Eram 18:30 em Lisboa, 12:30 no Texas, em Dallas, quando John Fitzgerald Kennedy, que circulava na parte de trás da limusine presidencial ao lado da sua mulher, Jacqueline, e que avançava da Praça Dealey para a rua Houston, é atingido por uma bala mortal na cabeça.

Três investigações oficiais concluíram que Lee Harvey Oswald, um empregado do armazém Texas School Book Depository, foi o autor dos disparos - sozinho ou com um cúmplice. O assassinato de JFK continua, ainda assim, envolto em mistério e é alvo das mais variadas teorias da conspiração.

Sabe-se que existem mais de 3100 documentos ligados à investigação da morte de John F. Kennedy mantidos em segredo em Washington, nos Arquivos Nacionais, de um total de cerca de cinco milhões, quase todos públicos.

No ano passado, o presidente norte-americano Donald J. Trump adiou para até 2021 a divulgação dos documentos em causa - depois de em 2017 ter anunciado que autorizava para breve a sua publicação: "Sob reserva de receber novas informações, vou autorizar, como Presidente, que os dossiês JFK há muito bloqueados e classificados como secretos sejam abertos", escreveu Donald Trump no Twitter.

Esta é a história conhecida. Menos conhecida, no entanto, é a relação de John F. Kennedy com o governo português, em particular com o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Alberto Franco Nogueira, e a pressão dos Estados Unidos sobre Portugal para pôr fim ao Império Colonial. São esses os factos que relata o diplomata português Luís Soares de Oliveira, hoje com 92 anos, que trabalhou sob a sua orientação entre 1957 e 1965.

É espantoso como em apenas três anos ele conseguiu mudar tanta coisa, sobretudo a forma dos americanos pensarem a política

JFK foi assassinado a 22 de novembro de 1963. Foi eleito em 1960 e tomou posse em 1961. Como foi sentida a sua administração?

A administração de JFK foi uma lufada de ar fresco em Washington. É espantoso como em apenas três anos ele conseguiu mudar tanta coisa, sobretudo a forma dos americanos pensarem a política. Foi o primeiro homem público do pós-guerra que conseguiu realizar um autêntico aggiornamento [actualização]. Político sagaz, soube aproveitar o pânico criado na opinião pública americana pelos Sputnik I e II, que os soviéticos colocaram no espaço sideral, em finais de 1957. Parecia que os EUA estavam a perder a luta tecnológica (aí temos a ciência a fazer mais uma das suas). A diplomacia americana nunca tinha conseguido dominar o Conselho de Segurança das Nações Unidas, e agora estavam em riscos de perder o controlo da Assembleia Geral do organismo regulador da paz no mundo. Haveria que mudar.

Picture taken on June 26, 1963 shows then US President John F Kennedy (L) giving a speech at the Schoeneberg city hall in Berlin, where he said his famous German sentence "Ich bin ein Berliner" (I am a Berliner) to underline the support of the United States for West Germany and his empathy for people living in the divided city of Berlin. B/W ONLY AFP PHOTO / GERMANY OUT (Photo by DPA / DPA / AFP)

Era um acérrimo defensor dos direitos humanos e contra a discriminação racial. Qual a relação dos Estados Unidos com Portugal, sobretudo por causa de África?

No domínio interno era preciso acabar com segregacionismo religioso - de que ele próprio, como católico, era vítima - e racial, fonte de cada vez mais frequentes sobressaltos na ordem pública. No domínio externo era urgente encontrar sucedâneo para o conceito de retaliação massiva, em que assentava a estratégia de defesa americana, e substituí-lo por uma moralidade de cooperação efetiva e aberta com o então chamado Terceiro Mundo, que permitisse recuperar o comando da maioria na Assembleia Geral das Nações Unidas.  Kennedy, ambicioso, tinha por si alguns trunfos: inteligente, culto e viajado, era filho de um dos homens mais ricos da América, com ligações no submundo, tinha por mulher a deslumbrante Jacqueline (née Bouvier), tinha ao seu serviço excelentes escritores de discursos e trazia no corpo marcas da guerra no Pacífico. Isso permitiu-lhe ir às universidades buscar gente de alto nível intelectual e elaborar um plano que ficaria conhecido como "Nova Fronteira". JFK fez dos Direitos Humanos uma - talvez a principal - das suas bandeiras de combate e ao longo do seu mandato presidencial ele e o irmão conseguiram abrir caminho e fortalecer um movimento anti-racista americano que se tornou irreversível. À luz de tais considerandos, a questão do Ultramar português passou a ser vista de outra forma: se continuava a não pesar na geopolítica, passou a pesar e muito na moralidade do novo posicionamento americano no mundo. Necessário seria fazer aceitar tanto o nacionalismo como o neutralismo dos povos do Terceiro Mundo. O Império de um aliado dos EUA na NATO estava forçosamente condenado.

