"Não houve decisão nenhuma e a reunião foi adiada. Não houve consenso. Não sabemos quanto tempo mais este impasse vai durar. Tínhamos esperança de que o processo ficasse encerrado hoje. Apareceram duas propostas [de investidores] e uma delas engloba os funcionários, o que é positivo, mas, no final, nada ficou decidido", descreveu Nuno Coelho, dirigente do Sindicato de Hotelaria do Norte.

A sessão decorreu no Tribunal Judicial do Porto, Juízo de Comércio de Vila Nova de Gaia, e durou cerca de duas horas e meia, altura em que se reuniram credores e representantes de funcionários, bem como membro do sindicato e representantes de possíveis investidores, não tendo sido autorizada a entrada de todos quantos se encontravam no local, nomeadamente dos jornalistas, devido às contingências associadas à pandemia da covid-19.

À porta do tribunal, no centro de Vila Nova de Gaia, alguns dos 31 trabalhadores da Cervejaria Galiza aguardaram uma solução que não chegou.

Em declarações aos jornalistas, António Matos, que trabalhou 39 anos na Cervejaria Galiza, admitia que "até já se podia reformar", após "mais de 40 anos de descontos", mas "o gosto pelo trabalho, sobretudo naquele restaurante", não o deixam desistir.

"Já servi pessoas que agora são avós, e levaram os filhos e netos, e netos que lá foram bebés e agora aparecem com as namoradas. Tenho esperança de regressar", disse o empregado de mesa.

Também José Costa, que trabalhou na Galiza 37 anos, tem a mesma esperança, sintetizando este sentimento com: "temos de tentar tudo para continuar a ir para a frente".

"Não sabemos quem vai pegar naquilo, mas queremos tentar. Sabemos que os clientes estão tristes com o fecho. Vai ser complicado recuperar, mas tenho esperança. A [pandemia da] covid-19 veio acabar connosco. Antes, ainda conseguíamos equilibrar as coisas e garantir o nosso ordenado", contou.

Ambos, entre outros funcionários, disseram saber que existem atualmente duas propostas de investidores, uma delas ligada à anterior gerência e outra a um empresário de restauração que tem no Porto vários restaurantes, sendo esta a que tem maior capital e a que promete manter os postos de trabalho atuais.

Interpelados pelos jornalistas, os potenciais investidores e seus representantes presentes no local, não quiseram prestar declarações.

O Tribunal de Comércio de Vila Nova de Gaia declarou a 04 de junho a insolvência da Sociedade Atividades Hoteleiras Galiza Portuense, proprietária da Cervejaria Galiza, na sequência do requerimento apresentado pela Sociedade Real Sabor, de Vila Nova de Gaia, que reclamava 11.951 euros.

Segundo revelou, a 07 de julho, o Sindicato de Hotelaria do Norte, o administrador de insolvência reuniu-se com os trabalhadores e de seguida "decidiu encerrar o estabelecimento por não haver condições para o manter aberto".

Quanto às dívidas da Cervejaria Galiza - espaço que foi gerido pelos próprios trabalhadores desde novembro do ano passado, depois de episódios de disputa com os proprietários que chegaram a motivar vigílias no restaurante para impedir a saída de bens - o Estado é o maior credor da sociedade detentora da cervejaria, com dívidas acumuladas ao fisco e à segurança social, de cerca de dois milhões de euros.

No início de novembro de 2019, os trabalhadores da histórica cervejaria do Porto, fundada a 29 de julho de 1972, foram surpreendidos com uma tentativa de encerramento coercivo das instalações pela gestora da empresa.

Antes da tentativa de encerramento, a empresa dona da Cervejaria Galiza, numa tentativa de resolver as dificuldades financeiras, passou pelo recurso a um PER (Processo Especial de Revitalização), aceite pelo Tribunal do Comércio de Vila Nova de Gaia.

Com dívidas ao Fisco e à Segurança Social a rondar os dois milhões de euros, a empresa detentora o espaço tinha ainda em atraso o pagamento do subsídio de natal de 2018 a segunda tranche do salário desse mês.

A tentativa de encontrar uma solução passou então para o Ministério do Trabalho, tendo a empresa e os representantes dos trabalhadores e do Sindicato de Hotelaria do Norte reunido várias vezes a partir de dezembro na Direção-geral do Emprego e das Relações do Trabalho (DGERT), no Porto.

No decurso dessas reuniões, as representantes da empresa prometeram avançar com um processo de insolvência controlada e recuperação da empresa, o que salvaguardava os postos de trabalho, mas que nunca se concretizou.

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