“Comprei este creme para poder aumentar a minha beleza”, conta Abussete Nota, pedreiro, 24 anos, que ambiciona parecer-se mais com os seus “amigos claros”: diz que quando estiverem juntos a pele poderá ser “compatível”.

O rendimento inconstante obrigou-o, ocasionalmente, a suspender o tratamento da pele, que já dura há três anos, para atender às necessidades básicas do filho recém-nascido.

Mas, em maio, o clareador facial voltou a fazer parte da rotina.

A oferta deste tipo de produtos - proibidos noutros países - fervilha nos mercados locais para responder à procura que é composta sobretudo por consumidores de classe média e baixa.

Há sabonetes, cremes, loções, esfoliantes, pílulas e até injeções destinadas a diminuir a produção de melanina, o pigmento que dá coloração à pele.

São vendidos a preços suficientemente atrativos e acessíveis.

Um frasco de 100 mililitros de clareador custa em média 100 a 120 meticais (cerca de 1,5 euros).

O clareador de pele mais caro e com efeitos rápidos custa em média 1.000 meticais (14,4 euros).

Abussete compra o creme nas barracas do mercado informal 38 Milímetros em Chimoio, capital provincial de Manica, centro do país.

Mas há efeitos secundários: pele mais seca e com “espinhos negros” são por vezes marcas visíveis dos cremes – e, nessas alturas, a autoestima sofre.

Gina Mosse, proprietária de uma banca de ferragens no mercado 38 Milímetros, conta que já usou clareadores, mas os resultados “dependem dos produtos, porque alguns acabam por estragar a pele”.

“Há pessoas que ficam com uma cor de tomate, por causa do abuso de cremes”, exemplifica.

Gina enfrenta ali mesmo ao lado a condenação da amiga vendedora Cândida Paz.

Cândida descreve os cremes como produtos que “dividem a cor de uma mulher: uma parte fica escura, outra fica clara, tipo, de um lado ‘fanta’ e do outro lado ‘coca-cola’”.

São raros os casos em que não há danos colaterais por uso indevido de clareadores de pele, sem prescrição ou acompanhamento médico, explica Ancha Siaca, médica de clínica geral do Hospital Provincial de Chimoio.

O uso indevido ou prolongado de produtos contendo mercúrio, esteroides ou hidroquinona - que reduzem a produção de melanina, mas também provocam danos -, pode ser tóxico e até cancerígeno.

A África do Sul, país vizinho de Moçambique, tem uma das legislações mais duras quanto ao uso de clareadores faciais com hidroquinona e foi o primeiro país do mundo a bani-los.

Seguiram-se o Quénia, Costa do Marfim, Uganda, Gana e o Ruanda, em 2018.

Estudos estimam que a indústria global de produtos para clarear a pele rondava os 4,8 mil milhões de dólares (4,4 mil milhões de euros) em 2017 e que o valor tenha continuado a crescer à custa da procura por parte de consumidores de classe média e baixa, em África e na Ásia.

Artur Semente, vendedor grossista, confirma que a procura é crescente e diz que está pronto para a atender: tem “pelo menos uns 10 ou 12 tipos de pomadas para clarear” a pele e garante que até pode encontrar mais, só não os tem em ‘stock’.

O sociólogo Abílio Mandlate entende que há uma geração presa à ideia de que “a pele clara é sinónimo de beleza”.

Sobre o recurso a estes produtos, considera: “É mau, no sentido de que põe em risco a nossa própria saúde e faz-nos perder a essência daquilo que nós somos: a pele é escura e ponto final”.

O também docente universitário insiste que o sucesso dos clareadores de pele e os riscos para a saúde pública deviam chamar a atenção do Estado moçambicano e levar à restrição do seu uso.

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