"JFK entende o significado de coragem, mas não tem independência suficiente para a exercer", disse a mulher de Roosevelt

Qual o papel e posicionamento de Franco Nogueira, então Ministro dos Negócios Estrangeiros, nesta matéria?

Franco Nogueira e John F. Kennedy não nasceram para se entender, mas acabaram por fazê-lo. O primeiro era autêntico. Na adversidade, deu sempre a cara. O segundo era o produto de uma imagem cuidadosamente cultivada. Quando o vento lhe era desfavorável, omitia-se. Isto foi assinalado por madame Roosevelt - viúva do presidente Franklin D. Roosevelt - num comentário que  ficaria famoso, a propósito da atitude assumida por Kennedy, já senador, perante o  então altamente temido senador McCarthy: "JFK entende o significado de coragem, mas não tem independência suficiente para a exercer", disse ela. Pior ainda do que não ter independência para o fazer, foi ter pensado, ao entrar na Casa Branca, que a tinha, do que resultaram dois trágicos desastres com pequena diferença de tempo entre eles: o ataque terrorista de Holden Roberto no Norte de Angola, em março de 1961, e o desembarque de cubanos anti-Fidel, na Baía dos Porcos, e em abril seguinte. No segundo, coube a Fidel Castro mostrar-lhe os limites do seu adquirido poder e, no primeiro, foi Franco Nogueira que, manobrando habilmente a questão da renovação da autorização de uso da Base nos Açores,  indispôs o Pentágono contra a Casa Branca, e o presidente viu-se obrigado a suspender o apoio à UPA [Frente Nacional de Libertação de Angola]. Mas que Kennedy entendia o que era a coragem, reflete-se na forma altamente lisonjeira como recebeu Franco Nogueira e o distinguiu numa receção na Casa Branca aos políticos da NATO, em maio de 1963. Não só o acolheu na Sala Oval em exclusivo, como o fez entrar ao seu lado na sala onde estavam reunidos os restantes ministros dos Estados-membros da NATO convidados para o banquete comemorativo do 14.º aniversário da aliança. O secretário- geral da NATO, Paul-Henry Spaak, ficou altamente perturbado com o significado deste gesto.

Qual a sua relação com Franco Nogueira? Quando e em que circunstâncias o conheceu?

Conheci Franco Nogueira e trabalhei sob sua orientação nas Nações Unidas e na Direcção-Geral Política do Ministério dos Negócios Estrangeiros, entre 1957 e 1965. Foram os anos mais marcantes da minha truncada carreira, tempos de muito trabalho, de luta intensa e altamente  empolgante. Devo esclarecer que o nosso relacionamento não foi fácil, por culpa minha, não dele. Ele era convicto, eu fui sempre céptico. Ao tempo, ainda não me tinha dado conta de quanto o cepticismo próprio fere a crença alheia - daí resultaram algumas esfoladelas. Contudo, a avaliar pela missões que me confiou, creio que sabia que podia contar comigo.

Franco Nogueira vivia para as grandes causas e estava à altura de o fazer. Lutar era a sua liturgia salvífica

Como definiria Franco Nogueira?

Era uma pessoa que não deixava ninguém indiferente, e não só pelo alto nível do seu preparo profissional. Creio que a força de caráter era a sua característica mais marcante. Fazia-nos sentir na presença de uma personagem saída das páginas da "Odisseia". Franco Nogueira vivia para as grandes causas e estava à altura de o fazer. Lutar era a sua liturgia salvífica. No centro da zona dos seus afetos estava a alma da pátria, do seu Portugal, ou seja, do Portugal que ele idealizava. Nunca o vi interessado em partidarismos, modas, novidades ou inovações. O espírito da casa era para ser respeitado. Era intransigente em matéria de convicções. Embora tenha vivido na época em que a ciência passou a pesar - e muito - no rumo da história, Franco Nogueira manteve-se fiel ao humanismo, continuou a considerar que a pessoa humana é o centro e a explicação de tudo o que acontece, e descartou qualquer factor de evolução. Era o homo sapiens puro, que nunca aceitou o homo faber. Não temos, porém, que nos surpreender com este atraso, entre aspas, se nos lembrarmos que só em 1959 a universidade de Cambridge abriu um debate interno sobre a autonomia da cultura científica em relação à humanista. A que devemos reconhecer virtude, ao conhecimento e aceitação da epifania do lugar ou à identificação com uma vontade coletiva efémera?

