"Renovou o fado e o preparou para o futuro"

O primeiro-ministro recorda Carlos do Carmo como um "notável fadista, que o público, a crítica e um Grammy consagraram".

Numa sequência de tweets, António Costa diz ainda que o fadista "renovou o fado e o preparou para o futuro".

Com um percurso político ao PCP, Carlos do Carmo foi mandatário de António Costa na campanha de 2009 para a Câmara Municipal de Lisboa e participou igualmente num almoço de campanha do PS nas legislativas de 2015, em que recusou definir-se como simpatizante socialista, dizendo antes ser um apoiante de Costa.

“Por detrás de uma grande figura da cultura estava um grande homem"

O Presidente da República reagiu hoje com um sentimento “de perda” à notícia da morte do fadista Carlos do Carmo, que recordou como “uma grande figura da cultura” e também como “um grande homem”.

Em declarações à RTP, Marcelo Rebelo de Sousa disse ter recebido esta notícia com uma reação idêntica “à de todos os portugueses”, “uma reação de perda”.

“Perda por aquilo que Carlos do Carmo fez pela consagração do fado como património imaterial da Humanidade, mas também pelo que deu como voz de Portugal cá dentro e lá fora junto das comunidades portuguesas, prestigiando não apenas o fado, mas a nossa cultura”, destacou.

O chefe de Estado realçou ainda que Carlos do Carmo foi “uma voz” na luta pela liberdade nos tempos da ditadura e na transição para a democracia.

“Por detrás de uma grande figura da cultura estava um grande homem, com uma grande riqueza pessoal, uma sensibilidade e uma intuição e identificação com o povo português que o povo português não esquece”, acrescentou.

O Presidente da República considerou que a morte de Carlos do Carmo, no primeiro dia de 2021, “um dia que devia ser de esperança”, não pode ser encarada “com desesperança”, mas como uma homenagem a alguém que “nunca perdia a esperança”.

“Nome ímpar” no fado e luta pela liberdade

O presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, manifestou hoje o seu pesar pela morte do fadista Carlos do Carmo, que recordou como “um nome ímpar” do fado e como “figura relevante” na luta pela liberdade.

Numa mensagem de pesar, a segunda figura do Estado recordou também um “amigo de mais de 60 anos” e a personalidade marcante de Carlos do Carmo, “que não deixava indiferente quem com ele convivia”.

“Carlos do Carmo é, inquestionavelmente, um nome ímpar do fado e figura incontornável do meio artístico e da canção portuguesa, numa carreira de décadas que perdurará na memória de todos nós”, refere.

O presidente da Assembleia da República destacou o seu papel relevante “na luta pela Liberdade e na construção do país de Abril, em que tanto se empenhou”.

“Hoje é um dia de grande tristeza pessoal. À família, nomeadamente à mulher Judite e aos filhos e netos, e aos muitos amigos, quero transmitir, em meu nome e em nome da Assembleia da República, a expressão do mais sentido pesar pelo falecimento de Carlos do Carmo”, refere a nota.

"Um homem com um "H" muito grande, muito grande"

"[Esta notícia] foi um choque muito grande. Conheço o Carlos do Carmo desde sempre, éramos muito amigos... É difícil lidar [com esta notícia]. Era uma grande referência do fado - e para mim continua a ser. Foi um grande amigo, uma pessoa que me ajudou imenso e que acreditou em mim e esteve sempre ao meu lado", disse Camané, ao telefone, para a RTP3.

"Lembro-me de os meus pais me levarem ao Faia quando eu tinha dez anos... E a partir daí, aos poucos, fomo-nos aproximando, eu comecei a cantar... " lembra o  fadista.

Camané recorda ainda Carlos do Carmo como um homem com "imensa graça, muito inteligente, muito culto". "Um homem com um "H" muito grande, muito grande", acrescenta.

"Ao longo da vida há imensos momentos engraçados, momentos incríveis, em que ele, com a sua graça e a sua inteligência, me foi surpreendendo. Artisticamente, com os espetáculos que ele dava, a forma como ele cantava, a forma como ele conseguia chegar às pessoas, o sentido da palavra... Quando ele estava em cima do palco, não havia um momento de "exibição" quando ele cantava. Era tudo por dentro do texto, uma coisa que só os grandes intérpretes do mundo conseguem fazer".

