguém, já que teríamos capacidade de chegar ao Fundão com 20% de autonomia”. Em termos práticos, Luís abdicou de 20 minutos de avanço — ao parar para carregar em Abrantes — pela garantia de que esta experiência não acabava antes mesmo de começar.

Três horas depois, a chegada ao Fundão. Ao contrário dos poucos minutos que se leva a encher um depósito e seguir viagem; o carro em que seguimos ficou a carregar cerca de uma hora e meia — tempo de esticar as pernas, comer, dar notícias à família, carregar baterias… mas dos telemóveis e computadores, e falar um pouco sobre outra das dimensões desta experiência, a do lifestyle ou estilo de vida. Luís, cobaia nesta experiência que visa medir a pegada ambiental da viagem, abriu a mala para nos mostrar um kit sustentável.

Apesar das recomendações saudáveis do condutor e protagonista desta aventura, o frio aperta e já justifica, sem grande remorso, o recurso ao chocolate. A bateria leva cerca de 40 minutos a chegar aos 80%, e sobram-nos pelo menos mais 40 de espera, informa-nos.

Na estação de serviço, onde está mais quente, e já que tempo sobra, trocam-se dois dedos de conversa sem compromisso. Dizem-nos que já se viu mais gente a carregar carros elétricos por ali, mas também que a análise pode estar condicionada aos turnos de trabalho. “Quem sabe se de manhã passam mais”. Também nos adiantam que muitos não esperam tanto tempo como nós, “carregam um bocado e seguem viagem”. Mas não temos essa opção. Madrid é o destino. “Acho que colocaram esses carros à venda cedo de mais, ainda não há condições… e essas baterias serão mesmo sustentáveis? E quando acabam? O que é que lhes acontece?”. Ficam as perguntas e a promessa de uma resposta ao longo desta viagem até Katowice. “Quando voltar ao Fundão venho abastecer aqui, para ver se a encontro novamente”. “Boa sorte, faça boa viagem”. E seguimos, o relógio marcava 18h35.

“Se isto não funcionar, se não estiverem ali os carregadores, temos de ficar aqui”

A paragem em Talavera de la Reina foi inevitável. O cansaço não escusa a prudência e força a uma paragem de 40 minutos num parque de estacionamento de uma zona comercial.

A aproximação faz-se com prudência, os carregadores não estão visíveis e, sem eles, seríamos forçados a pernoitar 100 quilómetros antes do destino final, procurando já com a noite avançada um hotel para ficar. “Se isto não funcionar, se não estiverem ali os carregadores, temos de ficar aqui”, diz Luís.

A tensão dura apenas alguns minutos, o tempo que leva a encontrar alguém que nos aponte na direção dos almejados pontos de carregamento. Eles existem, agora resta saber se estão ocupados.

Vazio… felizmente.

Estão 5ºC. Gorros, luvas e mais uma espera. “Este dia foi intenso, isto entre a teoria e a prática…”, desabafa Luís, que minutos depois andou de volta do carregador da Tesla para perceber como libertar o carro para seguir viagem. Ele, o SAPO24 e Luís Graciano, operador de câmara e editor de vídeo que também segue a bordo.

O relógio avança e o cansaço vai-se acumulando. Contas feitas, a viagem de 670 km vai durar 11 horas. Se não se contarem os carregamentos, estaríamos a olhar para cerca de sete horas de viagem.

Madrid, por fim.

“Podemos desembaciar o vidro [ligando o ar condicionado]?”

“Eu não me arriscava nesta altura...”

“Faltam 620 metros para o hotel…”

“Ah, então ok!”

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