Há 500 anos, a 31 de outubro de 1517, o monge Martinho Lutero afixou na porta da igreja do castelo de Vitemberga, na Alemanha, 95 teses que deram início à reforma protestante, um cisma da Igreja Católica que mudou a Europa. E, conta-nos o livro “A grande rutura - Olhares cruzados sobre Lutero e a Reforma protestante”, coordenado pelo teólogo Porfírio Pinto e editado recentemente pela editora Paulinas, a ideia era convocar uma disputa académica que nunca aconteceu.

Segundo o investigador Miguel Barcelos, que apresenta no livro os aspetos gerais de Martinho Lutero (o homem e a obra), a afixação das teses para disputas académicas era um procedimento normal em Vitemberga, mas o facto de as 95 teses de Lutero virem a desencadear o movimento da reforma é mais ou menos acidental.

“Lutero, reconhecendo a necessidade urgente de reforma na igreja não pretendeu iniciá-la com a afixação das teses. Por terem sido escritas em latim teriam um grupo de leitores muito reduzido: os académicos”, explica o investigador. Foi um convite aos fiéis para um alargado debate teológico sobre o significado da pregação das indulgências, que pretendiam garantir um acesso rápido ao paraíso, e que visavam a angariação de fundos para custear os trabalhos de conclusão da basílica de São Pedro. Em todo o caso, Lutero expediu as teses para o arcebispo de Mogúncia, acompanhadas de uma carta explicativa.

Afixadas ou não, certo é que o conteúdo das teses provocou controvérsia e revelou-se incendiário, porque Lutero questiona a extensão e os limites da autoridade papal, defendendo que o papa não tem poder para redimir as penas que não foram impostas por ele ou pela lei canónica (teses 5 e 6).

A 15 de junho de 1520, o papa Leão X emitiu a bula “exsurge domine” que concedia 60 dias para que Lutero se retratasse ou fosse declarado herege. A bula chegou a Lutero a 10 de outubro e findos os 60 dias, a 10 de dezembro, este queimou-a publicamente. A 03 de janeiro, Martinho Lutero, foi oficialmente excomungado pelo papa.

As 95 Teses de Martinho Lutero são o marco inicial da Reforma Protestante

Consideram os especialistas que, entre outros aspetos, a discussão em torno das indulgências, além de ter fomentado a pluralidade cristã, promoveu também uma das mais importantes conquistas da modernidade: a liberdade religiosa e de expressão.

As 95 teses de Lutero deram origem a um movimento de rutura, que levou à criação de uma nova religião cristã, o Luteranismo, identificado como um movimento protestante em relação ao catolicismo. Para o conter, a Igreja Católica promoveu um movimento de contrarreforma, sendo o Concílio de Trento (1545-1563) o mais marcante, com a criação de regras para a igreja romana.

A rutura originou confrontos sangrentos entre cristãos, motivou guerras de religiões em diversas regiões europeias, designadamente nos Principados Germânicos, em França e na Inglaterra, e abriu caminho para o surgimento de diversas vertentes do Cristianismo.

Lutero foi determinante para estimular educação no norte e centro da Europa

A reforma Protestante desencadeada por Lutero, em 1517, mudou a história da religião cristã, mas os investigadores destacam ainda o seu impacto na educação, particularmente nos países do centro e norte da Europa, que apostaram na alfabetização da população.

“No sul da Europa e especialmente na Península Ibérica, a reforma nunca chegou abertamente”, disse José Brissos-Lino, pastor protestante e professor de Psicologia da Religião, em declarações à agência Lusa.

Do ponto vista educacional, países como a Finlândia, por exemplo, atingiram os 100% de alfabetização da sua população no seculo XIX, tendo a reforma de Lutero contribuído para que saber ler fosse uma base prioritária para o conhecimento dos textos sagrados.

Em Portugal, adiantou, onde a reforma não teve qualquer impacto nem influência, ainda hoje existe uma taxa significativa de analfabetismo e os protestantes são uma minoria.

Há cerca de meio milhão de analfabetos em Portugal, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), baseados no Censos de 2011. A maioria é idosa e vive em zonas do interior. Mas existem outros 30 mil que ainda estão em idade ativa, ou seja, com idades compreendidas entre os 18 e os 65 anos.

“A reforma, apesar de se chamar reforma religiosa ou protestante, na realidade foi um corte epistemológico e de procedimentos. Até ai havia a igreja medieval e, com a reforma nasce um novo capítulo da história da Europa, mudou tudo”, explicou José Brissos Lino, presidente da Comissão Organizadora do Congresso Internacional “Um construtor da Modernidade – Lutero – Teses – 500 anos” (Lisboa, 2017), que decorre em Lisboa a 09 a 11 de novembro.

