O anúncio foi feito em Luanda numa reunião convocada por José Eduardo dos Santos para preparar o congresso do partido, agendado para agosto, que servirá de preparação para as candidaturas às eleições gerais, marcadas para 2017, em Angola, escreve a Lusa.

Segundo a agência de notícias Angop, José Eduardo dos Santos defendeu um combate mais firme à gestão danosa e a mobilização de quadros capazes para a concretização dos objetivos do Executivo.

A Angop refere ainda que, no seu discurso, José Eduardo dos Santos reconheceu que algumas metas ficaram aquém do desejado, lançando um apelo aos angolanos e aos empresários, em particular, no sentido de se empenharem na produção de bens para o consumo interno e a exportação.

Um cenário perigoso, mas também uma Angola em mudança

Em declarações à Lusa, Luís Bernardino, doutorado em História dos Factos Sociais, com especialidade em Relações Internacionais, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), de Lisboa, sustentou, na quinta-feira, que a saída do poder do chefe de Estado angolano pode constituir um "cenário perigoso" se as autoridades políticas e militares não souberem gerir os negócios dos generais do país.

"A nova geração de militares terá então um grande desafio pela frente. É um cenário perigoso", afirmou Luís Bernardino à Lusa, aludindo também à dependência das receitas do petróleo e aos negócios em que está envolvida grande parte dos oficiais de topo angolanos. No entanto, Luís Bernardino lembra que a próxima geração será maioritariamente formada em academias no estrangeiro e que, por isso, terá já outra visão.

"Angola está já a mudar de paradigma, com a ideia de repressão associada às forças armadas já a sair fora desse parâmetro e a entrar na fase de apoio ao desenvolvimento", tendência que está a ser seguida noutros países de África, na sequência da estratégia delineada em 2002 com a extinção da Organização da Unidade Africana (OUA) e o surgimento da União Africana (UA), explicou.

"O processo mudará nos próximos 10 anos, com a subida dos academistas angolanos que não estiveram nas sucessivas guerras e que terão já outra visão do papel das forças armadas em Angola", sustentou, lembrando que a estratégia angolana está integrada no quadro da política externa de Luanda.

O futuro dos militares

Tal processo está a passar pelo crescimento e pela consolidação institucional das Forças Armadas Angolanas (FAA), "que transmite robustez política e consistência ideológica na construção da paz", que tem permitido a Angola participar no processo de estabilização no continente, com a presença em várias missões nas Áfricas central e austral. "A partilha de responsabilidades na segurança coletiva permite desenvolver arquiteturas regionais de segurança que contribuem para fazer face a uma conjuntura regional caracterizada por ameaças assimétricas à segurança nacional", sublinhou o doutorado.

"A política externa angolana reconhece que as alianças militares e a cooperação internacional para a segurança podem ser a resposta para combater os fenómenos transnacionais da segurança. Ao participarem na operacionalização da «Arquitetura de Paz e Segurança Africana», (as FAA) contribuem para incrementar o nível de segurança e desenvolvimento regional, constituindo-se num Mecanismo de Prevenção de Conflitos", sublinhou Luís Bernardino.

A reestruturação, redimensionamento e reequipamento em curso nas FAA já permitiram, disse, "maior equilíbrio" (entre repressão e apoio ao desenvolvimento), com elementos "mais profissionais, melhor organizados e mais operacionais".

"Há sistemas de segurança regionais e continentais, um crescimento das instituições de segurança, maior responsabilização social no apoio às populações e maior capacidade operacional para fazer face aos novos desafios de segurança e às novas ameaças transnacionais, um maior investimento nas Forças Armadas e no soldado e uma liderança nos processos políticos e estratégicos", referiu.

No entanto, concluiu Luís Bernardino, Angola enfrenta também o desafio da segurança marítima, pois tem uma costa de aproximadamente 1.600 quilómetros e uma Marinha cujos efetivos constituem apenas 5% do total das FAA. "A componente naval é muito frágil. Há uma diferença entre Marinha e frota. Comprar navios não basta. São necessários satélites, aviões, sistemas de informação, formação, etc. É, como se diz, o Sistema de Armas Combinadas. Aí, Angola está muito frágil", concluiu.

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