Bento XVI passou por Lisboa, Fátima e Porto em 2010, naquela que foi a primeira e única visita enquanto Papa a Portugal.

Na capital, o Papa celebrou uma missa na Praça do Comércio, que juntou cerca de 500 mil pessoas, a 11 de maio. Nessa celebração, além do entusiasmo de se receber novamente um Pontífice no país, houve também quem tivesse a oportunidade única de estar realmente perto, durante a missa. É o caso de Teresa, que recebeu a primeira comunhão pelas mãos de Bento XVI.

Já em Fátima, onde se dirigiu para assinalar o 10.º aniversário da beatificação dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, Ratzinger presidiu também a um encontro com 9000 representantes de instituições de solidariedade social, a 13 de maio. Entre todas essas pessoas estavam Carla, com o filho bebé ao colo, com quem Bento XVI brincou, e Madalena, que cantou com os filhos para o Papa.

Nestas três histórias, uma certeza: os breves momentos com Bento XVI são memórias que fazem o retrato de um homem que, dizem, nem sempre foi compreendido e que até sabia sorrir.

Uma primeira comunhão antecipada

A visita do Papa Bento XVI a Portugal trouxe um momento que Teresa Castro não esquece: a oportunidade de receber a primeira comunhão pelas mãos do Santo Padre.

“Desde os meus seis ou sete anos tinha um grande desejo de receber a primeira comunhão. Às vezes na missa metia-me na fila às escondidas da minha mãe, para ver se o padre me dava a graça de poder receber Jesus”, começa por contar ao SAPO24.

Por isso, a mãe de Teresa, ao ver esse “desejo a aumentar cada vez mais”, foi falar com o padre da paróquia da Abóboda, da qual a família fazia parte apesar de viver em São Domingos de Rana, para ver “se dava para antecipar este sacramento”.

Quando as boas notícias chegaram, já havia uma data: 23 de maio de 2010. “Era no dia de anos da minha mãe. E que grande graça! Fiquei toda feliz e continuei a preparar-me para este dia especial que me esperava”, recorda Teresa, que então tinha oito anos.

Mas afinal ainda havia uma reviravolta a considerar. “A certo dia, a minha mãe chega a casa e grita com entusiasmo pelo meu nome e pelo meu irmão Lourenço. ‘Teresinha! Vais receber a primeira comunhão pelas mãos do Santo Padre, do Papa Bento XVI. Vai ser dia 11 de maio’”, conta.

"Segundo me disseram, esta benção não seria possível sem o meu irmão, o padre Marcos, atualmente pároco na Bobadela, que na altura era diácono e estava a terminar os seus estudos no seminário de Penafirme”, confidencia Teresa.

Com essa novidade, Teresa lembra-se de ficar ainda mais entusiasmada com o que a esperava. “Se o meu coração já estava feliz, naquele momento era a rapariga mais feliz do mundo. Além de fazer a comunhão mais cedo, ia receber pelo Papa”.

“Naquele momento senti o grande amor que Jesus tinha comigo, fomos logo agradecer a Nossa Senhora por esta grande graça e pedir para que me preparasse para este grande dia”, conta.

Até que chegou o dia 11 de maio e o grande momento, na missa presidida por Bento XVI em Lisboa.

“Fui vestida de noiva, pois ia unir-me com Nosso Senhor. Quando estava a subir o palco provisório no Terreiro do Paço, disseram-me que tinha de fazer a comunhão de joelhos, com as mãos juntas e na boca. Lembro-me como se fosse ontem do olhar do Papa ao dar-me a comunhão, um ar sereno e feliz que me tranquilizou a alma e que aumentou a minha emoção ao receber este sacramento”, relembra Teresa.

Contudo, não foi a única da família a ter a oportunidade de estar perto de Bento XVI. Além de Teresa, também os pais e mais seis dos 12 irmãos de Teresa comungaram nessa celebração pelas mãos do Papa.

Agora, passados estes anos e a morte de Bento XVI, fica a lembrança de uma “grande graça”, num dia que guarda na memória “com muito carinho”.

créditos: Fotografia cedida por Teresa Castro

Tocar as mãos de um santo

Já Carla Rocha esteve com Bento XVI em Fátima, em maio de 2010, no encontro com as Associações da Pastoral Social. Mas não estava sozinha: ao seu lado tinha o marido, Jorge, e ao colo o filho de 11 meses, Francisco Maria.

“Era o único bebé que estava na igreja da Santíssima Trindade em Fátima, porque não era possível levar crianças para aquele momento. Mas nós não tínhamos onde o deixar, por isso permitiram que fosse connosco”, começa por recordar ao SAPO24.

E se um encontro com o Papa já era motivo de alegria, tudo se acentuou quando perceberam onde ficariam sentados. “Quando entrámos na igreja fomos encaminhados para os lugares e ficámos mesmo na ponta do banco ao lado do corredor”, refere Carla.

“Ao entrar, o Santo Padre não nos viu, mas o seu secretário, ao ver a forma efusiva como chamámos por ele, disse-nos que ao sair ele estaria connosco”, aponta.

