Em Março passado, Andrés Sepúlveda revelou ter trabalhado durante quase uma década na América Latina a potenciar diversos usos informáticos para manipular eleições em países como a "Nicarágua, Panamá, Honduras, El Salvador, Colômbia, México, Costa Rica, Guatemala e Venezuela".

A mais complicada foi a eleição vitoriosa de Peña Nieto no México, em 2012. Recebeu 600 mil dólares e "liderou um grupo de hackers que roubaram estratégias das campanhas, manipularam os media sociais e criaram falsas ondas de entusiasmo e de escárnio, e instalaram 'spyware' nas sedes da oposição".

O colombiano começou em 2005 por "pequenos empregos", como alterar sites de campanhas eleitorais ou aceder ilegalmente a listas de doadores de candidatos opositores a quem lhe pagava e está agora preso na Colômbia por "uso de software malicioso, conspiração para cometer crime, violação de dados pessoais e espionagem", tudo relacionado com a eleição presidencial de 2014 neste país.

Sepúlveda afirma ter estado na lista de pagamentos de Juan José Rendón, consultor que assessorou o atual presidente do México, Enrique Peña Nieto, e também o presidente da Colômbia, e Nobel da Paz de 2016, Juan Manuel Santos. Rendón, considerado "um dos 10 melhores consultores políticos do mundo e o melhor da América Latina", nega tê-lo usado para "algo ilegal" ou que alguma vez lhe tenha pago. Afirmou igualmente ter sido contactado pela campanha presidencial de Donald Trump mas recusou por não gostar do presidente eleito.

Mas, como notava a revista Fortune antes das eleições, "há uma grande ressalva nesta história. Rendón tem múltiplas motivações para mentir sobre ser contactado pela campanha Trump, não menos importante a de elevar o seu próprio perfil como operacional. Ele também disse não gostar de Trump possivelmente devido à mesma retórica que levou os latinos americanos a serem contra o candidato. Ligar-se a Trump publicamente poderia ser visto como mais um ato de sabotagem política", pelo que "Rendón deve saber que estar associado a ele poderia prejudicar uma campanha presidencial americana".

As notícias falsas estão fora de controlo

Com ou sem Rendón, a verdade é que a campanha de Trump usou as redes sociais de uma forma excecional, não desmentindo ou criticando as notícias falsas que eram disseminadas.

As notícias falsas (ou "fake news") nas redes sociais são geralmente de dois tipos, mas o objetivo final é o mesmo - a disseminação como sendo notícia verdadeira, para obter uma campanha viral que ajude a denegrir a concorrência. Elas podem ter origem em sites de humor (cujo ideia original é exagerar ou criticar algo mas são aproveitadas em sentido contrário) ou as disponibilizadas em sites de apoiantes a um candidato.

Exemplos pré-eleitorais de notícias falsas falavam de um apoio do Papa a Trump, de um alegado suicídio de um agente federal que estava a investigar Hillary Clinton ou até de ela usar uma outra pessoa como duplo. Há muitas mais e não apenas relacionadas com os EUA, como a (falsa) declaração da NASA considerar alguém como "o melhor presidente no sistema solar".

Na realidade, pouco interessa o que é dito, desde que o recetor esteja disposto a ouvir essa mensagem e a partilhá-la - normalmente sem a ler ou validar a origem - para a sua rede de amigos e contactos nas redes sociais.

"As notícias falsas não são uma realidade nova; serão, aliás, tão ou mais antigas do que as 'novas' que sucessivas gerações sentiram necessidade de fazer circular em comunidades de interesses", só que a Web faz com elas o que "parece talhada para fazer com quase tudo - acelera o ritmo de reprodução", explica Luís António Santos.

Para este docente de comunicação social na Universidade do Minho, existem "duas alterações significativas [que] tornaram esta realidade mais presente nas nossas vidas: por um lado, a maior fragilidade generalizada do jornalismo (que, nos últimos anos, se tornou presa fácil de estratégias de 'promoção de conteúdos' em tudo semelhantes às de quem põe a circular informação falsa) e, por outro, o alargamento da influência das redes sociais nas nossas vidas por via do acesso em mobilidade".

Neste ambiente, "temos uma espécie de receita perfeita para o desastre", diz. E, no ecossistema das redes sociais, as "notícias falsas estão fora de controlo".

Má notícia tende a afastar a boa

Se "a má moeda tende a afastar a boa moeda", segundo a lei de Gresham na economia, o mesmo sucede nas redes sociais, com as más notícias a obterem preponderância perante as da comunicação social tradicional.

