A notícia foi avançada por José Cesário, antigo secretário de Estado das Comunidades e da Administração Local, no Facebook. Na publicação, José Cesário refere que o artista morreu esta madrugada e sublinhou que o país "ficou mais pobre" com o seu desaparecimento.

Em declarações à Lusa, o atual secretário de Estado das Comunidades Portuguesas recordou uma conversa que teve recentemente com o cantor, que lhe contou o seu percurso de vida. Para José Luís Carneiro, a história de vida de Roberto Leal revela um homem determinado que viveu o preconceito quando chegou ao Brasil, tendo conseguido impor-se.

“Conseguiu afirmar-se pelo seu mérito e trabalho e ganhar respeito da comunidade brasileira e o respeito e admiração de muitos portugueses de diferentes gerações que estão atentos à sua criação cultural e artística”, disse.

José Luís Carneiro considera que Roberto Leal é um símbolo de uma geração de portugueses que saíram do país na década de 50 e 60, viveram muitas dificuldades e conseguiram vencer o preconceito tornando-se um exemplo em vários planos. O secretário de Estado disse ainda ter apresentado as condolências do governo português à família do cantor, que considera ser “um símbolo para os que passaram as mesmas dificuldades e conseguiram vencer todos os obstáculos”.

O artista português, conhecido pelos êxitos "Arrebita" e "Uma Casa Portuguesa", lutava contra um cancro da pele há cerca de dois anos e que havia perdido parte da visão devido a "duas cataratas". A doença foi confirmada pelo próprio em janeiro de deste ano numa entrevista a um canal brasileiro.

Segundo o site brasileiro AreaVip, o cantor deu entrada no hospital esta quarta-feira, 11 de setembro, após ter sofrido uma queda.

O velório do cantor vai decorrer esta segunda-feira, na Casa de Portugal, na região central de São Paulo, no Brasil, a partir das 07:00 (11:00 em Lisboa), segundo o Jornal Folha de S. Paulo. Segundo o jornal brasileiro, o velório decorre até às 14:00 e o funeral está marcado para as 15 horas, no Cemitério Congonhas, na zona sul de São Paulo.

Ainda segundo o Folha de S. Paulo, que cita o empresário do cantor, Roberto Leal estava internado desde o dia 9 de setembro e teve falência múltipla de órgãos.

Roberto Leal era considerado um dos embaixadores da música e da cultura portuguesa no Brasil, onde vivia atualmente.

Em 2018,, convidado do programa "Agora Nós", da RTP, Roberto Leal recebeu uma mensagem de apoio do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa.

"Queria neste momento saudar com um grande abraço de amizade, acompanhando um período um pouco mais difícil na vida. Sobretudo saudar o papel ao longo de tantos anos na projeção da língua portuguesa, na projeção daquilo que é a música portuguesa e na ligação às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, em particular à ligação às comunidades brasileiras", disse Marcelo.

"Brasuca lusitano, portuga tropical"

No Brasil sou português
E em Portugal sou brasileiro
Lá eu toco guitarra
E aqui em toco pandeiro

(...)
Brasuca lusitano
Portuga tropical

Estes são versos do tema "Português-brasileiro", canção bandeira de Roberto Leal.

O cantor nasceu em Vale da Porca, concelho de Macedo de Cavaleiros, a 27 de novembro de 1951. Aos onze anos emigrou para o Brasil, juntamente com os pais e nove irmãos. Foi em São Paulo, após trabalhar como sapateiro e vendedor de doces, que iniciou a carreira de cantor, primeiro de de fados e depois de músicas românticas.

Foi em 1971 e com o tema "Arrebita", conhecido pelo seu refrão "Ai cachopa, se tu queres ser bonita, arrebita, arrebita, arrebita", que ganhou popularidade.

Quase todo o seu repertório, que vai buscar influência aos ritmos lusitanos e brasileiros, é composto de canções de sua autoria em parceria com a esposa Márcia Lúcia.

A sua discografia conta com quase meia centena de títulos, o último "Arrebenta a Festa", foi editado em 2016.

Fora dos palcos, em 1978, participou no filme brasileiro "Milagre - O Poder da Fé" e, em 2011, na série portuguesa "Último a Sair". Em 2018 candidatou-se a deputado estadual em São Paulo pelo Partido Trabalhista Brasileiro, não tido sido eleito.

Em 2011 publicou a sua autobiografia "Minhas Montanhas", obra lançada no Brasil e em Portugal.

[Notícia atualizada às 13h43 com as declarações à agência Lusa do secretário de Estado das Comunidades Portuguesas José Luís Carneiro]

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