“A foto, mas também o vídeo, que foram usados” pelo movimento terrorista para reclamar o crédito do ataque, representam um cenário que “não foi em Palma, foi em Mocímboa da Praia”, disse a investigadora da ACLED - Armed Conflict Location and Event Data Project, uma organização não governamental especializada na recolha, análise e mapeamento de dados relativos a conflitos.

Segundo Opperman, “este ataque foi oferecido ao EI” pelos insurgentes em Moçambique.

A agência noticiosa AMAQ, alinhada com o Estado Islâmico, emitiu uma declaração em 29 de março, afirmando que o EI tinha atacado Palma, destruído escritórios governamentais e assaltado bancos, divulgando uma fotografia e um vídeo.

Jasmine Oppermam diz que “a reivindicação do crédito não é falsa. Mas esta é uma reivindicação simulada, como vimos sempre, com o mesmo formato, a mesma linguagem, o mesmo estilo narrativo” e o que este incidente mostra é que “tem havido comunicações [entre os insurgentes em Cabo Delgado] e o Estado Islâmico”.

O EI usou este ataque seguindo a “estratégia” que tem para a sua “campanha de propaganda de expansão global, à semelhança de 45 reivindicações de crédito anteriores. O EI tem os olhos em Cabo Delgado, isso não pode ser ignorado, mas temos que fazer uma análise equilibrada”, afirma a investigadora.

“De um total de 45 reivindicações de crédito, desde 2019, nunca conseguimos ligar uma reivindicação a um incidente específico, como apresentada na reivindicação do crédito. Foram incidentes que aconteceram, sim, mas o único que foge a este padrão é aquele em que [o EI] reclama ter morto soldados tanzanianos [em outubro, em Mocímboa da Praia]. Esse mantém-se um mistério”, descreveu Opperman.

Porém, sublinhou, “o facto de saberem que [os ataques] acontecem, de saberem quem participou, é uma indicação clara de que há pessoas a comunicar com o Estado Islâmico e a alimentar a sua máquina de propaganda”.

“Temos que analisar a estratégia de expansão global do EI. Eles estão a usar [insurgências] locais, e ainda que no início seja apenas propaganda, apenas precisam de tempo para que a sua narrativa extremista se imponha nesse contexto local”, explicou a investigadora.

Agora, daí a “afirmar que o EI está neste momento em posição de assumir a liderança, de liderar a insurgência [em Cabo Delgado], está por se provar”, acrescenta.

“Isso, claramente, não foi o que aconteceu em Cabo Delgado. Mesmo se olharmos para o vídeo de Mocímboa da Praia, vemos combatentes com fitas vermelhas na cabeça, vemos combatentes vestidos de forma que não é típica dos combatentes do EI, não vemos a bandeira negra do EI a ser agitada por qualquer um destes combatentes, não ouvimos a sua música”, descreveu Opperman.

A investigadora considera que “a impressão digital” do EI, está ainda numa “fase evolutiva” em Cabo Delgado. “Por agora, apenas está a usar estes ataques e a ajustar a narrativa destes ataques à sua propaganda”, mas está a ter várias ajudas para ganhar cada vez mais força, tanto por parte do Governo de Maputo como por atores internacionais.

O Departamento de Estado norte-americano considerou no início do mês passado o grupo Al Ansar al-Sunna, conhecido como al-Shabaab em Moçambique, como afiliado do Estado Islâmico. “Não questiono as informações de que dispõem, mas tenho um problema com a estratégia adotada… Divulgar esta designação, nesta altura, ajudou o Estado Islâmico a reativar esforços e reconcentrar o foco em Cabo Delgado”, afirmou.

Opperman sugere que se tente perceber em que “fase evolutiva se encontra esta insurgência” e oferece algumas pistas: “Se olharmos com atenção para o vídeo, vemos claramente que há pessoas brancas entre os insurgentes” e, desde logo, isso permite perceber que “restringir o al-Sunna (Ansar al-Sunna) a Cabo Delgado seria ingénuo”.

“A ocupação sustentada de Mocímboa da Praia e as táticas usadas em Palma mostram claramente um refinamento das táticas de guerrilha. Portanto, o que estamos a ver é uma tática não oriunda de Cabo Delgado. Tem que ter havido treino por estrangeiros com vasta experiência neste tipo de guerra”, afirmou a investigadora.

Por outro lado, afirmou ainda, “o envolvimento da Tanzânia e de tanzanianos na insurgência não deve ser subestimada. Os efetivos do al-Sunna são, na maioria, locais, mas o papel e a participação dos estrangeiros na insurgência têm vindo a ganhar força”, acusou.

A ocupação de Mocímboa da Praia por um período tão alargado, “ofereceu a oportunidade ideal” para recrutamento e treino, considera Opperman.

Quanto à al-Shabaab, ou Ansar al-Sunna, este grupo mantém-se focado em queixas e descontentamento de caráter “local”, segundo a investigadora, utilizando uma “narrativa extremista”, mas “própria de Cabo Delgado, não ligada à al-Qaeda nem ao Estado Islâmico”.

Mas “não podemos ignorar a realidade em Cabo Delgado nem a tentativa do EI tomar partido dessa realidade. Há dinâmicas em jogo dentro da insurgência, mas quero deixar claro que, em termos da maioria dos líderes da insurgência são ainda predominantemente de Cabo Delgado”, afirmou.

O EI, segundo Opperman, tem aprendido com os erros, “viu o califado implodir”, e agora a estratégia passa sobretudo por “criar áreas de ingovernabilidade” nas regiões onde pode ter influência.

Quanto ao Ansar al-Sunna, a investigadora pensa que se encontra numa fase em que tenta “implementar ou importar uma identidade associada à narrativa extremista, mas a brutalidade e destruição total e a morte indiscriminada de civis confunde o debate e levanta questões sobre os seus objetivos”.

“É um movimento secessionista? Não, em definitivo. Não há qualquer declaração neste sentido. É uma narrativa extremista que tenta implementar um modo de vida islâmico mais ‘puro’? Penso que isto é mais provável (…), mas não consigo dar uma resposta objetiva sobre o propósito desta insurgência”, admitiu.

O facto, sublinhou finalmente, é que a insurgência em Cabo Delgado ganhou “imensa força”. E “penso que o Governo de Maputo tem alguma responsabilidade nisto, com a relutância em alterar a sua posição, permitindo à insurgência crescer, manter e mesmo aumentar a sua força”.

A investigadora da ACLED considera que a principal prioridade nesta fase é a “estabilidade”, mas acrescenta que “é preciso quebrar o ímpeto da insurgência, Como? As forças de segurança do Governo moçambicano não são capazes de fazer isso. Estamos a dizer isto há dois para três anos, essa incapacidade tem sido exposta uma e outra vez”.

Daí que Opperman sustente que deve ser criada uma “estrutura de comando centralizada, que lidere uma força internacional e regional em Cabo Delgado, com forças terrestres, aéreas e navais, e com uma estratégia de execução coerente”.

“Penso que não criará um volte-face imediato, mas terá um impacto massivo no congelamento da insurgência. Esse comando deverá contar com apoio claro do Governo, que depois deve intervir localmente com a satisfação das necessidades e exigências das populações de Cabo Delgado. Essa é a única solução, não há outra maneira”, concluiu.

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