"O Facebook, pelo design, pelo algoritmo e pela [sua] política, criou uma plataforma que amplifica a desinformação", sintetiza Zeynep Tufekci, da University of North Carolina (EUA). Também Mike Caulfield, da Washington State University Vancouver, chegou a uma conclusão semelhante: "as notícias falsas superam as notícias reais no Facebook em várias ordens de grandeza".

A realidade parece dar-lhe razão: os utilizadores do Facebook "interagiram" mais com notícias falsas dos dois candidatos finais à eleição presidencial nos EUA do que com as notícias de órgãos de comunicação social.

Nos três meses que antecederam a eleição, as 20 principais histórias falsas ou de blogues partidários geraram mais de 8,7 milhões de "partilhas, reações ou comentários no Facebook". Em contraste, as mesmas do top 20 de notícias de 19 sites de comunicação social apenas conseguiram 7,3 milhões de interações.

Uma semana antes da eleição presidencial, a empresa de analítica de media EzyInsights antecipava a vitória de Trump, que devia ser "agradecida" ao Facebook.

Um outro estudo, publicado um dia antes de se saberem os resultados das eleições, mostrou que cerca de 400 mil "bots" (programas de inteligência artificial) estavam a "operar" no Twitter, "gerando cerca de 20% de todas as mensagens relacionadas com as eleições".

Cerca de 75% das mensagens geradas por estes "bots" eram de apoio a Trump e, curiosamente, eles foram desativados após o dia das eleições.

"Os nossos dados sugerem que a presença de 'bots' nos media sociais podem afetar negativamente a discussão pública democrática em vez de a melhorar, o que pode potencialmente alterar a opinião pública e fazer perigar a integridade da eleição presidencial", afirma Emilio Ferrara, do Information Sciences Institute da University of Southern California (EUA).

"O que descobrimos é que as pessoas não são realmente boas a determinar se as fontes de informação a que são expostas são humanas ou de um 'bot'", explica. Sendo programados e mais ativos (alguns colocam mais de mil mensagens por hora no Twitter), as mensagens dos "bots" tornam-se mais influentes nas redes sociais - nomeadamente em certos estados. Além disso, eles "são mais complexos, usando inteligência artificial para falar com as pessoas" ou para replicar comportamentos, como desligarem-se à noite. "Eles clonam o comportamento das pessoas", diz Ferrara.

Dinheiro nas redes sociais ganha à comunicação social

Trump considerou as redes sociais como uma "ajuda" para ter ganho e que "os media sociais têm mais poder do que o dinheiro que [os democratas] gastaram e, de alguma forma, provei isso", disse na sua primeira entrevista como presidente eleito ao programa "60 Minutes".

Brad Parscale, director da campanha digital de Trump, vai no mesmo sentido: "o Facebook e o Twitter foram a razão pela qual ganhámos", com o "Twitter para Trump e o Facebook para a angariação de fundos". Até Andrew Bleeker, presidente da Bully Pulpit Interactive, responsável pelos esforços de marketing digital de Hillary Clinton, concorda: "eles gastaram uma maior percentagem das suas despesas no digital do que nós".

Segundo Gary Coby, diretor de publicidade do Republican National Committee, diariamente "a campanha lançava 40 mil a 50 mil variantes dos seus anúncios, testando como funcionavam em diferentes formatos", e, no dia do terceiro debate entre Trump e Clinton, fizeram 175 mil variações.

A campanha de Trump usou igualmente os chamados "dark post" no Facebook, textos dirigidos exclusivamente a uma faixa de utilizadores, definidos pelos seus interesses capturados nos media sociais por uma empresa como a Cambridge Analytica, cujo trabalho é segmentar os eleitores com base em milhares de pontos de interesse.

Num país em que mais de metade das pessoas usa as redes sociais para ter acesso às notícias e em que 47% não vota, é isto preocupante? É, por uma razão mais geral.

Quase 60% do conteúdo das hiperligações partilhadas numa rede social como o Twitter não é lido. "As pessoas estão mais dispostas a partilhar uma notícia do que a lê-la", sintetizava um dos autores do estudo. "As pessoas formam uma opinião baseada num sumário, ou sumário de sumários, sem fazerem o esforço de aprofundar".

Neste contexto, culpar o impacto das falsas notícias é igualmente apontar o dedo a tontos que, sem as lerem ou apenas verem o título, as partilham. Da mesma forma, culpar as redes sociais pela influência na decisão dos eleitores é retirar mérito às outras formas mediáticas de propaganda política na escolha de um candidato.