Com a Reforma “houve guerras pelo poder, houve deslocações em massa de pessoas que tinham abraçado a fé cristã e que se movimentaram para o território dos príncipes protestantes. Na Alemanha houve também movimentos extremistas contra os quais o próprio Lutero teve de lutar. Mudou tudo, mas no sul da Europa nunca chegou”, frisou.

Lutero, explica José Brissos Lino, teve um efeito cultural e linguístico na identidade alemã e impulsionou a leitura provocando um grande desenvolvimento na educação, estimulando a criação de escolas. Foi um construtor da modernidade e deu a oportunidade a cada cidadão de se aproximar de forma pessoal aos textos sagrados.

"Levou as pessoas a centrarem em sim a relação com Deus, sem intermediários. Mudou o paradigma. Cada pessoa de fé passou a ser sacerdote de si própria", disse, adiantando que, na sequência da reforma, desenvolveu-se o conceito da igreja reformada sempre em reforma, sempre em análise.

Quinhentos anos depois, o mundo assinala o "protesto" de Lutero

O papa Francisco, defensor da unidade dos cristãos, participou em outubro de 2016, em Lund, na Suécia, no 500.º aniversário da Reforma de Martinho Lutero, de mãos dadas com os protestantes.

A deslocação do papa suscitou o entusiasmo dos teólogos católicos e luteranos. Para o pastor luterano Theodor Dieter, consultor principal dos trabalhos comuns, a participação de Francisco é "simplesmente sensacional".

"É preciso não esquecer que Lutero descreveu o papa como o anticristo e fez severas críticas sobre a Igreja católica romana", lembrou este dirigente do Instituto de pesquisa ecuménica de Estrasburgo ("think tank" dos luteranos).

Os tempos modernos acrescentaram também obstáculos. Nas celebrações na Suécia, o papa esteve rodeado de bispas luteranas, uma evolução do protestantismo ainda impensável na Igreja católica.

Lutero em debate

No congresso internacional agendado para novembro, promovido pela área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona e pela Sociedade Portuguesa da História do Protestantismo, em parceria com a Universidade Aberta, as múltiplas dimensões do movimento da Reforma serão alvo de debate.

Além do capital religioso de Lutero, serão também abordados os valores filosóficos e estéticos.

No evento estarão presentes teólogos, biblistas e exegetas de vários quadrantes confessionais e contextos religiosos, bem como historiadores, filósofos, sociólogos e outros cientistas sociais.

Quinhentos anos depois, a herança que ficou da dinâmica reformadora e que influência permaneceu viva até hoje são interrogações que estarão em debate no evento.

Patriarca de Lisboa vê Lutero como “grande fonte de inspiração”

O cardeal patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, disse à Lusa que Martinho Lutero, figura central da Reforma Protestante há 500 anos, é "uma grande fonte de inspiração".

Manuel Clemente considerou, em declarações à Lusa, que há que "valorizá-lo dentro deste ambiente geral de Reforma do século XVI".

"O regresso às fontes bíblicas, o contacto direto com os Evangelhos, há o sentido de uma experiência pessoal mais coerente, e Lutero integra-se dentro desta constelação e, nesse sentido, ele e os outros reformadores do século XVI são para nós, homens do século XXI, uma grande fonte de inspiração", afirmou.

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa caracterizou Martinho Lutero como "mais um reformador que procurava voltar às fontes bíblicas diretamente, [com] uma grande apropriação pessoal na leitura e no sentimento dessa mesma Bíblia".

"Se lhe fôssemos perguntar, ao princípio, se ele estava a pensar que ia provocar uma rutura no catolicismo mundial ou na Igreja mundial, ele, ao princípio, não estaria à espera disso", afirmou, sublinhando que "há muitas coisas que, mesmo no âmbito do catolicismo, foram definidas a seguir que antes não eram tão claras mesmo para o próprio Lutero".

O cardeal patriarca de Lisboa lembrou, por isso, que Martinho Lutero surgiu no seio de um movimento que "toca toda a cristandade do final da Idade Média e do princípio da Idade Moderna", numa parte da Europa "mais urbanizada e onde circulavam pessoas e ideias".

"Dentro deste contexto, houve vários movimentos de reforma, isto é, de tentativa de retomar a forma inicial do Cristianismo, que é o que a palavra essencialmente quer dizer. Tinham acesso às fontes evangélicas, liam as cartas de Paulo, liam os atos dos apóstolos com as vidas primitivas das comunidades cristãs", recordou.

Manuel Clemente vincou que "alguns desses movimentos de Reforma cortaram com Roma, outros mantiveram-se em Roma", tendo originado, mais tarde, a reforma do Concílio de Trento que "deu basicamente aquela maneira de viver católica" que persiste até hoje.

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