Diário de um pai em casa — Dia 16


Ontem à noite fui sair em reportagem com a Comunidade Vida e Paz. Uma ronda pelas ruas de Lisboa. Oriente, Santa Apolónia, Ribeira das Naus, Rossio, Avenida da Liberdade, Saldanha e Alvalade. Zero carros, ou quase, sem vestígios de Ubers, sem a confusão de uma 6ª à noite, ausência de poluição, sonora e gráfica, de multidões movimentando-se do ponto A ao ponto B. Só polícias, autocarros, um ou outro táxi e, a espaços, em cantos e recantos, sem-abrigo que esperavam, em paragens da Carris, ou em T0 com 2m e um pé direito de um metro, a ajuda desta instituição.

Estar à 1h00, na praça do Rossio, completamente vazia, a olhar para o Teatro Nacional D. Maria II, ver a frase “Humanidade”, perscrutar, nas arcadas deste antro cultural, sem-abrigos embrulhados em mantas, tem uma força quase tão bíblica quanto a imagem do Papa Francisco, na véspera, sozinho, na Praça São Pedro.

Terminei às 02h00. Seguiram-se 15 minutos até casa, de mota, viseira aberta para sentir o ar na cara e o barulho da aceleração da LML (conhecida como a vespa indiana).

Tinha dito, na véspera, que teria uma rave em minha casa. Só vi vestígios de uma festa que terminou 5 minutos antes de rodar as chaves à porta. Caixa de gelado, migalhas, papéis de chocolate e “álcool”, esse à espera para ser consumido. Vinguei-me. Em silêncio, comi um pacote de bolachas, enquanto olhava para a quantidade que louça à espera que eu a colocasse na máquina. Sim. Sou eu a mão que empurra pratos e talheres para o aparelho que faz o resto. Sabe Deus, quantas vezes tenho repetido o gesto.

Deitei-me no sofá, e no sofá acordei com o sol a servir de despertador.

Não podemos ir para a praia surfar (sonhei, ou delirei, que o fiz quando vi durante a tarde a fila de carros na Ponte sobre o Tejo) decidi ir correr. Não sou cristão-novo nas corridas. Não tirei o fato de treino, ainda com etiqueta, do armário e virei desportista em tempo de quarentena. Não. Faço-o desde sempre. Corro. E a atual lei de emergência permite que todos o façamos.

Arranquei de Campo de Ourique, Maria Pia, Alcântara, subi até ao Palácio das Necessidades, Infante Santo, Estrela e casa. Eu e os meus ténis. Com redobrado prazer de o fazer quase no meio das estradas, contra um trânsito que não existiu.

Regressei a casa. Sentei-me a trabalhar. Nas escadas, na parte de trás do prédio. À chapa do sol. Um a um, os meus quatros filhos arrastaram-se dos quartos à cozinha. Cereais, leite, chávenas, frases em que o ponto de exclamação cola com o de interrogação: “não há pão”?!. Apeteceu-me uma declaração: “comam menos”. Discutem uns com os outros. “Zé”, “Teresinha”, “Xica” e “Totti”. Não sei quem grita com quem. Falam alto. Fazem barulho.

Fechei o computador. Fiz uma ronda, como um qualquer segurança dá a volta a uma fábrica. Tropecei em carros e bolas, pisei lápis, cadernos, vestígios do último dia de aulas, toquei de raspão em pacotes de iogurtes e apanhei colheres perdidas.

Vi cestos de roupa, verdadeiras pirâmides egípcias feitas de tecidos multicolores, por arrumar nas respetivas gavetas. Ouvi uma frase: “Pai, esta roupa é para passar a ferro”. Esqueçam. O verbo passar aplica-se ao meu estado de alma.

O silêncio terminara. Desci à terra. À terra onde vivo. Feita disto: de barulho. Um barulho com o qual casei. E gosto, confesso.

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