Descarregar "responsabilidades em cima das empresas que administram as redes onde gostamos de estar" não é aceitável, porque "há uma responsabilidade de cidadania ativa e responsável à qual nenhum de nós pode escapar" para "tomar decisões com base em informação credível e confirmada", salienta Luís Santos. "Compete-nos a nós assegurar que o lixo é rapidamente identificado como tal". Mas a dificuldade em identificar esse "lixo" não é fácil.

Facebook é plataforma tecnológica ou empresa de media?

"As notícias falsas no Facebook são um sintoma de um maior problema", explicava a Ars Technica, quando "a empresa tenta jogar em papéis contraditórios, tanto como editora fiável de notícias e como plataforma divertida de media social para partilha social. O problema é que não pode ser ambas".

Num ano de eleições, o comportamento do Facebook foi anacrónico. Após ter acarinhado as empresas de comunicação social para um suposto "news feed" especializado no passado, anunciou em Janeiro que o seu algoritmo de distribuição de mensagens não lhes iria dar mais "peso" do que aquelas apontadas pelos amigos. Assim, nivelou a qualidade dos conteúdos partilhados pelos amigos aos da comunicação social.

Em Agosto, despediu a equipa de editores humanos que analisavam as queixas e podiam bloquear as notícias falsas, integrando um algoritmo que aumentou a disseminação de notícias falsas, por não conseguir distinguir uma notícia verdadeira de uma falsa.

Ao decidir por esta via, o Facebook está a ser cauteloso e recusa ser visto como um órgão de comunicação social. "Somos uma empresa tecnológica, não uma empresa de media", afirmou Mark Zuckerberg.

Esta distinção, que alguns contestam, protege a empresa de um controlo regulatório mais apertado. Ao distanciar-se do mundo dos media, ela não pode ser acusada de estar a publicar qualquer "artigo" que possa gerar um processo (por difamação, por exemplo), sendo apenas intermediária nessa publicação.

Mas ao selecionar o que aparece na "news feed" ou na linha temporal de publicação dos utilizadores, não existe uma curadoria editorial, um trabalho de escolha e publicação semelhante ao feito no jornalismo?

Nesta indefinição e perante as críticas às notícias falsas sobre as eleições veiculadas pelo Facebook, Zuckerberg defendeu a sua rede, afirmando que "de todo o conteúdo no Facebook, mais de 99% do que as pessoas veem, é fidedigno".

Como é que ele sabe isso? Craig Silverman, da BuzzFeed, considerou ser "impossível quantificar totalmente a quantidade de notícias falsas no Facebook". A afirmação de Zuckerberg "é ela própria falsa", por não ser possível validar os dados, declara Walter Quattrociocchi. O professor da IMT School for Advanced Studies, em Itália, descobriu, ao longo de quatro anos, que 39 páginas de notícias com teorias da conspiração eram "três vezes mais vistas" do que 34 sites científicos.

Ao manter os dados para consumo interno, sem acesso a investigadores independentes, o Facebook fomenta a desconfiança e o ceticismo sobre as declarações dos seus responsáveis.

A maior operação de censura nos media?

Será que Zuckerberg sabe mesmo do que fala? Aparentemente, segundo um ex-editor do Facebook, a empresa sabe distinguir os sites com notícias falsas, tanto que os impede de terem publicidade da rede Facebook.

Após a polémica das notícias falsas, a Alphabet (empresa que controla o Google) e o Facebook anunciaram medidas para evitar a colocação de publicidade em sites com esse tipo de notícias.

A medida surge após se saber - antes das eleições - como jovens na Macedónia geriam "mais de uma centena de sites pró-Trump cheios de falsas notícias", onde incluíam textos citando fontes anónimas do FBI, que eram replicados no Facebook. A iniciativa visava levar os utilizadores para os seus sites, onde potenciavam ganhos na publicidade da rede AdSense, à qual pertencem a Google ou o Facebook, entre outros.

O mesmo sucedeu nos EUA, quando dois desempregados conseguiram criar um site pró-Trump e obtiveram 300 mil seguidores no Facebook só em Outubro passado. O que agora ganham leva a sentirem-se "desconfortáveis" a falar do mesmo, porque "não querem ter pessoas a pedir-lhes" dinheiro emprestado.