Portugal teria sucumbido no século XIV se não se tivesse concebido e iniciado já então o projeto ultramarino, e não teria ressuscitado no século XVII sem a componente ultramarina (o que faltou então à Catalunha)

Franco Nogueira defendeu sempre o Império, mesmo quando este já estava condenado. Porquê?

Entendeu que o Império se tinha tornado, ao longo do tempo - e já lá iam cinco séculos - elemento constitutivo e essencial do Estado. Portugal teria sucumbido no século XIV se não se tivesse concebido e iniciado já então o projeto ultramarino, e não teria ressuscitado no século XVII sem a componente ultramarina (o que faltou então à Catalunha). Franco Nogueira receava sinceramente que sem Ultramar perdêssemos a capacidade de decidir o nosso destino e acabássemos vítimas do obstinado centripetismo de Castela. "Com Espanha, temos três pontes, e duas são de mais", era um dito meio jocoso dele. Não podemos, contudo, esquecer que ele já era adulto ao tempo da Guerra Civil de Espanha. Além disso, como humanista entendia que nos competia continuar a História. "Solidariedade das gerações", foi como definiu essa responsabilidade. Verdade seja que ele conhecia mal a realidade ultramarina - em compensação conhecia muito bem a realidade portuguesa. Vivia-a e absorveu-a nos livros dos neorrealistas. Ele sabia que o povo português não estava preparado para o trauma da descolonização, o efeito de uma descolonização precipitadamente imposta do exterior seria devastador.

Franco Nogueira era um homem do regime, um carreirista ou, pelo contrário, tinha as suas convicções e era genuíno?

Sei que há quem considere Franco Nogueira um carreirista, mas essa não era a opinião dos que trabalharam com ele - e não é também a dos diplomatas de hoje, como se pôde comprovar em manifestações recentes que tiveram lugar no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Isto é um pouco como dizem os ingleses: a beleza (e a fealdade) está no olho do observador. Há quem procure e se  exalte com o que tem valor e há quem se assuste e procure apagar as manifestações de mérito alheio. Genuíno era, e isso manifesta-se nas suas atitudes. Adorava a luta e considerava-a nobilitante, mesmo quando ardilosa. A apetência da luta não é própria dos oportunistas. Até onde posso ver, Franco Nogueira procurava dilatar as suas responsabilidades mais do que os seus proveitos. Isso viu-se no pós 25 de Abri: privado de recursos financeiros, continuou a lutar sem hipótese de qualquer proveito.

Muitos consideram Franco Nogueira um fascista - e tinha tiques. Concorda? 

Um humanista épico não segue escolas de pensamento político, e menos ainda se sujeita a obediências facciosas ou partidárias. Entende que a realidade lhe obedece. Entre todos, procura ser sempre o primeiro, recomendava Homero, e "Non Ducor, Duco" ["Não sou conduzido, conduzo"], como dizia Cícero. Só o homo faber aceita que a realidade o supera. Porém, como já disse, a metodologia científica não tinha lugar no estojo de ferramentas de trabalho de Franco Nogueira.

O que o seduzia em Salazar, mesmo na sua fase decadente, o homem ou o poder?

Eu diria que a autoridade. Franco Nogueira aceitou participar no governo de Salazar, em 1961, quando Portugal já estava sob ataque no Ultramar, talvez por ter sentido a autoridade que Salazar, apesar de tudo, ainda tinha. Portugal só poderia enfrentar a agressão externa se se mantivesse unido e disciplinado. Em tempo de guerra não se discute política interna. A oposição liberal do tempo também entendeu assim, tal como o povo. O importante, no caso, era a legitimidade de facto do poder, ainda que não o fosse de jure [pela lei].

Uma das coisas que me impressionou no relato que ele fez do Japão de 1946 - agora publicado - é a ausência de referências à bomba atómica (que explodiu ali duas vezes, seis meses antes da sua chegada à cena)

Alberto Franco Nogueira estava em sintonia com a mentalidade predominante no pós Segunda Guerra Mundial? 