"Portugal perde uma figura ímpar da cultura - é um facto - e eu perco um grande amigo"

"Esta era uma notícia com a qual eu não queria acordar, nem agora nem nunca", começou por dizer Simone de Oliveira, também à RTP3.

"Para além da morte do cantor, é a morte de um grande amigo, com quem eu convivi a vida toda. Era um cantor extraordinário, um homem a quem os poetas devem muito - ele tentou trazer para o fado os grandes poetas da nossa língua. É uma personalidade que se perde. É tão difícil falar do Carlos do Carmo sem que uma pessoa fique sem vontade de dizer nada".

"Dele lembro-me, sobretudo, das gargalhadas na Costa da Caparica, onde ele tinha uma casa, onde passámos um pelo outro. Portugal perde uma figura ímpar da cultura - é um facto - e eu perco um grande amigo", disse a cantora à estação pública.

“Bom amigo, homem generoso, inteligente"

Mariza, em declarações à agência Lusa, recordou o apoio de Carlos do Carmo à sua carreira, afirmando que tinha sido seu "mestre sem o saber", logo no início do seu percurso.

"Ele chamava-me para junto do seu abraço", disse a fadista, que se encontra atualmente no Brasil.

A fadista, que partilhou vários palcos com Carlos do Carmo, nomeadamente o do Royal Albert Hall, em Londres, disse à agência Lusa que o fadista "teria a ideia de deixar, para o fado, pessoas bem preparadas, com conhecimento musical".

Mariza realçou "as escolhas inteligentes" de Carlos do Carmo ao longo da sua carreira de mais de 50 anos, e o cuidado no repertório.

"Sempre achei que, ao mesmo tempo que é 'fadista de gema', ele é mais do que isso, é um cantor. Não é um fadista característico, como o [Alfredo] Marceneiro, é alguém com outro tipo de formação e que renovou dentro do fado e tem um papel absolutamente fulcral", afirmou.

"Continua a falar-nos, nestas manhãs e nas que hão-de vir"

A líder bloquista escreve, no Twitter, que "em manhãs como esta, na casa dos meus avós, no gira-discos estaria “Um Homem na Cidade”".

Catarina Martins recorda ainda a voz de Carlos do Carmo como "aquela extraordinária voz que canta como quem simplesmente conversa".

"É um primeiro dia que vai deixar muita saudade"

"Aquilo que com o Carlos do Carmo aprendi ditou muitas das minhas decisões no fado e na vida", escreve Carminho no Instagram.

A fadista diz ainda que hoje "é um primeiro dia que vai deixar muita saudade".

"Tinha atrás dele toda a história do Fado, mas ao mesmo tempo era um homem que olhava para o presente"

Nuno Júdice, autor de “Fado à Noite” e “Lisboa Oxalá”, temas incluídos no álbum “À Noite”, de Carlos do Carmo, editado em 2008, fala num “respeito absoluto” que o fadista tinha “pela poesia, pela língua e, depois, pela tradição, o Fado”. “Ele foi buscar essas formas tradicionais do fado português e foi capaz de as renovar e atualizar de uma maneira perfeita”, afirmou, em declarações à Lusa.

Nuno Júdice recordou um “amigo”, cujas “conversas eram sempre fascinantes”. “Tinha atrás dele toda a história do Fado, mas ao mesmo tempo era um homem que olhava para o presente e muito atento à realidade do país e do mundo”, afirmou.

Enquanto artista, cantor, o que fascinava o poeta “era a forma como [Carlos do Carmo] dizia o poema”.

“Ele próprio, quando me pediu para escrever dois fados para ele, me disse para ter muita atenção à palavra, porque a voz dele respeitava integralmente cada sílaba. Nós ouvimos, quando ele canta, toda a frase poética que está na canção”, disse.

Foi com Carlos do Carmo que Nuno Júdice aprendeu “a escrever poesia para ser cantada”: “Porque ele me dizia para estar muito atento, não apenas à melodia da própria língua, mas à métrica, à forma como os acentos têm de estar localizados para que não haja nenhuma traição quando [se] está a cantar”.

