"Sou parte da resistência dentro da Administração Trump”. O editorial de opinião (ou OP-ED, como é referenciado) publicado pelo New York Times (NYT) no passado dia 5 de setembro fica para a história do jornalismo (e da política norte-americana). Apesar de não ser a primeira vez que o NYT publica nas suas páginas um artigo de opinião anónimo — o último tem data de junho deste ano e foi escrito por um candidato a asilo não identificado de El Salvador — é a primeira vez que um jornal norte-americano publica um artigo de opinião anónimo de um alto quadro da Casa Branca.

No texto, um alto responsável da Administração Trump explica como se esforça, juntamente com outros funcionários seniores — a designada “resistência”—, para lutar “por dentro” contra os “objetivos” e "piores tendências" do Presidente norte-americano. Explica como e porquê.

A decisão “rara” de publicar o texto - rara é o adjetivo usado na nota do jornal que antecede o artigo - foi tomada pela secção de Opinião do jornal, que funciona de forma independente da restante redação.  “Acreditamos que a publicação deste texto anónimo é a única forma de darmos esta perspetiva importante aos nossos leitores”, pode ler-se numa nota que antecede o referido texto de opinião.

O conteúdo, sem precedentes; a forma, opinião anónima; e o timing, foi publicado um dia depois de serem conhecidos os primeiros excertos de “Fear” (“Medo”), o mais recente livro do premiado jornalista e um dos responsáveis por revelar o escândalo Watergate, Bob Woodward, sobre a vida dentro da Casa Branca no período da presidência de Donald Trump, fizeram estremecer a classe política norte-americana. As ondas de choque chegaram a analistas e à classe jornalística — nos EUA e além fronteiras — que questionaram o rigor,  o valor de notícia, o precedente em causa e os princípios deontológicos associados.

Reunimos um conjunto de opiniões entre a classe académica e jornalística nacional sobre fontes anónimas, a opção de publicação, as suas consequências para a credibilidade do NYT e o que diz um editorial anónimo da América de hoje. 

Publicariam? Como atuaria o PÚBLICO, Observador e o SAPO24

Manuel Carvalho, diretor do PÚBLICO, e Rute Sousa Vasco, publisher da MadreMedia, empresa que edita o SAPO24, respondem negativamente quando questionados sobre se publicariam um artigo de opinião com as características das do publicado pelo NYT. Já José Manuel Fernandes, publisher do Observador, assume que “em princípio sim” com “algumas questões”.

“Digo ‘em princípio sim’ e não taxativamente ‘sim’ porque me falta conhecer tudo aquilo que o NYT sabe sobre o autor do artigo”, diz-nos o publisher do jornal digital que faz questão de sublinhar que a publicação de um artigo de opinião anónimo num país que é uma democracia é algo que o “repugna”. No entanto, José Manuel Fernandes acrescenta que é “preciso ter confiança no critério que levou o jornal norte-americano a aceitar o artigo”. Sustenta o seu princípio de intenção com a informação nele expressa, que considera “de interesse público”, sempre partindo “do princípio que não havia outra forma de dar aquele tipo de informações”, como num artigo assinado por um jornalista, e que aquela foi “a forma mais eficaz de as dar”.

“Mais dos que as opiniões que estão em causa naquele artigo, o que é importante é a informação que lá está. E desse ponto de vista, é importante que ela seja revelada publicamente. Por isso eu publicá-lo-ia”, justifica.

Mesmo acreditando que as informações “eram de facto rigorosas” e que a fonte “era altamente credível, quando se junta "opinião" e "anónima", diz o diretor do PÚBLICO, há "um problema de forma que afeta o conteúdo”. Por isso, “não, não publicava” garante Manuel Carvalho que considera que a informação acabou por ser “ofuscada pelo ruído relativamente à forma” e que o debate que se gerou “anulou aquilo que era o propósito original” da direção de opinião do NYT.

No seu entender, a alternativa à publicação do OP-ED seria uma reportagem ou um artigo de informação. A escolha de um jornalista para entrevistar a fonte “que reputaram de altamente credível e altamente colocada no seio da Administração Trump” seria a “solução” ainda que necessitasse sempre, salienta, do “o contraditório” e de “outras fontes que corroborasse a informação”.

Também Rute Sousa Vasco, publisher do SAPO24, não publicaria um artigo com as características do OP-ED anónimo do NYT e preferia ter visto esta fonte escrutinada num trabalho de investigação jornalística. Mas admite a exceção para artigos de opinião anónimos em questões muito específicas, que decorrem de motivos “de força maior”  como por exemplo situações em que o autor corra risco de vida por estar a dar o seu testemunho. Algo que, diz, “pode acontecer em várias circunstâncias, nomeadamente em países que não são uma democracia e em países que não respeitam aquilo que é tido como um dos valores base da democracia que é a liberdade de expressão”.  Mas que “apesar de tudo o que tem acontecido na América nos últimos anos, não me parece que se configure esse registo”, defende.

Discordando também na forma como publicou e no espaço onde publicou, a responsável pelo site de informação do portal SAPO acrescenta: “O NYT não é apenas um órgão de comunicação social norte-americano mas é em termos de imprensa mundial um meio que todos nós olhamos com respeito e que a todos nos serve para abrir caminhos e para nos fazer pensar como é que o jornalismo deve responder a várias situações. Neste caso concreto não me parece que a opção tomada pelo NYT seja a que melhor serve o jornalismo ou a democracia — duas questões que me parecem relevantes nesta fase”.

Terá o NYT perdido credibilidade por o publicar?