Porém, nunca pensaram que tal acontecesse realmente. "Decorreram as cerimónias e confesso que pensávamos que já ninguém se lembraria do nosso pedido, mas o cortejo começou a encaminhar-se para a saída e qual não foi o nosso espanto quando vimos os seguranças a colocarem-se perto de nós”, relembra Carla.

“Em segundos, Sua Santidade estava ao pé de nós. Ficámos colados ao chão, a emoção tomou conta de nós. Foi um momento muito especial, o sorriso aberto que o Papa tinha naquele momento era uma coisa nova para nós. Brincou uns segundos com o Francisco e abençoou-o. Nunca nos esqueceremos desse dia”, garante.

Além das fotografias em que aparecem, para a história fica também a pequenina camisola que Francisco usou, onde se podia ler “Papa Bento XVI Portugal 2010”, que a família guarda com o carinho, juntamente com outras peças associadas ao Pontífice.

Para Carla, marca-a também o facto de ter tocado em Bento XVI. “Tenho a certeza que toquei as mãos de um Santo”, começa por dizer.

“É uma sensação que não sei explicar, mas confesso que na altura só pensava ‘eu estive de mão dada com o Papa, ele estava a rir-se tanto, estava tão feliz em Fátima’. Com o passar do tempo comecei a pensar que ele poderia um dia ser santo, isso vinha-me de vez em quando à ideia. E agora com a sua partida tenho a certeza que o será e que não levará muito tempo”, refere.

“Temos visto a quantidade de gente que lá passa na Basílica, não é um Papa tão mal amado como se dizia. No meu caso, confesso que desde Fátima, em 2010, que ganhei um carinho especial por ele e uma grande admiração”, diz ainda.

créditos: Fotografia cedida por Carla Rocha

Um Papa que cativou pela música

Além de Francisco Maria, outras crianças tiveram autorização para entrar no encontro com o Papa Bento XVI em Fátima, mas para animar o momento através da música.

Madalena Jalles e os quatro filhos, constituindo o grupo “FigoMaduro”, estiveram também na Basílica da Santíssima Trindade. Mas a admiração pelo Papa começou muito antes disso.

“Desde logo, o que mais me surpreendeu sobre o Papa que nos foi anunciado, a 19 de abril de 2005, foi que as duas únicas coisas que teria pedido para levar para os seus novos aposentos teriam sido o seu piano e a sua biblioteca”, diz Madalena ao SAPO24.

“Nunca cheguei a confirmar a fiabilidade desta informação, pois bastava-me o facto de se tratar de um Papa que não prescindia de tocar, apesar de toda a responsabilidade e agenda sobrecarregada que o seu cargo impunha. Cativou-me de imediato”, diz, principalmente por ser uma situação “invulgar”.

Mas as surpresas não ficariam por aí. “O que não sabia, nem poderia supor tão-pouco, era que daí a uns cinco anos, precisamente a 13 de maio de 2010, estaria na sua presença a tocar e a cantar, juntamente com os quatro filhos”, recorda.

“Este encontro — que nos foi proporcionado reter para sempre na nossa memória —, continua a ser uma confirmação, enquanto mãe e pessoa, que o rumo que dei à minha vida e que o que quis para educar os meus filhos fez e continua a fazer sentido”, frisa Madalena.

“A música, e não necessariamente apenas a litúrgica, pode ser fonte de glória a Deus. Tudo ganha um outro sentido quando assim é. Saber que o Papa Bento XVI lhe dava esta importância é confirmar que, também ele, partilhava de que a música é lugar de encontro, oração com Deus”, acrescenta.

Neste sentido, Madalena relembra que “Santo Agostinho terá escrito que ‘cantar é rezar duas vezes’” e que um documento do Papa João Paulo II, para quem a família também teve oportunidade de cantar em 2000, é eco desta realidade.

“A Carta aos Artistas já antes tinha exercido em mim um tal impacto que, após ter ficado viúva aos 37 anos, com quatro filhos, dos 9 meses aos seis anos, me desafiou para um modo de vida supostamente impensável: prestar um serviço à Igreja contribuindo com música de qualidade nas suas mais variadas celebrações”, diz. “E agora [a partir de 2005] tínhamos um Papa músico! Que maravilha!”, exprime.

Com a renúncia de Bento XVI, o Pontífice não foi esquecido pela família. “Recordo-me de há uns anos, já depois de ter renunciado a 11 de fevereiro de 2013, ter manifestado pelo menos diante dos filhos, o desejo de o visitar para lhe cantarmos. Sentia vontade de o reconfortar e acarinhar, tal como uma filha que vê o seu pai ser caluniado e o gostaria de mimar”, refere Madalena.

“Este segundo encontro não chegou a concretizar-se, mas reconforta-nos a oportunidade que tivemos de, no encontro em Fátima, João Maria, o filho mais novo, então com nove anos, em nome da família/grupo lhe entregar um CD com algumas das faixas que, por essa altura, gravávamos em estúdio”, remata.

créditos: Fotografia cedida por Madalena Jalles

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