O espaço, vulgarmente conhecido como "sala de chuto", é o primeiro e o único que existe em Portugal para consumo de drogas com vigilância de técnicos de saúde e foi inicialmente pensado para 300 utentes ao final de um ano.

Era este o número que indicava um levantamento feito há mais de três anos na zona onde está instalado o espaço, no Vale de Alcântara, nas imediações do antigo Casal Ventoso.

"Não consigo deixar de pensar que este sucesso não significa uma coisa boa, é sinal de que a dimensão do problema era muito maior do que estávamos à espera", disse à Lusa o enfermeiro Paulo Marques, coordenador da área de saúde do projeto.

A sala começou a receber utentes em 18 de maio de 2021 e funcionou como projeto-piloto até março, quando fez um ano da autorização de funcionamento por parte do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD).

O espaço é gerido pela associação Ares do Pinhal, que se dedica à recuperação de toxicodependentes, e tem ainda como parceira a Câmara Municipal de Lisboa, que já assegurou o financiamento até ao final do ano. Depois, deverá ser o SICAD, que tutela o projeto, a assumir o financiamento, segundo explicaram à Lusa os responsáveis da Ares do Pinhal.

Tanto a Câmara de Lisboa, como o SICAD reconheceram que este é um projeto bem-sucedido e que deve continuar, como prova a perceção de que era necessário "e premente" aumentar a equipa de enfermagem para haver "segurança e capacidade de intervenção social e na saúde", disse à Lusa Rodrigo Dias Coutinho, diretor clínico dos programas da Ares do Pinhal.

O objetivo de um espaço como este é retirar os consumos de drogas das ruas, do meio da comunidade; dar segurança a quem consome, com a assistência em caso de overdose, mas também com rastreios médicos de doenças aos utentes; e o encaminhamento para tratamentos e programas de recuperação de toxicodependência.

No caso da sala de Lisboa, há ainda resposta para utentes em situação de sem-abrigo, com acesso a banhos ou a um banco de roupa.

A equipa de enfermagem foi reforçada na sequência da avaliação feita ao fim de um ano de projeto-piloto, o que permite que haja, neste momento, dois enfermeiros por turno.

Com isso, há mais segurança nos consumos e na atuação em caso de overdose, que foram 17 até agora, todas revertidas e concentradas nos últimos seis meses, coincidindo com o crescimento do número de utentes que usam a sala para injetar drogas.

Na sala, há consumo de drogas por via endovenosa (injetada) ou fumada, sendo que o espaço para quem fuma está já lotado, com uma frequência que ronda os 95 consumos diários, próxima da capacidade máxima. No espaço para o consumo endovenoso, há ainda margem de crescimento.

Segundo os dados da Ares do Pinhal, há neste momento cerca de 200 pessoas a frequentar a sala diariamente e o número de consumos diários ronda os 135.

A média de idades tem-se mantido nos 44 anos e 85% dos utentes são homens.

No primeiro ano de projeto-piloto (até final de fevereiro), houve 16.942 consumos fumados de drogas e 6.889 consumos endovenosos (29% e 71%, respetivamente). Se forem considerados apenas os últimos três meses deste período, a taxa de consumos endovenosos sobre para 38% e a de fumados fica nos 62%.

"Nessa avaliação [de março, no final do projeto-piloto] é que foi possível negociarmos algumas necessidades. Não vai colmatar todas as necessidades, como é obvio, a equipa continua a ser muito justinha. Mas, pelo menos já veio aqui dar um reforço e algum alívio também nas rotinas diárias", explicou Elsa Belo, coordenadora técnica da Ares do Pinhal.

O aumento do número de enfermeiros deu mais segurança aos utentes, perante a subida do consumo endovenoso e das overdoses, e permitiu também "que aumentasse brutalmente" o número de rastreios de doenças infecciosas e que começassem a ser feitos tratamentos a hepatites, segundo Rodrigo Dias Coutinho.

"Em 15 dias, igualámos os testes de todos os meses anteriores", acrescentou o enfermeiro Paulo Marques.

“Ter mais enfermeiros" significa também "libertar mais um técnico que possa investir mais no acompanhamento das pessoas, noutro nível", para as encaminhar para programas de recuperação, por exemplo, afirmou Elsa Belo.

"Estávamos ali um pouco reféns do consumo. Isto estava a condicionar tudo", acrescentou, dando como exemplo as limitações nas saídas da equipa comunitária à rua, no bairro onde está situada a sala, para contactos com a comunidade, recolha dos vestígios de consumo no exterior (como seringas) ou intervenção junto de consumidores e potenciais novos utentes.

Coincidindo com o primeiro ano de funcionamento, arranca esta semana a testagem, numa unidade móvel, das substâncias que os utentes levam para consumir dentro da sala, fruto de um protocolo com uma empresa que faz este tipo de análise.

A testagem será voluntária, "um serviço" que é colocado à disposição dos utentes, com vista à sua segurança, tendo já sido feita uma sessão de esclarecimento com quem frequenta a sala.

Para os técnicos que ali trabalham, a análise das substâncias é também uma "questão fundamental para a intervenção em caso de overdose", explicou Rodrigo Dias Coutinho.

O diretor clínico dos programas da Ares do Pinhal considerou que se podem fazer "vários tipos de balanço" do primeiro ano da sala de consumo assistido de drogas de Lisboa e realçou que "em termos da necessidade desta resposta, está completamente comprovada a necessidade".

Entre outros aspetos, referiu a adesão crescente, nos últimos meses, dos consumidores que injetam as drogas, cuja confiança é mais demorada e difícil de conquistar, sendo que é este o consumo que "traz mais problemas".

"Satisfaz-me muito esta adesão e esta confiança que os utilizadores têm na nossa sala", afirmou.

"Acho que o balanço, em termos gerais, é muito, muito positivo", resumiu, acrescentando ter esperança na resolução da estabilidade do financiamento do projeto, a partir do próximo ano.

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