Criar crianças “nunca é fácil”. É assim que Kay Xander Mellish começa a conversa. Americana radicada na Dinamarca há mais de uma década, veio a Lisboa falar, exatamente, sobre como criar os filhos e as políticas de natalidade naquele país escandinavo.

“O sistema está desenhado para apoiar os pais. Do lado governamental há um incentivo financeiro quando os bebés nascem”, refere ao SAPO 24 a autora do blogue “How to Live in Denmark” (Como viver na Dinamarca). Kay Xander Mellish é oradora convidada na conferência - “Natalidade: como crescer em Portugal” - que decorreu esta quarta-feira na Fundação Champalimaud, em Lisboa, organizada pela WELL’S e que juntou, entre outros, académicos, médicos, sociólogos, pediatras, representantes da Associação de Famílias Numerosas, Associação Portuguesa de Demografia e o ministro do Trabalho e Segurança Social, Vieira da Silva.

“O lado laboral é igualmente importante. É normal termos pais a saírem às 15h00 para irem buscar os filhos. Em especial homens”, sublinha. “Gostava de ter a reunião consigo, mas tenho que ir buscar o meu filho”, é uma justificação muitas vezes escutada, anuncia.

“Às segundas-feiras, nos empregos, os homens falam sobre o passeio de bicicleta de três quilómetros com o filho durante o fim de semana”, descreve a ex-jornalista financeira que virou blogger e consultora de comunicação, reforçando que o sexo masculino “desempenha um papel muito importante” no Reino da Dinamarca.

Antecipando aquilo que iria falar na conferência, com um copo de vinho branco do Dão à mesa do restaurante do LX Boutique Hotel, no Cais do Sodré, adianta que há uma quase igualdade de distribuição de trabalhos domésticos entre géneros. “Os homens dinamarqueses fazem mais trabalho em casa do que qualquer outro país”, frisa Kay Xander Mellish que está de passagem pela segunda vez na vida por Lisboa (“está muito diferente”, deixa cair), reconhecendo que pouco sabe sobre a realidade portuguesa e sobre o homem português.

Quanto ao espécimen autóctone, a “mãe” do blogue que virou podcast e livro, questiona: “Sente-se confortável em lavar louça? É macho andar com um carrinho de bebé?... se vir um na rua, digo: uau, este é um bom pai”, sorri.

Na leitura sobre a realidade do país onde vive deixa uma nota. “O ingrediente de sucesso para a parenteralidade na Dinamarca é o apoio do homem em serem pais”, sustenta. E essa predisposição “facilita a escolha à mulher para ser mãe porque sabe que tem ali um pai”.

Uma tecnologia ao serviço da mulher que enche os bolsos dos homens

O “Homem”, sexo masculino, leia-se, é um tema recorrente ao longo de 22 minutos de diálogo. Entrecruza-se com a tecnologia que tem na Dinamarca a sua quota-parte de responsabilidade na política de natalidade. “1 em cada 8 filhos nasce com a ajuda de tecnologia. A Dinamarca é o país número 1 exportador de espermatozoides”, desvenda.

As surpresas não se ficam por aqui. “É comum homens novos doarem o esperma. E fazem dinheiro (100 euros por cada doação) com isso”, sublinha. “Tens 19, 20 anos. Vais, demoras 10 minutos ... e consegues 1000 euros por mês de rendimento extra”, solta uma gargalhada.

Mas o ganho (financeiro) não é só do lado do dador. As duas partes saem a ganhar. “Muitas mulheres, solteiras, algumas lésbicas ou porque simplesmente não conseguem, é normal recorrerem a bancos de esperma”, atira falando sobre os apoios governamentais à fertilidade. “Não é embaraçoso. É uma questão de mentalidade. Mentalidade aberta”, remata.

Os TPC’s são poucos e ninguém aprende Mandarim aos 3 anos

Criadas que estão as condições para pais e mães terem filhos, os incentivos estatais não terminam, faz questão de dizer. No primeiro ano de vida as crianças estão em casa com um dos pais. Nessa altura, explica, as mães juntam-se em grupos de “4 ou 6 mães”, grupos incentivados pelo governo dinamarquês, “para que se possam apoiar umas às outras”. Nesta entreajuda, entram os momentos de “música para bebés”, “natação para pais e filhos”, a igreja “envolve-se”, os “cafés recebem crianças e estão cheios ... é uma indústria do bebé”, resume.

Seguem-se as creches (financiadas). “É nessa altura que apreendem os social skills como esperar numa fila. E aprendem dinamarquês”, informa.

Dividido entre ensino público e privado (em que este último é financiado pelo Estado) e com peculiaridade dos “filhos da Família Real andaram em escolas públicas”, Kay Xander Mellish debruça-se sobre o sistema escolar. “Não há notas até aos 13 anos. Dos 0-12 o foco é a inteligência emocional. Aprender a trabalhar em equipa. Sem pressão. E quase não há Trabalhos Para Casa (TPC’s)”, esclarece. “As crianças são livres para brincar e os pais têm tempo para estar com eles. Fazer o que lhes apetece”, anuncia.

Outro aspeto curioso da educação dinamarquesa é que “quando falamos dos nossos filhos não dizemos: ele é o melhor da escola. Não é cool”. A ausência de competitividade incutida nas crianças explica porque ninguém procura que o filho aprenda Mandarim aos três anos ou domine programa de multimédia em tablets.

Tempo com a família e ter filhos dá estatuto. O carro que conduzem não entra nas contas

Em contraponto a esta ausência de competição enraizado às crianças na Dinamarca é-lhe “dada” grande responsabilidade desde cedo. “A minha filha desde os 10 faz duas refeições por semana. E é normal irem para a escola de transportes públicos sozinhos”. E isso torna “mais fácil ser pai/mãe”, admite. “Não temos que ser responsáveis pelas tarefas todas”, realça.

Num país que não olha com bons olhos para a ostentação é “o tempo com a família e com os teus filhos que te dá estatuto (status)” e não o fato de “teres uma carteira, um fato Giorgio Armani ou um carro topo de gama”, realça Kay que trocou o país natal, Estados Unidos da América, pela Dinamarca, “onde é fácil criar filhos” e “há tempo para estar com a família”.

Será que o que se passa na Dinamarca é o modelo a seguir. “É uma possibilidade que deve ser olhada se querem ou não seguir. Acima de tudo é sobre homens”, enfatiza.

Os “filhos são o melhor investimento” e as crianças “devem fazer parte da sociedade”, defende.

Para fim de conversa, lança um repto aos homens portugueses: “Necessitamos de vocês”, avisa. “Rapazes: construam uma sociedade familiar adaptada a bebés e amiga das crianças. Olhem para o que podem fazer para tornar mais fácil terem mais crianças portuguesas. Construam o edifico e os bebés virão”, finaliza.

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