"As 'fake news' são um produto", sintetiza Luís Santos. "Servem apenas para ganhar dinheiro com visitas" mas, "considerando a fragilidade dos media", já "quase nada as distingue das 'notícias a sério' e isso, sendo muito mau para o jornalismo, é excelente para a valorização do produto. Ora, um produto com tão boas taxas de replicação e, ainda por cima, com técnicas narrativas e temáticas tão próximas das do jornalismo, é uma excelente ferramenta numa campanha eleitoral".

A NPR revelou como funciona a denúncia de conteúdo inapropriado, ou notícias falsas, no Facebook.

Após este ser marcado no próprio "post" pelos utilizadores, é enviado para um denominado "grupo de operações da comunidade". Este grupo tinha, em 2010, umas centenas de pessoas mas, dado o nível de trabalho, foi contratada a consultora Accenture, o que elevou o número para os milhares. É-lhes dito para "serem rápidos - muito rápidos", dado que a sua prestação "é avaliada pela velocidade", pelo que um trabalhador decide sobre uma mensagem no Facebook em cerca de 10 segundos. Numa média de oito horas diárias de trabalho, isso significa uma pessoa "limpar" 2.880 textos por dia.

"Quando a NPR mostrou estes números a atuais e antigos funcionários [do Facebook], eles disseram parecer ser razoável". Se estiverem "corretos", esta pode ser a "maior operação de edição - também conhecida por censura - na história dos media".

Este é o tipo de notoriedade que as empresas de relacionamento social não querem. Assim que o Facebook - ou o Google, no seu motor de busca - começarem a lutar visivelmente contra as notícias falsas, "julgando o que é ou não verdade, pessoas com visões contrárias vão virar-se contra as empresas, tal como acusam os jornais e as televisões de tendenciosos quando mostram notícias que não se encaixam na sua visão", antecipa a Wired.

Num contexto de controlo de danos, Zuckerberg revelou na passada sexta-feira na sua conta de Facebook o que a empresa pretende fazer sobre a "desinformação", repetindo basicamente o modelo atual. Em resposta, John Borthwick, da Betaworks, e Jeff Jarvis, professor de jornalismo da City University de Nova Iorque, apresentaram uma lista de "sugestões", sendo a primeira o facilitar aos utilizadores o "reporte de notícias falsas, discurso de ódio, assédio e dos 'bots'".

Apesar destas boas intenções, "não creio que o fenómeno vá desaparecer ou sequer abrandar", nota o docente da Universidade do Minho. "Ele marca o início de um tempo novo, em que percebemos (talvez já tarde demais) a falta que realmente nos faz uma informação credível, objetiva e honesta feita em nome de um ideal de serviço público (pela qual seria, naturalmente, necessário pagar, fosse de que forma fosse)".

"A Internet que ajudou a eleger Barack Obama em 2008 e foi usada na Primavera árabe em 2011 é diferente da Internet que levou ao Brexit e à eleição de Donald Trump", diz também a Wired.

Todos estes episódios serviram para uma maior consciência sobre o poder das redes sociais na potencial manipulação da opinião pública e para alertar sobre o fenómeno das notícias falsas. No caso dos EUA, poderá ainda servir para um maior escrutínio da presidência nos próximos anos.

E em Portugal?

"Nas eleições em Portugal - e mesmo em tempos de vida política útil de um governo (como o que vivemos agora) - as redes sociais são usadas pelas forças políticas (de formas mais ou menos diretas) para reforçar um tipo de mensagem. E isso acontece, em muitos casos, com recurso a leituras parciais, a declarações truncadas e/ou manipuladas ou mesmo a informações falsas", nota Luís Santos. "Este fenómeno da informação falsa, ou da informação com base em suposições, diz-que-disse, ouvi-dizer, sei-de-fonte-segura, não é um exclusivo das redes sociais - está presente, com enorme frequência e nalguns casos com regularidade semanal até em contextos jornalísticos, ajudando, naturalmente, a reforçar nos cidadãos um ambiente de muita pouca clareza e de confusão total entre o que é opinião de agentes políticos, o que é entretenimento e o que é jornalismo.

Se o fluxo de notícias falsas com as quais as pessoas contactam através de redes sociais pode, num futuro acto eleitoral em Portugal, vir a ser superior ao fluxo de notícias verdadeiras (...), é uma pergunta que deve - por razões pedagógicas - ser deixada no ar, sem resposta. Talvez isso nos ajude a ser mais atentos e talvez isso ajude o jornalismo nacional a abandonar algum envolvimento ativo na construção de narrativas ideológicas não explicitamente declaradas".

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