Ao 77 anos, Nelson Motta já passou por tudo no Brasil: "Golpe militar, 20 anos de ditadura, dois impeachments [destituições], infinitas crises económicas e institucionais". Com Bolsonaro no poder, diz que o "ar tornou-se irrespirável" e mudou-se para o Príncipe Real, em Lisboa, onde "vai ficando".

Adora a capital portuguesa - sente-se envergonhado por não conhecer muito mais de Portugal, que visitou diversas vezes nos últimos 50 anos -, e encanta-o a luz de Lisboa, a história que vê nas ruas da cidade, e que também lembra o Brasil, e ama "o nome das ruas: das Flores, dos Amores, da Esperança, e a sua poesia".

Acusa Jair Bolsonaro, "um mitómano, provavelmente psicopata", de ter dado o golpe de misericórdia no Brasil. Considera-o incompetente, mas diz que é fruto de administrações petistas desastrosas e corruptas", que "levaram o povo a ter horror de governos do Partido dos Trabalhadores".

"O sapo e o escorpião" é um podcast produzido pela MadreMedia que todas as semanas trará a discussão dos temas na agenda política ao SAPO24.

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"Já nem falo da roubalheira alucinante, dos dois maiores escândalos financeiros do Brasil, o "Petrolão" e o "Mensalão", que envolve metade do Partido dos Trabalhadores e metade dos partidos que hoje apoiam Bolsonaro, que são partidos de aluguer, alugam-se para quem pagar mais", explica Nelson Motta.

Depois, "há uma modalidade de políticos a exercer o poder que não rouba, mas são incompetentes", "provocam mais prejuízo que ladrão", considera.

E recorda o almoço oficial em que "Bolsonaro contou a Marcelo piadas sobre os portugueses. Não posso imaginar vergonha maior", diz, para acrescentar que "é preciso que os portugueses não confundam a pessoa que está temporariamente no poder com o resto dos brasileiros, porque nós não somos assim".

Apoia o candidato Ciro Gomes, ministro da Fazenda [Finanças] de Lula, e lamenta não ver nenhuma democracia no mundo a consolidar-se, "pelo contrário". Viveu em Nova Iorque e recorda que metade da população dos Estados Unidos acredita que vai haver uma guerra civil.

Mas o país tem o outro lado, "é um colosso". "Ninguém acreditava no Brasil até 1958, quando ganhou a 'Copa do Mundo', inventou a bossa nova, o cinema novo, a literatura. Foi o ano em que descobriu o futuro, se apaixonou pelo futuro".

E voltamos ao mesmo: "O pior foi de lá para cá, estivemos quase, mas aí, por uma ou outra coisa, como nos jogos de antigamente, volta quatro casas atrás". "A especialidade do Brasil é perder grandes oportunidades", afirma.

Nelson Motta acredita que o que nos une é também o que nos separa: a língua. Separa-nos muitas vezes a língua falada, mas une os dois países a língua escrita. E conta um episódio engraçado, a propósito dos desentendimentos linguísticos, quando certa vez um grupo de músicos portugueses e brasileiros conversava, ele incluído, mas ninguém se entendia. Até que Rui Reininho, dos GNR, põe um ponto final no assunto, com um "let's talk in english, doods".

Diz que "foi a imigração que revolucionou a sociedade brasileira" e tem "orgulho na diversidade de que o país é feito. Afirma que "a música popular é a contribuição que o Brasil dá para a alegria do mundo". E elege as cinco melhores coisas do Brasil e de Portugal.

Nelson Motta, que diz que em Lisboa a sua capacidade de trabalho "dobra". E assim parece: acabou agora o roteiro de um musical sobre a vida de Tom Jobim, que vai ser encenado no segundo semestre de 2023. Já em outubro, "em parceria com Renato Terra", lança uma série de três documentários de 50 minutos sobre Tim Maia, um dos maiores cantores brasileiros de todos os tempos, que vai passar na Globo Play.

Mas há mais. Está a acabar o seu primeiro livro de poesia, "Sexo Oral", nada a ver com poesia erótica, mas sim com a "oralidade das palavras", que também será lançado em podcast, e prepara o relançamento do livro "Noites Tropicais", um clássico da música brasileira, com três novos capítulos e novas fotografias.

Do signo escorpião - "as pessoas ficam logo de pé-atrás, a achar que tem mau feitio, causa um certo medinho e eu gosto", lembra uma teoria de Freud para explicar o que acontece com o seu país: "Arruinado pelo êxito. O Brasil é isso".

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