Laurinda Filipe sobreviveu ao ciclone Idai agarrada a galhos de uma árvore com duas filhas gémeas de quatro meses ao colo, até ser avistada por uma canoa.

Foram três dias assim, em Dombe, durante as cheias que se seguiram ao ciclone, em março de 2019, no centro de Moçambique.

“A água vinha a ferver em lama, era diferente da água normal que conhecíamos”, lembra a camponesa de 30 anos e mãe de cinco filhos, anotando que sobreviveu porque a água só chegou à sua aldeia ao amanhecer.

“A água parecia uma guerra. Ninguém podia esperar, porque era uma guerra, a água arrastava tudo pela frente e quem não fugisse morria”, conta à Lusa Laurinda Filipe, que passou dias a fio sem comer e sem beber até chegar ao abrigo da missão católica.

Um ano depois, as gémeas foram diagnosticadas com desnutrição aguda, ligada à sua deficiência alimentar, agravada pela destruição da produção na fase de colheita, da agricultura de subsistência.

“A saúde das crianças não é boa” disse à Lusa Laurinda Filipe, à saída do centro de saúde da missão de Dombe, onde as crianças estão a receber um acompanhamento nutricional e também suplementos.

“Por muito tempo não consegui amamentar porque não saía leite. Para sair leite precisava alimentar-me e nós passámos fome”, acrescentou.

Como as duas gémeas de Laurinda, centenas de outras crianças de Dombe foram diagnosticadas com desnutrição nos últimos meses após a destruição severa da aldeia.

Em declarações à Lusa, Carlos Almeida, coordenador nacional da Helpo, organização humanitária portuguesa, disse que quando o grupo chegou a Dombe encontrou uma situação de “grande catástrofe” e “grande fragilidade”

“Tentámos naquele momento atacar forte neste problema com uma intervenção na área da nutrição materno-infantil”, referiu.

Por sua vez, Hélia Sêda, nutricionista da Helpo, disse que a organização faz o rastreio, educação e correção nutricional de grávidas e crianças no centro de saúde da missão e nos campos de reassentamento.

Nos meses a seguir ao Idai, continuou, os casos de desnutrição diagnosticados passaram de quatro para 12 por semana.

A Helpo tem oferecido uma cesta básica com vários grupos de alimentos, a par do suplemento nutricional fornecido pelo centro de saúde publico de Dombe para crianças e grávidas.

“Incentivamo-los a darem mais alimentos, diferentes daquilo que nos damos, como frutas e produtos naturais, para garantir a sustentabilidade” disse à Lusa a nutricionista.

Dados do centro de saúde da missão católica indicam que 290 crianças foram diagnosticadas com desnutrição no período pós ciclone, 119 das quais foram curadas.

Um número de 49 grávidas foi igualmente diagnosticado com desnutrição.

A organização que inicialmente teve intervenção de emergência, vai beneficiar agora de fundos do Camões e, nos próximos dois anos, vai trabalhar em projetos para tornar resilientes as comunidades e as infraestruturas de saúde de Dombe, para se prevenirem de eventos futuros.

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