Não. Ou estava atrasado, ou muito avançado, só o futuro nos pode dizer. Nos seus livros e relatórios, interpretou  com notável rigor a Europa dos anos de 30 - a época da sua adolescência - mas, no pós-guerra, descompensou. Não captou o impacto da hegemonia transatlântica. O homo faber ultrapassou-o. Uma das coisas que me impressionou no relato que ele fez do Japão de 1946 - agora publicado - é a ausência de referências à bomba atómica (que explodiu ali duas vezes, seis meses antes da sua chegada à cena). Nem uma palavra sobre o facto, e nenhuma conjetura sobre os seus possíveis efeitos na marcha da humanidade. Obstinado, recusava-se  levar a ciência a sério.

O embaixador Franco Nogueira, num discurso proferido durante o almoço no "American Club", em Lisboa, a 20 de janeiro de 1988. Alfredo Cunha / Lusa créditos: © 2012 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

Como compara o estilo de Franco Nogueira com o de outros diplomatas históricos?

Essa é a pergunta! Cada cabeça sua sentença. Diria que não há padrão fixo de excelência diplomática. Alguns fizeram-se notados, mas nem sempre pelos resultados obtidos. Temos os idealistas, como Woodrow Wilson, os ardilosos, como Talleyrand-Périgord, os dotados de sentido organizador, como Richelieu ou Marshall, os estrategas, como George Kennan, Aléxis Léger ou padre António Vieira. A estratégia de Kennan (contenção) acabou com a URSS sem disparar um só tiro; Léger decidiu a Guerra Civil de Espanha sem envolver forças militares francesas; Vieira pôs fim ao domínio espanhol em Portugal com pequeno envolvimento de Forças Armadas na Península e no Brasil.

Franco Nogueira, em oposição à hegemonia mais poderosa que o mundo conheceu até hoje, conseguiu prolongar 13 anos a presença portuguesa em África

E Franco Nogueira?

Franco Nogueira, em oposição à hegemonia mais poderosa que o mundo conheceu até hoje, conseguiu prolongar 13 anos a presença portuguesa em África. Era polémico, adorava debater - o que é salutar para o ego pessoal, mas não resolve nada e tudo agrava no conflito externo. Era prevenido - informou o governo de que teria de usar armas para defender o Ultramar com vinte anos de antecedência sobre o facto - e era teimoso, muito teimoso, o que não ajuda a descobrir o caminho. Porém, sabia como ninguém usar os poucos e frágeis trunfos de que dispunha. A negociação com Kennedy foi um caso exemplar de virtuosismo diplomático.

Que estratégia de guerra adoptou e que resultados alcançou?

  guerras que estão decididas antes de começar. A Guerra do Ultramar (ou dos Treze Anos, como prefira) terá sido uma delas.  Segundo Mao Tsé-Tung, mestre incontestável em matéria de guerrilha, perde a guerra a facção cujos "objetivos políticos estão em discordância com as aspirações do povo local, o que a impede de conquistar a simpatia, boa-vontade, cooperação e ajuda das populações". No entanto, a avaliar pelos métodos que Mao empregou - postos a claro por Jung Chang no livro "Mao, História Desconhecida" - constata-se que o campeão da insurgência falava de amor mas pensava em temor: o que ele queria dizer é que na guerrilha ganha aquele que mostrar maior capacidade de exigir sofrimento às populações locais. Os portugueses  estavam mal colocados para tal competição: tinham capacidade defensiva, mas não estavam preparados para aterrorizar e, das raras vezes que o tentaram, saíram-se mal.  À altura em que a UPA lançou o seu ataque contra ao colonos portugueses radicados no Norte de Angola (15 de março de 1961),  a fronteira com o Congo estava desguarnecida e não tínhamos forças preparadas e equipadas para a luta contra a insurgência na selva africana. Nesta matéria, o governo de Salazar incorreu em incúria fatal. Tudo em nome do orçamento.

Aqui, os norte-americanos estavam melhor preparados...

A equipa americana da Nova Fronteira preparou melhor este golpe em Angola do que o da Baía dos Porcos, em Cuba. Aqui, começou pelas conversações em Lisboa entre o Embaixador Elbrick e o ministro da Defesa português, Botelho Moniz. Que se tornou visitante inusitado, mas frequente, da residência do embaixador americano e, em simultâneo, ia resistindo às solicitações do chefe do governo português para enviar tropas para Angola, sob o pretexto de que seria necessário formular uma solução política para o Ultramar português. Foi isso que deu tempo para Holden Roberto mobilizar e treinar os seus terroristas. O golpe da UPA, ainda que posteriormente, reprimido foi fatal. Demonstrada a capacidade de infligir o terror, o terrorismo depois medra naturalmente.