Os dois poemas que Nuno Júdice escreveu para Carlos do Carmo, que deram origem aos temas “Fado à Noite” e “Lisboa Oxalá”, “foram trabalhados com” o fadista.

“E não houve muito a alterar, mas percebi que ele me estava de certo modo a ensinar, mas de uma forma muito discreta, sem estar a impor de maneira nenhuma a sua forma. Aquilo que ele queria era que eu estivesse à vontade para fazer essas pequenas alterações, que foram coisas mínimas, mas que faziam com que a métrica se adaptasse perfeitamente àquilo que a voz dele pretendia”, recordou.

"O grande profissional"

O músico salientou "o bom gosto musical" do fadista e "o cuidado com a escolha de repertório".

António Chaínho, em declarações à agência Lusa, referiu o gosto que o fadista tinha pelo cantor norte-americano Frank Sinatra, "cuja atitude em palco seguia de certa forma".

Chaínho contou que recentemente tinha falado com Carlos do Carmo. "Tenho o coração todo partido", afirmou.

O guitarrista acompanhou Carlos do Carmo até 1991, tendo participado nas gravações dos seus álbuns "Homem na Cidade" e "Homem no País" e em várias digressões internacionais.

À Lusa recordou o espetáculo em Bordéus, França, onde o músico teve um acidente e partiu "várias costelas".

"Foi mesmo a terminar o espetáculo, estava a cantar 'Lisboa, Menina e Moça', e, mesmo depois da queda, fez questão de fechar o espetáculo", recordou.

"Lisboa, menina e moça acordou hoje mais triste"

No Twitter, a Marinha portuguesa recorda o tema "Lisboa Menina e Moça", de 1976, e escreve que a cidade "acordou hoje mais triste".

Desapareceu "o mais jovem de todos os fadistas"

O cantor e compositor Fernando Tordo lamentou hoje a morte de Carlos do Carmo, considerando que desapareceu "o mais jovem de todos os fadistas" com quem manteve 50 anos de amizade.

"Com este infeliz acontecimento desaparece o grande responsável pela transformação, pela modificação da autoria e da composição para fado", disse Fernando Tordo à agência Lusa.

Para Fernando Tordo, Carlos do Carmo - para quem compôs a primeiro tema em 1970 - desde o início "procurou, junto daqueles que na altura eram os mais jovens compositores portugueses, a transformação".

"Hoje desaparece essa pessoa, que terá sido o mais jovem de todos os fadistas. É uma perda muito grande", disse.

Tordo que, segundo disse, por "contingências da vida", não tinha contacto com Carlos do Carmo há alguns anos, endereçou condolências à família do fadista, adiantando que a sua morte lhe trouxe "imediatamente à memória 50 anos de amizade".

Casas de Fado lamentam perda de “uma das grandes figuras do fado e da sua renovação”

A Associação das Casas de Fado de Lisboa recorda Carlos do Carmo, que morreu hoje aos 81 anos, como "uma das grandes figuras do fado e da sua renovação".

Carlos do Carmo foi "capaz de acrescentar sem desvirtuar, deu ao fado dimensão e dignidade", lê-se numa nota de pesar enviada à agência Lusa.

A associação recorda que o fadista "esteve à frente dos destinos da casa de fados 'O Faia'", no Bairro Alto, em Lisboa, à qual esteve ligado desde a década de 1960 até à de 1980, "deixando também aí a sua marca, de tal modo que, até aos dias de hoje, ainda eram habituais os contactos de clientes perguntando por ele".

Carlos do Carmo "é uma figura maior do fado e da cultura do nosso país", remata a associação.

A casa de fados 'O Faia', no Bairro Alto, em Lisboa, fundada pelos pais de Carlos do Carmo, em 1947, na sua página na rede social "Facebook", escreveu que "2021 amanheceu sem charme, triste e mais pobre", numa referência à morte hoje do fadista Carlos do Carmo aos 81 anos.

"Carlos do Carmo deixa-nos a sua marca em tanto que fez no fado e fora do fado", acrescenta.

