Dada a enorme atenção mediática que o caso gerou, e ao elevado número de testemunhas (40, procedentes de vários países como Canadá, Israel ou Hungria), o julgamento não foi realizado na sede do tribunal, tendo sido transferido para a sede da Câmara de Comércio e Indústria, afastada do centro da cidade.

Uma hora antes do início do julgamento, 50 pessoas esperavam à porta do edifício para poder entrar na sala. Vários carros de polícia, assim como dois agentes a cavalo, estavam presentes no local, segundo a AFP.

O início da audiência será dedicado à ata de acusação contra Reinhold Hanning, cujo julgamento durará pelo menos até 20 de maio. O ex-guarda do campo de concentração pode ter apenas duas horas de audiência por dia, devido ao seu estado de saúde. Hanning é acusado de cumplicidade na morte de pelo menos 170 mil pessoas, entre janeiro de 1943 e julho de 1944. A pena pode ser de três a 15 anos de prisão, mas será essencialmente simbólica, dada idade avançada do acusado.

Reinhold Hanning é o terceiro acusado numa onda de julgamentos tardios, iniciada com a condenação, em 2011, de John Demjanjuk, ex-guarda de Sobibor, condenado a cinco anos de prisão. O julgamento relançou a procura pelos últimos nazis, numa tentativa de recuperar o tempo perdido após décadas de letargia judicial. No ano passado, também foi realizado o julgamento de Oskar Groning, ex-membro das SS destacado em Auschwitz. Outros dois antigos membros das SS serão processados: no fim de fevereiro, em Neubrandenburg, e posteriormente em abril, em Hanau.

"A idade não tem nenhuma importância", afirmou à imprensa o procurador Andreas Brendel, responsável pela acusação contra Hanning. Na sua opinião, a justiça alemã "deve às vítimas e aos seus familiares" julgar os crimes do III Reich. Também se trata de reparar in extremis as "carências da justiça alemã", lembra Christoph Heubner, vice-presidente do Comité Internacional de Auschwitz.

Dos 6500 SS do campo de concentração que sobreviveram à guerra, foram condenados menos de 50, num ambiente caracterizado pelo desejo de virar a página, na Alemanha, e também pela forte presença de ex-nazis na magistratura.

"Este julgamento deveria ter sido realizado há 40 ou 50 anos. Mas nunca é tarde para reviver o que ocorreu", afirmou Justin Sonder, de 90 anos, na véspera do julgamento. Sonder, que foi deportado aos 17 anos, perdeu 22 membros da sua família devido à ação do regime nazi.

Um total de 40 sobreviventes do Holocausto, acompanhados dos seus descendentes, farão a viagem a partir de Israel, Estados Unidos, Canadá e Inglaterra, depois de se terem constituído como testemunhas. Mais de 70 acompanharam, no ano passado, o julgamento de Groning, que foi condenado a quatro anos de prisão.

Angela Orosz, uma reformada canadiana, de origem húngara, com 71 anos, foi um dos dois bebés que sobreviveu a Auschwitz e que vai testemunhar para manter viva a memória das vítimas do Holocausto, e porque acredita que todos os funcionários do campo "contribuíam para o ciclo de morte".

No entanto, não existe nenhuma prova de que Hanning tenha cometido um ato criminoso, sendo acusado de ter feito parte do "funcionamento interno" do campo de Auschwitz, no qual mais de um milhão de pessoas foram exterminadas, a grande maioria judeus.

Reinhold Hanning, um jovem funcionário que entrou nas Waffen SS, em julho de 1940, foi transferido, no início de 1942, para Auschwitz. Foi membro das Totenkopf, uma unidade das SS, trabalhou em Auschwitz-I e supervisionou a chegada de prisioneiros ao campo de Birkenau.

Ainda que tenha a oportunidade de falar, nada indica que Hanning o vai fazer. Ao contrário de Oskar Groning, que fez um testemunho escrito, distribuído aos meios de comunicação, para "lutar contra o negacionismo", antes de pedir perdão no julgamento, às vítimas, Hanning nunca referiu em público qualquer elemento ligado ao seu passado.

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