Em declarações à lusa, em Guimarães, à margem de uma conferência sobre a adaptação às alterações climáticas, o académico, coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, explicou que a equipa que analisou os fogos de 15 de outubro de 2017, que vitimaram cerca de 50 pessoas, analisou com mais ênfase o "forte impacto" dos incêndios nas zonas industriais, porque "foi uma coisa nova", comparativamente com outros incêndios, nomeadamente ao de Pedrógão Grande.

Sobre o incêndio de Pedrogão, que matou 68 pessoas e destruiu dezenas de habitações, Xavier Viegas lamentou que tenha sido a "emoção" a orientar a reconstrução das habitações, alertando que algumas casas estão a ser reconstruídas em "zonas de perigo" pelo que podem voltar a ser destruídas por incêndios futuros.

"Os acontecimentos de outubro de 2017 foram realmente dramáticos, muito graves e extensos. Nós compreendemos a sua extensão e pedimos um prazo alargado. Estamos a trabalhar arduamente e estamos praticamente a concluir a redação do relatório e a apontar para novembro [a entrega do estudo], embora não possa garantir uma data, um dia certo, porque são muitas situações, muitos casos", afirmou o responsável.

Sobre o trabalho que está a ser realizado pela sua equipa, Xavier Viegas explicou que se "concentrou muito nas perdas humanas", num estudo "caso a caso".

"Em traços largos, temos muitas situações em que as pessoas morreram dentro de casa, estavam simplesmente a dormir. Houve várias pessoas que tentaram fugir de carro, algumas que estavam a tentar salvar bens, um simples carro ou trator, ou animais. Temos vários casos de pessoas que morreram porque estavam a tentar salvar o seu sustento", descreveu.

No entanto, o relatório tem um outro enfoque: "Vamos falar também sobre o grande impacto deste incêndio nas zonas industriais, foi algo que nos causou impacto porque não estávamos à espera. Em Pedrógão não tínhamos uma destruição tão completa", referiu.

"O impacto nas casas, habitações foi enorme, numa escala maior do que em Pedrógão, mas não estava ao nosso alcance fazer um estudo sobre estas casas e tomámos a decisão de nos debruçar sobre as zonas industriais, que foi uma coisa nova", explanou.

O objetivo é, disse, "chamar a atenção das empresas para a proximidade das zonas florestais e da necessidade de cuidarem não apenas da zona envolvente à empresa mas também da proteção de cada uma das instalações fabris para não acontecer aquilo que se viu em que uma fábrica arde de alto a baixo e depois passa a outra e outro, tipo dominó".

Questionado sobre os trabalhos de reconstrução das habitações afetadas pelos incêndios em 2017, o académico deixou alguns avisos sobre o facto de algumas estarem a ser reerguidas nos mesmos locais.

"A opção foi reagir um pouco sobre a emoção e nesse pouco tempo e sem trabalho prévio não se conseguem mudar atitudes e tenho receio, de facto, que se possa estar a reconstruir para que daqui a uns anos se lamentem mais perdas", alertou.

Quanto ao ano de 2018, Xavier Viegas considerou que "foi realmente francamente melhor [do que 2017] em grande parte fruto das circunstâncias climáticas".

O especialista apontou ainda a "maior consciencialização das pessoas" para correrem menos riscos, traçarem planos de fuga ou evacuações planeadas e obedecerem às autoridades.

"Aprendemos alguma coisa", concluiu.

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