"N' O Faia, continuaremos, como sempre, gratos pelo legado, pelos alicerces que deixou, pelo respeito do que é a essência de uma casa de fados".

Afirmando que "esta era a notícia que não queríamos no começo do novo ano", O Faia despede-se do fadista da seguinte forma: "Até sempre Charmoso", numa referência ao termo como Carlos do Carmo era muitas vezes carinhosamente referido no meio fadista.

A Parreinha de Alfama, por seu turno, afirma que Carlos do Carmo era um "fadista de alma inteira", e uma "determinante figura na renovação do fado".

"Arriscou e inovou. O fado ganhou tamanho e novas referências sem nunca perder a matriz", lê-se no comunicado da casa de fados dirigida a partir de 1952 pela fadista Argentina Santos (1926-2019), a quem Carlos do Carmo se referia como: "a minha menina".

"Frequentador assíduo da Parreirinha, foi amigo pessoal de Argentina Santos", assinala.

"O fado perdeu uma importante e fundamental referência", remata a Parreinha de Alfama, atualmente dirigida pelos músicos Bruno Costa e Paulo Valentim.

O Clube de Fado, também no bairro lisboeta de Alfama, na sua página no "Facebook" em forma de homenagem colocou uma fotografia do fadista acompanhada do o poema "Um Homem na Cidade", de José Carlos Ary dos Santos, que José Luís Tinoco musicou para a voz de Carlos do Carmo.

"Meu grande amigo! Vais deixar saudades! Já tenho saudades!

José Cid, o segundo músico português distinguido com um Grammy Latino de carreira, depois de Carlos do Carmo, escolheu também o Facebook para expressar a perda: "Meu grande amigo! Vais deixar saudades! Já tenho saudades! Estás sempre presente! Adeus amigo! Até ao dia em que nos encontrarmos de novo no Além!"

"Sortudos eles que beberão da tua voz que sempre lhes pertenceu"

No Facebook, Pedro Abrunhosa dirige-se diretamente ao cantor: "Agora, no dealbar da esperança, decidiste ir trovar aos deuses. Sortudos eles que beberão da tua voz que sempre lhes pertenceu (...). Das nossas noites em átrios de hotel, camarins ou na poltrona de tua casa fica-me a sensação de um Fado inacabado onde a tua voz ressoa como deve a voz de um Deus verdadeiro. Agradeço as janelas que deixaste abertas para que outros como eu possam admirar como estão belas as ruas, como o Campo Grande refulge do teu eco".

"Despedimo-nos com especial carinho, como quem vai partir para uma viagem longa"

"Para comigo, depressa se tornou numa espécie de irmão mais velho, e criámos laços de uma cumplicidade tácita que não posso exprimir por palavras. Conversávamos muito sobre Fado, evidentemente, e trocávamos entre nós as lições da sua experiência e os resultados da minha pesquisa com a alegria de um percurso fascinante partilhado entre amigos. E falávamos de muitas mais coisas, públicas e privadas, ora políticas ora familiares, de alegrias e tristezas, com uma abertura e uma honestidade raras. Falei com ele pelo telefone pela última vez nesta véspera de Natal passada, e foi uma longa conversa sobre muitos dos nossos temas habituais, mas em que ele fez questão de me descrever com uma serenidade dura a gravidade do seu estado de saúde e de deixar bem implícita a previsão, muito lúcida, da possibilidade de um fim iminente. Quanto tentei contrariá-lo com os lugares comuns de falso optimismo de circunstância que nos ocorrem em momentos destes cortou-me a palavra com um "tu sabes bem do que estou a falar" de quem esperava mais de mim. Despedimo-nos com especial carinho, como quem vai partir para uma viagem longa. Quando hoje acordei, com a intenção de lhe voltar a ligar, esperava-me a notícia de que, afinal, tinha mesmo partido", escreveu Rui Vieira Nery, musicólogo e professor universitário num longo texto de despedida na rede social Facebook onde não só recorda a ligação pessoal com o fadista, como a importância de Carlos do Carmo para o género e o seu papel principal na candidatura do Fado a Património Imaterial da UNESCO.

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