Desde abril que Greg Abbott aluga autocarros para levar imigrantes que atravessam ilegalmente a fronteira no Texas para cidades como Washinton, Nova Iorque ou Chicago. A prática foi replicada pelo governador Ron DeSantis (Florida) e por Doug Ducey (Arizona), tendo mesmo sido custeadas viagens de avião a imigrantes para os deixar em estados democratas.

O primeiro objetivo de Abbott foi contestar, de forma pouco usual, a intenção de Biden de pôr fim, em maio deste ano, à lei conhecida "Title 42", introduzida em 2020 com o objetivo de travar a disseminação da covid-19. Em traços gerais, a lei facilita a deportação imediata de imigrantes que entrem ilegalmente no país. Apesar de não ter acontecido, os autocarros de imigrantes não pararam de seguir viagem. A iniciativa do governador republicano ganhou tração mediática e foi replicada por Ron DeSantis (Florida) e por Doug Ducey (Arizona).

Números do final de agosto davam conta de pelo menos nove mil imigrantes transportados do Texas para cidades "santuário", ou seja, cidades cujo compromisso é de não deportar imigrantes ilegais. Contas feitas, o estado gastou mais de 12 milhões de dólares nesta operação, que o governador defende da seguinte forma:

"A missão de autocarros está a providenciar um alívio muito necessário às sobrecarregadas comunidades de fronteira. A operação Lone Star continua a preencher as perigosas lacunas deixadas pela recusa da administração Biden em proteger a fronteira".

Desde maio, segundo o governador Doug Ducey, 43 autocarros saíram do Arizona com 1.574 imigrantes, sobretudo da Colômbia, Peru e Venezuela, para Washington, uma operação que custou aproximadamente 3,5 milhões de dólares.

Ron DeSantis foi notícia por ter enviado cerca de 50 imigrantes, de avião, a meio de setembro, para Martha’s Vineyard, uma zona de férias tipicamente frequentada por democratas com dinheiro, como os Kennedy, os Clinton e os Obama. Esta comunidade com cerca de 20 mil habitantes "vive" da época balnear, pelo que não será um local propício para que estas pessoas encontrem oportunidades de trabalho, o que tende a ser a sua prioridade. A mensagem política foi aparentemente a única preocupação de DeSantis, valendo-lhe duras críticas de o fazer à custa da vida destas pessoas.

À data, a presidência norte-americana classificou como “vergonhoso” e “cruel” o envio de imigrantes para a luxuosa ilha. “Existe um mecanismo e meios legais (…) para gerir os imigrantes. Quando os governadores republicanos interrompem este mecanismo e usam os imigrantes como peões políticos, é vergonhoso”, realçou a porta-voz da Casa Branca, Karine Jean-Pierre. A assessora considerou, durante a conferência de imprensa diária, a transferência de imigrantes “uma manobra política premeditada" e "cruel".

Os governadores republicanos têm sido criticados também agirem unilateralmente e transportarem estes imigrantes sem qualquer aviso prévio às cidades de destino, o que compromete a sua capacidade de receber e apoiar estas pessoas, deixadas à sua sorte numa qualquer estação, aeroporto e até passeio (na imagem, um conjunto de migrantes espera em frente à casa da vice-presidente dos Estados Unidos). Além disso, a falta de coordenação com autoridades federais, compromete o acompanhamento destes destas pessoas durante o processo de pedido de asilo.

Os governadores, todavia, salientam que ninguém é levado para fora do estado contra a sua vontade, não sendo claro que alternativas lhes são apresentadas ou que cenário lhes é traçado sobre o que terão à sua espera no local de destino.

Para os imigrantes, muitos dos quais sem nada a perder, estas viagens são encaradas como uma oportunidade quando, no final da travessia, já não lhes sobra dinheiro para chegar aos locais de destino que tinham em mente (por vezes locais onde já têm família ou comunidades instaladas). Mas para outros, a falta de acompanhamento e apoio quando chegam a estes destinos compromete o próximo passo. É aí que entram as organizações sem fins lucrativos e respetivos voluntários que, apanhados de surpresa, alertam para a falta de meios e de coordenação para dar resposta às necessidades.

A iniciativa inusitada destes governadores espoletou o debate em torno da forma como o sistema de integração de migrantes funciona nos Estados Unidos e quais os direitos destas pessoas.

Segundo o The New York Times, depois de processados pelas autoridades federais junto à fronteiras, os imigrantes são libertados e é-lhes possível moverem-se dentro do país enquanto o seu pedido de asilo é avaliado, o que pode levar mais de um ano. Portanto, não é ilegal que um estado lhes ofereça viagens para destinos vários dentro dos Estados Unidos.

Há, porém, evidências de que estes imigrantes não estão a ser devidamente informados sobre os locais para onde vão e o que os espera, pelo que estão no direito de avançar com processos por fraude, explica Heidi Li Feldman, professora na universidade Georgetown.

Iván Espinoza-Madrigal, que representa alguns dos migrantes que foram parar a Martha's Vineyard (quando lhes tinham assegurado que iriam aterrar em Boston), alega ainda que os clientes estão também a ser privados do direito constitucional de serem sujeitos ao devido processo legal, já que esta viagem os impede de marcar presença nas sessões do tribunal de San Antonio, no Texas, onde será avaliado o seu pedido de asilo. 

Apesar de muitos terem sugerido publicamente que as ações dos governadores republicanos podem constituir crimes de rapto ou tráfico humano, múltiplos advogados ouvidos pelo New York Times duvidam que haja bases legais para um caso avançar nesses termos contra Abbott, DeSantis ou Ducey.

Organizações sem fins lucrativos ajudam há anos imigrantes a pagar por voos ou viagens de autocarro para se juntarem aos seus entes queridos nos Estados Unidos, mas o planos para "depositar" imigrantes ilegais em estados democratas remonta à administração Trump, tendo sido sugerida pelo seu conselheiro Stephen Miller. Mas nunca avançou... até agora.

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