Franco Nogueira explorou várias vias africanas, mas não encontrou nada de relevante, e só nos Açores foi encontrar o potencial geopolítico que faltava ao Ultramar: a Base Aérea das Lajes

Qual era a situação quando Franco Nogueira assumiu os Negócios Estrangeiros?

Quando Franco Nogueira assumiu o comando da Política Externa, em maio de 1961, defrontou -se com a irrelevância geopolítica do nosso Ultramar no contexto da Guerra Fria. O argumento anti-comunista que Salazar tanto usou não impressionava os entendidos, e acabou por se tornar contraproducente. Franco Nogueira explorou várias vias africanas, mas não encontrou nada de relevante, e só nos Açores foi encontrar o potencial geopolítico que faltava ao Ultramar: a Base Aérea das Lajes - aquilo a que o descomedido J.K. Galbraith [economista e diplomata] chamou uma centena de metros de asfalto no meio do Atlântico - e que seria o fundamento real da sua estratégia. E conseguiu indispor o Pentágono contra a Casa Branca.

Dez anos depois continuava a defender a guerra...

Já ia no nono ano de guerra. Franco Nogueira sentiu que Marcello Caetano vacilava na matéria e decidiu escrever novo livro para lembrar que não havia alternativa. Teríamos que continuar a luta até uma das partes cair por terra. O livro "As Crises e os Homens" foi publicado em finais de 1971. Nunes Barata, diplomata então a servir como capitão miliciano e temporariamente chefe de gabinete de Spínola, emprestou-lhe o livro. Terminada a leitura, Spínola devolveu-lhe o livro e afirmou irritado: "Este livro pede resposta e rápida". Formou-se um grupo de redatores que deram corpo à ideia de Spínola de que haveria alternativa: a federação. O livro resposta de Spínola, "Portugal e o Futuro", viria a ser publicado em fevereiro de 74, já então Spínola era vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. Quase imediatamente vende 50 mil exemplares, batendo todos os recordes da indústria livreira nacional. Spínola  voltou a defender a ideia de Botelho Moniz - a solução para o Ultramar seria de cunho político e não militar. Estava lançada a semente. O 25/04 veio dois meses depois.

Em 1961 o país aplaudiu unanime e entusiasticamente a decisão do "para Angola, rápido e em força". Em 1974, o mesmo país aplaudiu a decisão para Lisboa rápido e em força.

Como viu ele o fim do Império?

Certamente que não com bons olhos. Franco Nogueira afirma na entrevista que concedeu a Maria João Avillez, publicada pelo Expresso em 1977, que "Portugal não podia render-se sem luta". No "não pode render-se" não cabe a esperança de reter o Império, mas apenas a esperança de uma boa morte. No "sem luta" cabe a ideia grega de os que  morrem lutando viverão para todo o sempre, pois que perdurarão na memória dos vindouros. Depreende-se que entendia que uma nação só sobrevive se tiver orgulho na sua história. A luta valeu a pena? No que nos toca, valeu. Em 1961 o país aplaudiu unanime e entusiasticamente a decisão do "para Angola, rápido e em força". Em 1974, o mesmo país aplaudiu a decisão para Lisboa rápido e em força. Lá entendia que "Angola é nossa e querem roubá-la". Treze anos depois, o sodado português constatava que "não éramos dali". E não éramos. Foram precisos treze anos de luta para que o povo compreendesse que o ter não faz o ser.  A decisão, num caso e noutro - a de reter e a de abandonar - foi subscrita conscientemente pelo povo, aspeto importante e que permitiu, após o embate violento, reconstruir  a nação e encontrar um destino conforme à sua índole euro-atlântica. Confesso que não sei se os que morrem lutando viverão para todo o sempre, mas sei com certeza que os que lutaram para preservar uma memória colectiva, esses viveram.

Voltou a encontrar Franco Nogueira depois do 25 de Abril? Se sim, em que circunstâncias?

Sim. Numa breve passagem minha por Londres, em 1976, tive conhecimento do seu paradeiro e fui visitá-lo. Recebeu-me num pequeno gabinete de trabalho, em Chelsea, cercado de livros e papelada. Lembro-me que tinha uma janela sobre um jardim com arvoredo. Ele estava visivelmente envolvido na produção de um dos seus livros. Ficou intrigado com a visita. Fez perguntas de orientação até concluir que se tratava de um acto de cortesia, uma manifestação de camaradagem por parte de um velho companheiro de estrada. Voltei a vê-lo num dos famosos churrascos do professor Ernesto da Cal, mas aí quem falava era o Ernesto. Não só era um grelhador nato, como um conversador fascinante.

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