Aqui, as opiniões são unânimes e os pontos de vista semelhantes.

António Granado, professor de Jornalismo na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa, crê que não mas salienta que por comparação “há muito poucos jornais no mundo que podem publicar um artigo destes e não sair beliscados na sua credibilidade”.

O professor na NOVA-FCSH recorda que “em todos os casos em que o NYT se envolveu, nos últimos anos, conseguiu sempre manter-se do lado da deontologia” e lembra o caso do antigo jornalista da publicação, Jayson Blair, que em 2003 foi acusado de plágio e da forja de fontes anónimas. “O NYT quando se enganou pediu desculpa e admitiu de imediato o erro. Mas na maioria das vezes não se enganou”, diz.

Sobre a justificação do anonimato Granado, que se estivesse na posição do editor do NYT publicaria o artigo nestes moldes, defende que “em casos absolutamente excecionais se deve dar o anonimato”. E este, considera, é um desses casos. A importância da informação e o risco deste alto funcionário perder o emprego justificam essa opção, no seu entender. “E eu sou extremamente crítico com as fontes anónimas”, contrapõe acrescentado que em "98% das vezes em que as fontes anónimas são utilizadas, para não dizer 99% das vezes, são mal utilizadas e não fazem sentido absolutamente nenhum. Neste caso fazem.”

Rodrigo Moita de Deus é da mesma opinião. O CEO da Nextpower e diretor do NewsMuseum partilha da ideia de que “só um jornal como muita reputação e com peso institucional como o NYT é que poderia publicar um artigo de opinião anónimo nestas circunstâncias” e “sem deitar tudo a perder”.  “Para 99% dos meios de comunicação social seria o fim da sua credibilidade e da sua respeitabilidade, para o NYT não”, diz-nos o antigo jornalista.

A “instituição” NYT é também lembrada por Manuel Carvalho (PÚBLICO). Apesar de considerar a publicação do editorial anónimo “um erro”, diz que “errar faz parte da tradição da melhor imprensa” e que esse erro não basta para “afectar mesmo que indelevelmente o NYT”. Também Rute Sousa Vasco (SAPO24) considera que esta foi “uma decisão errada”, mas que “não vai manchar o futuro do NYT”. “O NYT é muito maior que um OP-ED anónimo”, diz-nos. 

A publisher coloca, porém, algumas reticências: ”Não sei é se a prazo isto não vira uma arma de arremesso que vai favorecer provavelmente aquilo que o NYT quis denunciar”.  “Ou seja, não sei até que ponto, e atendendo à divisão que existe na sociedade americana e à forma extremada como a opinião pública a nível internacional se encontra, a publicação de um editorial não assinado não será utilizada pelas pessoas que menos gostam de liberdade de expressão e que mais interessadas podem estar em manipular e confundir as pessoas no que é a verdade e a invenção de factos pela imprensa. E não sei até que ponto um editorial não assinado por um membro da Administração Trump não pode vir a ser utilizado pela própria Administração e pelo próprio Donald Trump como uma evidência de que afinal de contas isto são só lucubrações que querem denegrir a forma como o mandato está a ser conduzido”.

Dúvidas que são também colocadas por Francisco Sena Santos. O professor na Escola Superior de Comunicação (ESCS) e radialista explica que “o episódio, por si só, não põe em causa a grande credibilidade do jornal” mas “tem o malefício de fornecer a Trump munições que não merece ter para argumentar que os grandes media estão em campanha contra ele”. “O empenho do NYT com a democracia bem podia dispensá-lo de dar a Trump mais munições para atacar o jornalismo que ele se queixa de o perseguir em campanhas viciadas”, remata o jornalista.

Sena Santos salienta ainda que “há da parte da redação do NYT uma reação que só reforça a credibilidade dos seus à volta de 2000 jornalistas: alguns, como Jodi Kantor, propõem que a redação trate agora de investigar e revelar quem é esse autor que a área de "Opinião" do jornal (que é autónoma da estrutura da redação de notícias, reportagens e entrevistas) entendeu proteger no anonimato”.

O que diz a publicação do editorial anónimo dos Estados Unidos de hoje

“A brecha que a galáxiaTrump abriu na maior liberal-democracia ocidental é tal que uma requintada jóia do jornalismo como é The New York Times se deixa escorregar para uma prática que contraria a firme tradição do jornal de recusa de fontes anónimas” responde Francisco Sena Santos ao nosso pedido de comentário. O jornalista é também da opinião que “não faz sentido abrir esta exceção para um alto cargo da administração”. “Se tem denúncias a fazer, que as assuma”, defende.

Na ótica de Manuel Carvalho, o editorial anónimo mostra que os EUA são “um país que está a viver uma situação particularmente complicada"e que mostra que “há uma espécie de guerrilha interna contra aquilo que foi a decisão democrática dos norte-americanos", explica."Porque quem tem o poder que é delegado pela soberania popular através do voto é o Presidente Trump, goste-se dele ou não", relembra. A publicação deste editorial, sublinha, "mostra essencialmente um país, um regime e um sistema político altamente entrincheirado em duas fações cada vez mais irreconciliáveis". "Isso é que é de facto muito preocupante e que é importante as pessoas saberem, avaliarem e discutirem", conclui.

Para José Manuel Fernandes (Observador), o artigo diz-nos “mais coisas positivas do que negativas”: “A má notícia nós já a conhecemos, ele  [Trump] foi eleito há quase dois anos; a boa notícia é que os anticorpos que o sistema tinha de se proteger de um vírus autoritário e liberal ainda não cederam e mostram a sua capacidade de reação”.

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