Durante fim de semana passado a apresentadora foi encontrada sem vida no seu apartamento em Londres. Após o anúncio da sua morte, um advogado da família confirmou que Caroline Flack cometeu suicídio.

Conhecida por apresentar o reality show "Love Island", Caroline Flack, de 40 anos, aguardava julgamento em março. Detida em dezembro, Flack foi acusada de agredir o tenista Lewis Burton, o seu namorado, com uma lâmpada enquanto este dormia no seu apartamento em Londres, segundo anunciaram os procuradores em janeiro. A polícia deslocou-se ao apartamento e encontrou o tenista com sangue na cabeça, resultante de um golpe.

Flack negou as acusações e Lewis Burton voltou atrás, segundo a Associated Press, pedindo aos procuradores do Crown Prosecution Service (o equivalente ao Ministério Público português no sistema judicial britânico) para não avançarem com o caso. O tenista revelou ainda, numa mensagem na rede social Instagram que a apresentadora “não o tinha atingido com uma lâmpada".

No entanto, o caso seguiu e Flack não só foi impedida de contactar Burton, medida à qual o tenista se opôs, como também foi sujeita a inúmeros artigos negativos na imprensa tabloide britânica, assim como a abusos nas redes sociais.

"Caroline estava sob enorme pressão nos últimos meses por causa deste caso e de um possível processo adiado muitas vezes", disse Francis Ridley, da Money Talent Management, a agência contratada por Flack,

Segundo Ridley, os procuradores do caso "deveriam refletir sobre a maneira como organizaram um julgamento espetáculo que não só foi infundado, mas também sem qualquer interesse público", tendo também provocado "grande stress sobre Caroline".

Da parte do Crown Prosecution Service, um comunicado público veio exprimir "as mais profundas simpatias" à família e amigos de Caroline Flack, com o órgão de justiça a escusar a comentar "as especificidades do caso nesta altura".

Devido ao aparato mediático do caso, Flack acabou mesmo por abandonar o programa "Love Island", cuja emissão do episódio de domingo à noite foi adiado.

“Após uma consulta cuidada com os representantes de Caroline e da equipa de produção do 'Love Island', e tendo em conta a proximidade à trágica morte de Caroline, decidimos não passar o 'Love Island' de hoje à noite por respeito à sua família”, informou o canal ITV, responsável pelo programa, num comunicado.

Contudo, de acordo com o canal, o episódio vai passar hoje com um tributo especial à apresentadora.

Com uma carreira dedicada inteiramente à televisão, Flack apresentou alguns dos maiores programas do Reino Unido, desde “X Factor” a “'Im a Celebrity... Get Me Out of Here!”. A apresentadora ganhou ainda a temporada de 2014 de “Strictly Come Dancing”, a versão britânica do programa “Dança com as Estrelas”.

Flack estreou-se também nos palcos em 2018, entrando numa produção do musical “Chicago” no West End londrino. Tendo saído de “Love Island”, a apresentadora ia ser a cara do programa “The Surjury”, do Channel 4, mas o canal já anunciou que não o vai emitir.

A morte de Flack levou a várias reações por parte de figuras públicas e profissionais do mundo do entretenimento. A mais notável foi mesmo a de Lewos Burton, sendo que o tenista publicou no Instagram uma homenagem à falecida, dizendo estar com o "coração partido". "Estou tão perdido que não tenho palavras, estou a sofrer tanto, sinto tanto a tua falta", escreveu Lewis Burton.

"Caroline's Law: a reação contra a imprensa tabloide e as redes sociais"

“Love Island” já tem um historial negro no que toca aos seus participantes: Caroline Flack é a terceira personalidade ligada a este programa a cometer suicídio, depois de Mike Thalassitis e Sophie Graydon, dois concorrentes.

Programa cuja premissa é criação de pares amorosos de concorrentes atraentes num cenário tropical, o “Love Island” tem sido criticado pela forma como coloca os seus participantes sob escrutínio público, que é amplificado pela cobertura do programa por parte da imprensa tabloide.

Também por isso, a morte de Flack veio pôr de novo em destaque a relação problemática existente entre tabloides e figuras públicas britânicas, com várias celebridades e figuras do espetro político à esquerda e à direita a condenarem o caráter intrusivo das peças jornalísticas publicadas por estes meios de comunicação e a sugerirem que este tipo de cobertura pode ter contribuído para o suicídio de Flack.

A imprensa britânica cobriu amplamente o caso de Flack, colocando-a na primeira página após a sua detenção e voltando a fazer o mesmo após o seu suicídio. No entanto, de acordo com o jornal The Guardian, o tabloide The Sun apressou-se a remover vários artigos de cariz negativo sobre Flack logo após a sua morte, principalmente uma peça onde satirizava o alegado caso de agressão no Dia dos Namorados.

A vida pessoal da apresentadora já tinha sido alvo do escrutínio da imprensa tabloide no passado, principalmente quando saíram histórias quanto a possíveis envolvimentos com o Príncipe Harry, em 2009, e com o cantor Harry Styles, quando este tinha 17 anos.

Laura Whitmore, amiga de Flack e apresentadora que a substituiu em "Love Island" após a sua saída, reagiu à morte com um discurso altamente crítico da atmosfera criada à volta das celebridades britânicas.

"À imprensa, aos jornais que criam clickbait, que demonizam e mandam o sucesso abaixo, estamos fartos", disse no seu programa de rádio na BBC Radio 5.  "Eu já vi jornalistas e guerreiros do Twitter a falar desta tragédia e eles próprios torceram aquilo que é a verdade... As vossas palavras afetam as pessoas. Aos paparazzi e à imprensa à procura de vendas fáceis, aos trolls escondidos atrás de um teclado, chega", completou.

Já o escritor Matt Haig, cujo foco está em questões de saúde mental, recordou como o caso tem paralelos com o de personalidades como Amy Winehouse e a Princesa Diana, tendo ambas sido alvo de intenso escrutínio até às suas trágicas mortes, assim como o de Meghan Markle, tendo esta e o Príncipe Harry renunciado às suas funções na família real inglesa para, em parte, conter a imprensa negativa feita quanto ao casal.

O próprio primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, também já reagiu à morte de Flack, mas apontou o foco mais às plataformas de redes sociais do que à própria imprensa. Segundo o seu porta-voz, Johnson acredita que "a indústria tem de continuar os seus esforços para ir mais longe", sendo esperado que tenham "processos robustos em prática para remover conteúdos que violem as suas políticas de utilização".

Encontram-se neste momento em curso várias petições pedindo por leis mais apertadas para a imprensa britânica e para o tipo de publicações permitidas nas redes sociais.

Uma delas, com mais de 130 mil assinaturas, chama-se especificamente Caroline's Law. Outra conta já com mais de 500 mil subscrições e é encabeçada por Stephanie Davis, atriz britânica que faz acompanhar a iniciativa com um testemunho emocional em vídeo, no qual revela também ter sido alvo de abusos por parte da imprensa tabloide. Esta iniciativa foca-se em aspetos como a publicação de informação sem provas e proveniente de fontes anónimas, a publicação de dados de saúde do foro privado e a publicação de fotografias recolhidas sem permissão pelos paparazzi.

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